



















 Jade
   Ruth Langan
   Jias do Texas 3


    Para realizar um plano ousado, Jade Jewel tinha de enfrentar um poderoso inimigo!
    Decidido a apagar da memria seu indigno passado como pistoleiro, o reverendo Wade Weston declara guerra ao pecado naquela pequena cidade do Texas. Mas no contava
com a chegada de Jade. Com sua determinao em construir ali um palcio dos prazeres, ela conturbou o sossego da comunidade. E, com sua beleza extica, despertou 
em Wade uma paixo que ameaava a paz de sua alma!
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    Captulo 1
    
    San Francisco. 1867
    
    - Quero que voc v morar no Texas comigo, Ahn Lin. - Joseph Jewel estava deitado entre os lenis amarrotados da grande cama, parecendo contente e saciado. 
    - Voc sabe que no posso. - A jovem mulher adiantou-se at a cama num quimono vermelho, que, fechado com displicncia, revelava quase tanto quanto encobria. 
    Ele observou-lhe o andar gracioso, apreciando a suave cadncia dos quadris, a curva dos seios, o sutil ondular da seda a cada movimento.
    Ahn Lin era a criatura mais extica que j conhecera. Era pequena, delicada, possua curvas perfeitas. Os cabelos eram negros como o bano, cascateando-lhe lustrosos 
pelas costas at a cintura. Tinha lbios sedutores que pareciam implorar para serem beijados. Os olhos escuros e penetrantes pareciam enxergar atravs da alma de 
um homem. 
    - No pode? - indagou Joseph, num quase sussurro. - Ou no quer?
    Em vez de responder, Ahn Lin estendeu-lhe uma bandeja repleta de uma variedade de frutas fatiadas, distribudas em agradvel simetria. Era possvel, nas docas 
dessa cidade cosmopolita, escolher do melhor que o mundo tivesse a oferecer. E ali, no Drago Dourado, o palcio dos prazeres mais opulentos da cidade, um homem 
podia encontrar uma infinidade de deleites. Os quartos eram adornados com os melhores cristais irlandeses e sedas orientais. Os tapetes sob os ps eram da Turquia. 
A mais refinada renda belga enfeitava os dossis das camas. 
    - Coma - disse ela, com um sorriso. - Isto ir acalmar a fera dentro de voc. 
    - No  comida que esta fera precisa. - Ele segurou-lhe o brao e, como de costume, Ahn Lin deixou-se envolver pelo magnetismo desse texano que havia muito roubado 
seu corao.
    Embora ela tivesse construdo a mais impressionante casa de entretenimento de San Francisco, uma cidade conhecida por seus excessos, tomara cuidado de se preservar, 
mantendo-se inacessvel a todos que ali chegavam para desfrutar os prazeres do lugar. Mas isso fora somente at que conhecera Joseph Jewel. Esse forte e poderoso 
baro do gado era o mais destemido aventureiro que ela j conhecera. E embora tivesse tentado resistir a ele no incio, acabara sendo totalmente conquistada por 
seu charme. 
    - Ns j falamos sobre isso antes. - A voz de Ahn Lin ainda carregava o tom malicioso de sua terra natal, a China. - Por que tem que continuar me tentando com 
o que nunca poderemos ter?
    Ele puxou-a um pouco mais para si, sem deixar de fit-la um instante sequer. 
    - Voc mesma sempre me disse que seu casamento foi apenas no papel. Pelos cus, voc tinha s trs anos de idade. E ele era o melhor amigo do seu av. Hoje em 
dia, seu marido deve estar com... Setenta ou oitenta anos. 
    - No importa. At que ele morra, estamos ligados um ao outro. Eu tenho que respeitar a tradio do meu povo... 
    - s favas com a tradio! Ele nunca deixar a China. E voc nunca retornar para l. 
    Ela pousou a mo no peito de Joseph e sentiu o prprio pulso se acelerando. Como era possvel que j o quisesse outra vez, toa depressa? Mas bastava toc-lo 
e no podia pensar em mais nada. 
    Num tom um tanto ofegante, disse-lhe:
    - No me pea o que no posso lhe dar. No  o bastante que voc seja o nico homem da minha vida? E que eu tenha lhe dado o que jamais poderei oferecer a ele?
    Nesse momento, houve uma discreta batida  porta. Ahn Lin ajeitou o quimono e afastou-se um pouco da cama antes de dar ordem de entrada. 
    Uma mulher mais velha numa tradicional vestimenta chinesa abriu a porta e colocou-se de lado para que uma graciosa jovem a precedesse.
    - Trago-lhe saudaes, honorvel pai. - A jovem de extraordinria beleza curvou a cabea respeitosamente, como sua tutora lhe ensinara. 
    Ahn Lin bateu palmas uma vez, e a garota ergueu a cabea. Mas foi a voz do pai, afetuosa e bem-humorada, que produziu um brilho nos olhos dela. 
    - Venha at aqui, Jade, e me d um beijo.
    Ahn Lin ficou de lado e, orgulhosa, observou a demonstrao de afeio entre pai e filha. A jovem tinha compleio pequena e os cabelos negros como  me, mas 
herdara os inconfundveis traos do pai americano. Na verdade, era como um elo entre as culturas de ambos. E embora a me estivesse ligada para sempre quela terra 
milenar e longnqua, era com imensa satisfao que sabia que sua filha conheceria a liberdade que ela prpria jamais teria. Era o legado desse adorvel texano. 
    - Quanto tempo pode ficar, pai? - sussurrou a garota depois de t-lo beijado na face. 
    - Partirei amanh cedo. - Pelo canto do olho, Joseph viu a tenso surgindo no rosto de Ahn Lin. Sabia que suas palavras tinham-lhe causado dor. Mas no havia 
nada que pudesse fazer a respeito. Era irnico, pensou que controlasse milhes de dlares e pudesse opinar junto ao prprio presidente, mas no conseguisse persuadir 
uma pequena e obstinada mulher a acompanh-lo at seu lar no Texas, para que pudessem viver como uma famlia de verdade. 
    - Terei chance de conversar cm voc antes que parta, pai?
    Ele passou a mo no cabelo da garota e beijou-lhe a fronte com ternura. 
    - Sabe que sim. E eu tenho um presente especial de aniversrio para voc. 
    - Um presente?
    - No  todo dia que a filha de Joseph Jewel faz dezesseis anos. 
    Ela soltou um riso delicado e lhe deu um ltimo beijo na face antes de voltar para o lado da tutora. Adquirindo uma postura formal, curvou-se ligeiramente e 
declarou: 
    - Eu lhe desejo um bom dia, honorvel pai.
    Ahn Lin curvou-se em resposta, enquanto Joseph piscou para a filha e lhe jogou um beijo. Jade tapou os lbios para conter os risinhos e deixou o quarto.
    Quando a porta se fechou, seguiu-se um silncio desconfortvel. Joseph estendeu a mo, puxando Ahn Lin para si. A bandeja de frutas caiu no cho, mas nenhum 
dos dois notou. Pois estavam cientes de que esse nico dia de paixo teria que durar at a prxima vez que pudessem estar juntos.
    Se o destino assim quisesse.
    
    Num outro conjunto separado de aposentos, Jade andava de l para c. Vira seu pai chegando naquela manh, carregando uma infinidade de misteriosos embrulhos 
e caixas. Como de costume, fora imediatamente para os aposentos de sua me, onde permanecera confinado pelo restante do dia.
    Ela fora educada desde que nascera para controlar sua impacincia e esconder seus verdadeiros sentimentos sob um vu de impassibilidade. Mas esse dia estava 
sendo impossvel conter as suas emoes. Estivera to distrada durante sua aula de francs que a mestra acabara desistindo em desespero. Quando tia Lily a mandara 
s docas com o cozinheiro para compara peixe fresco, caminhara to depressa que o pobre homem mal conseguira acompanhar-lhe o passo. Quando voltara e soubera que 
o pai e a me continuavam fechados em seus aposentos, ela ficara desapontada e recusara o almoo, embora fosse seu favorito: frango com especiarias e arroz. Afinal, 
uma vez que recebera a confirmao de seu pai de que teriam algum tempo juntos, estava apenas ansiosa para que as horas passassem depressa.
    Nem mesmo a promessa de sua tutora de um passeio de barco pela baa foi capaz de despertar-lhe a costumeira empolgao. Quando ambas, enfim, retornaram, a expresso 
no rosto dela era de expectativa, os olhos brilhavam.
    Encontrou os pais  espera em seu quarto e, de imediato, correu para os braos de Joseph.
    - Senti sua falta! Esteve longe por tempo demais.
    - Eu sei. Estou perdoado?
    Jade o abraou-o com fora, seu corao transbordando de amor pelo pai.
    - Por que no abre os seus presentes? - Ele virou-a na direo da cama, repleta de caixas de vrios formatos.
    Com um riso delicado, ela abriu uma a uma, revelando vestidos elegantes, Chapus e sombrinhas de Nova York, Paris e Londres. Havia sabonetes no formato de rosas 
e violetas. Tambm ganhou sapatos feitos de couro macio, cetim e peles. Havia um manto com capuz de comprimento at os ps, feito de seda pura e revestido de pele, 
para aqueles dias em que o vento frio soprava da baa.
    A cada presente, os olhos de Jade se arregalavam mais, os suspiros se suavizavam. E depois de admirar um a um, correu para os braos do pai com mais um beijo.
    - Achei que talvez pudesse usar isto hoje  noite - disse ele casualmente, oferecendo-lhe mais uma caixa.
    Jade ergueu a tampa para revelar uma tradicional tnica chinesa de seda verde.
    - Oh, pai, eu nem sequer tenho palavras.  to linda!
    - No mais do que voc. Voc desabrochou numa bela jovem - disse Joseph, orgulhoso. - Est quase to bonita quanto sua me.
    Era o mais alto elogio que o pai poderia ter-lhe feito, e ela sentiu um n na garganta.
    - Eu gostaria que voc e sua me se reunissem a mim l em baixo para o jantar especial de aniversrio.
    Poderia descer aos sales, por onde circulavam todos os ilustres freqentadores! Era uma rara ocasio, sem dvida.
    - Obrigado, honorvel pai. - Jade olhou timidamente para a me e viu que tambm estava surpresa. Embora tivesse sido criada no Drago Dourado, sempre fora mantida 
totalmente  parte do que acontecia ali. - Eu gostaria muito.
    - timo. Sua me e eu vamos descer agora. Junte-se a ns quando estiver pronta, sim?
    Joseph pegou a mo de Ahn Lin e ambos deixaram os aposentos da filha. Quando ficou sozinha, Jade praticamente rodopiou pelo quarto, parando apenas o suficiente 
para admirar cada presente mais uma vez. Ento, quando uma criada chegou para ajud-la a se vestir, sentiu o suave toque da seda deslizando por seu corpo. Seus longos 
cabelos foram escovados at brilharem. A criada prendeu-os com pentes de pedrarias e jogou-os por sobre um ombro, fazendo com que cascateassem sobre um dos seios.
    Quando Jade observou seu reflexo no espelho, conteve a respirao. Parecia diferente de algum modo; mais velha, talvez. Ou seria apenas sua imaginao?
    Contente, deixou o quarto e desceu as escadarias para se reunir com os pais. Encontrando a sala de jantar privativa vazia, adiantou-se pelos vrios ambientes 
destinados aos freqentadores. O ar estava impregnado com perfume francs, incenso e o odor forte de charutos. Havia o reverberar constante de vozes masculinas e 
o som ocasional de risos femininos. Taas tilintavam. Ao fundo, havia msica suave, ecoando de um piano de cauda e violinos. Tudo parecia cuidadosamente calculado 
para afastar as preocupaes do mundo exterior.
    Jade passou por mais uma porta, saindo para outra luxuosa e ampla sala. Vrios homens estavam sentados em torno de uma mesa, segurando cartas. Enquanto observava 
os jogadores, um homem ergueu a cabea e olhou em sua direo. Por alguns momentos, ela no pde se mover.
    Ele no estava vestido como os outros, num traje elegante de cavalheiro, mais usava roupas mais rsticas. Tinha um ar perigoso. Exceto por um casaco de couro 
de antlope, estava todo de preto, desde o colete at as botas. Usava um chapu preto que ocultava parte dos cabelos castanhos. A barba crescida no rosto deixava-o 
indefinido. Era evidente que estivera viajando e no tivera tempo de se barbear. Mas, apesar de os traos no se distinguirem direito por essa razo, ela pde ver-lhe 
os lbios, cheios e sensuais, curvados num sorriso. E os olhos, de um incrvel tom claro de castanho, cintilavam como os de um felino. Na mo que segurava as cartas, 
havia um anel de ouro e mbar que capturava e refletia as luzes das inmeras velas dos lustres de cristal. A julgar pela pilha de fichas  sua frente, era evidente 
que estava ganhando.
    Jade crescera num estabelecimento que recebia esse tipo de homem. Nenhum jamais a afetara de qualquer modo. Mas ao estar parada ali, sentindo a intensidade do 
olhar dele, no podia se mover e nem quase respirar. Esse era o homem mais atraente e fascinante que j vira na vida.
    - Aqui est voc. O cozinheiro preparou um jantar especial para ns. - Joseph, com Anh Lin a seu lado, parou perto da filha. - Vamos nos sentar. - Ofereceu-lhe 
o brao, e jade adiantou-se com ambos at chegarem  mesa a um canto mais retirado e tranqilo da ampla sala.
    Durante todo o jantar, ela pde sentir o olhar do estranho observando-a. Mesmo quando parecia absorto nas cartas, podia sentir-lhe os olhos castanho-claros em 
sua direo. E embora no soubesse a razo, era tomada por estranha euforia.
    Quando um criado levou-lhe ch e um bolo com velas acesas, Jade fechou os olhos e fez um pedido, soprando-as.
    - O que desejou? - perguntou-lhe a me, com gentileza.
    Jade sentiu o rubor espalhando-se por suas faces.
    - Se ela lhe contar, o desejo no ser realizado.
    Grata pela interveno do pai, Jade soltou um suspiro de alvio. Na verdade, havia desejado algo... Algum... Perigoso. Algum que lhe era proibido. Jamais havia 
acalentado tais pensamentos. E sabia que no tinha direito de t-los. No agora. E talvez nunca.
    Joseph tirou algo do bolso.
    - Tenho mais um presente para voc, Jade. - Estendeu-lhe uma pequena caixa de jia, abrindo-a. - Quero que use isto sempre. - Ergueu a corrente de ouro de onde 
pendiam duas pedras magnficas. Uma era preta e a outra, verde. A pedra preta  nix, forte como seu pai. - explicou ele. - A verde  jade, extica e delicado como 
voc. Assim, elas representam a ns dois.
    Jade sentiu as lgrimas aflorando em seus olhos enquanto o pai colocava o colar em torno de seu pescoo e o prendia. Partilhando de sua emoo, ele beijou-lhe 
ambas as faces. Ento, tomou-lhe as mos nas suas, fitando-a nos olhos. - No posso ser sempre o pai que eu gostaria. Mas saiba de uma coisa, minha querida. No 
importa o que acontea, sempre estarei com voc. Mesmo depois que eu tiver partido deste mundo, moverei cus e terras para olhar para voc.
    - Oh, pai... - Ela estava to comovida que as palavras lhe faltavam. Enlaou-o pelo pescoo e abraou-o com fora.
    - Fico feliz que tenha gostado do presente. Eu... - Quando Joseph sentiu uma mo em seu ombro, endireitou-se na cadeira e ergueu o olhar.
    - No  justo. - O homem que o encarava estava impecavelmente vestido num traje de noite com colarinho alto e engomado; diamantes cintilavam nas abotoaduras 
de ouro no punho. Mas nada disso fazia passara despercebido o fato de que estava embriagado. - Aqui est voc, com duas das mulheres mais bonitas do mundo... - Sua 
voz pastosa soava alto o bastante para atrair o olhar espantado de todos na sala. - E aqui estou eu, sozinho. Voc deveria estar disposto a dividir. - Tirou um grande 
punhado de moedas de ouro do bolso, depositando-as na mesa, e apontou para Jade. - Vou ficar com a mais jovem e...
    Joseph levantou-se to depressa que fez a cadeira cair para trs. Agarrou o homem pelo colarinho, interrompendo-lhe as palavras e at a prpria respirao. Seu 
rosto era uma mscara de fria.
    - Voc acaba de insultar minha famlia. A jovem  minha filha. Agora saia daqui! E nunca mais volte a pr os ps no Drago Dourado.
    Quando foi solto, o homem ergueu a mo, revelando algo reluzente que se destacou sob a luz das velas. Apontou o objeto para o peito dele.
    - Joseph! - gritou Ahn Lin. - Ele tem uma arma.
    Reflexivamente, ele jogou-a junto de Jade para trs de si e sacou a prpria arma, embora soubesse que era tarde demais. Antes que pudesse atirar, o som de um 
disparo reverberou pela sala. Por longos momentos, seguiu-se um silncio tenso. Ningum se moveu. Nenhuma palavra foi emitida. Ento, com um grito estrangulado, 
o bbado que provocara Joseph caiu no cho.
    Do outro lado da sala, o homem de preto virara a mesa, espalhando cartas e fichas por todos os lados, do cano de sua arma ainda saia fumaa.
    Por vrios momentos, Joseph e o pistoleiro se entreolharam, e a pequena multido pareceu ficar com a respirao em suspenso, esperando o que estaria por vir. 
Mas em vez de um temido tiroteio, o homem de preto devolveu calmamente sua arma ao coldre, indicando o fim do incidente.
    Um pandemnio se instalou no lugar, atraindo pessoas dos demais ambientes. Enquanto uma multido se aglomerava em torno do homem cado, aquele que o baleara 
observava sem qualquer indcio de emoo no semblante. Com a graa de um leo da montanha, adiantou-se at a mesa lateral, pegou um copo de usque e levou-o aos 
lbios, esvaziando-o de um s gole.
    Joseph agachou-se, verificando o pulso do homem e sacudiu a cabea.
    - Est morto. Do contrrio... - Deixou as palavras no ar. Mas todos sabiam que teria sido ele a estar estendido ali, morto, se no tivesse sido pela rpida interveno 
do misterioso pistoleiro.
    Jade, plida e abalada, ouvia apenas trechos dos comentrios ao redor.
    - ... j esteve aqui antes. Chamava-se Nub Harkness.
    - Sempre causando encrenca...
    - No conseguia largar o copo...
    - Pode se considerar com sorte por Nevada estar aqui neta noite - disse algum a Joseph -, ou seria voc a estar cado a e morto.
    Com um ar pensativo, ele atravessou a sala e falou com o homem que havia salvado sua vida. Estendeu-lhe a mo, e o pistoleiro apertou-a.
    Alguns minutos depois, as autoridades chegaram, e Joseph e Ahn Lin afastaram-se um pouco para o lado para responder as perguntas.
    Aproveitando-se da confuso, o pistoleiro adiantou-se at o canto retirado onde Jade ainda permanecia.
    - Sinto muito que sua festa de aniversrio tenha sido arruinada. - A voz dele era possante e mscula, mas proferiu as palavras quase num sussurro para que apenas 
ela escutasse.
    O corao de Jade continuava disparado, as pernas trmulas, mal tendo se recobrado do choque.
    - Obrigada. - Sentiu as lgrimas marejando-lhe os olhos e esforou-se para cont-las. - Obrigada por ter salvo a vida do meu pai.
    Ele estudou-lhe o belo rosto, vendo a confuso e o aturdimento que evidenciavam o estado de choque. No intuito de tranqiliz-la, perguntou-lhe num tom mais 
casual:
    - Quantos anos est fazendo hoje?
    - Dezesseis.
    - Dezesseis. - Os olhos dele percorrem-na devagar, e ela viu o estranho brilho que exibiram. Se qualquer outro homem a tivesse observado desse jeito, teria se 
sentido insultada. Mas esse desconhecido possua algo especial, enigmtico. Parecia irradiar um magnetismo irresistvel que a cativava. E, apesar do fato de que 
acabara de matar um homem, mostrava-se relaxado, quase indiferente.
    - Diz  tradio que se deve beijar uma jovem em seu aniversrio de dezesseis anos. Para dar sorte.
    Sem aviso, ele inclinou-se, tocando-lhe os lbios com os seus. Foi um mero roar, um toque suave. Mas ela sentiu uma seqncia de arrepios subindo por sua espinha, 
deixando-a trmula. Ficou to aturdida que no pde se mover, nem sequer falar. Tudo o que pde fazer foi permanecer imvel e absorver a sensao daqueles lbios 
quentes nos seus, rezando para que as pernas no fraquejassem.
    Quando o desconhecido deu um passo atrs, Jade esforou-se para estudar-lhe o rosto, para tentar memorizar seus traos. Mas apenas viu aqueles olhos de mbar, 
intensos e misteriosos, e os lbios, curvados num sorriso perigoso, enigmtico. 
    - O bbado estava certo quanto a uma coisa. Voc  a mulher mais bonita daqui.
    Mulher... Jade ficou atnita com o termo. Ningum nunca se referira a ela como uma mulher adulta antes.
    Ento, num gesto inesperado, ele estendeu a mo, traando o contorno dos lbios dela com o polegar, devagar, sensualmente, fascinado por sua textura macia. Enfim, 
sem mais uma palavra, afastou-se, desaparecendo em meio  multido, deixando-a desorientada demais para agir.
    Ele se fora, pensou com sbito e estranho desapontamento. O homem que salvava a vida de seu pai. O homem mais fascinante que j conhecera evaporara com as brumas 
acima da baa.
    Seu beijo roubado surpreendera-a. E seu gesto certeiro salvara a vida do homem que significava mais para ela do que qualquer outro no mundo.
    Tudo o que sabia a respeito do desconhecido era seu nome. Nevada.
    E o fato de que era capaz de matar sem nenhum remorso.
    
    
    Captulo 2
    
    Hanging Tree, Texas, 1870
    
    - Trago saudaes, honorvel pai.
    Jade Jewel curvou-se respeitosamente diante das sepulturas de seus pais. Costumava ir sozinha at aquele local varrido pelo vento depois que o calor do dia passava, 
encontrando quietude no recanto primitivo e isolado que seu pai tanto adorara. Era estranho, pensou, que tivesse sido a morte a finalmente reuni-los como uma famlia.
    Quando lera a respeito do assassinato de seu pai, deixara o Drago Dourado nas mos competentes de tia Lily e de uma equipe bem treinada e rumara de imediato 
para o Texas. O que descobrira quando chegara, tomada pelo choque e a dor, haviam sido trs irms que, embora totalmente diferentes, viram-se unidas por um elo em 
comum.
    Jade logo fora se afeioando quelas trs estranhas. Esmeralda, que era uma mulher de fibra, sempre vestida como seus vaqueiros, usando calas e botas, o cinturo 
com a arma eternamente em torno dos quadris. Prola, educada em Boston, era a dama perfeita, com seus vestidos belos e recatados e uma inseparvel sombrinha para 
proteger-lhe a pele delicada do sol custico do Texas. E Rubi, uma beldade exuberante de Nova Orleans, que chocava a todos com seus vestidos ousados e sua irreverncia.
    Apesar de serem todas to diferentes, Jade encontrara amizade, aceitao e, o melhor de tudo, um senso de amor familiar com essas jovens mulheres. E, assim, 
prolongara sua estada, juntando as cinzas de sua me ao solo texano, para que seus pais ficassem reunidos na morte como nunca tinham tido a chance na vida.
    No cu do entardecer pairavam rastros rseos e alaranjados contra os picos das montanhas ao fundo. Um vento forte soprava pelas colinas, fazendo os cabelos dela 
esvoaarem.
    Durante todo o dia, o ar de vero estivera muito quente e abafadio. Agora, com a noite se aproximando, estava frio o bastante para gelar os ossos.
    Para um vaqueiro da Fazenda Jewel que passasse ocasionalmente por ali, Jade apresentava uma figura fascinante. Era uma jovem pequena e delicada, tinha olhos 
escuros e amendoados e cabelos negros que lhe cascateavam lustrosos pelas costas at a cintura. Numa terra de pele e couro, ela preferia os trajes dos ancestrais 
de sua me: uma tnica longa de seda brilhante, com discretas fendas em ambos os lados para facilitar o caminhar. Nesse dia, usava uma de um verde brilhante, sua 
cor favorita, com gola chinesa e abotoada na frente.
    Aps uma infncia passada no luxo de San Francisco, essa rida paisagem texana lhe era totalmente nova. Mas, lembrou a si mesma, sua atual situao no estava 
sendo to difcil para ela como devia ter sido no passado para sua me, que deixara o conforto do lar e da famlia na China para recomear a vida em outro pas.
    - O que deu foras a voc, mame? - sussurrou ao vento. - Foram os costumes antigos? Ou o amor de um homem especial? - Seu olhar reverente pousou no tmulo do 
pai.
    No precisava perguntar o que dera foras a Joseph Jewel, o texano que roubara o corao de sua me. Ele fora o homem mais destemido e determinado que ela conhecera. 
Vivera sua vida intensamente, at o dia que a bala de um covarde o levara desse mundo.
    De sua bela charrete, Jade tirou um prato decorado com smbolos orientais. Acendendo uma pequena vareta com um fsforo, colocou-a no prato e observou a fumaa 
se espiralando, seguida por uma fragrncia intensa. Enquanto o incenso queimava, ela se ajoelhou diante dos tmulos e fechou os olhos, tentando acalmar a inquietao 
em seu esprito.
    - Acho que iria satisfaz-lo se eu ficasse aqui em sua casa, pai. Mas como posso criar razes no Texas e continuar seguindo os costumes antigos? - Permaneceu 
ajoelhada por longos momentos, em silncio. - Busco por sua sabedoria, pai.
    Sua mente foi povoada pelas lembranas do lar de sua infncia em San Francisco, os luxuosos aposentos acima do palcio de prazeres mais prestigiado da cidade. 
O lugar entretivera reis e polticos, milionrios e atores. Os ricos e famosos de todas as partes do mundo tinham estado ali, para ver e serem vistos. Naquele cenrio 
cosmopolita, a filha de Ahn Lin e Joseph Jewel tornara-se culta. Adquirira um vasto conhecimento intelectual, falava vrios idiomas. Mas o problema era que no fazia 
a menor idia de como colocar tal aprendizado em prtica.
    E, enquanto meditava, subitamente ocorreu-lhe algo; a soluo perfeita para seu dilema.
    Enquanto a viso em sua mente se dissipava, seus olhos se abriram lentamente, os traos suavizando-se num sorriso satisfeito.
    -  claro!  tudo to simples.  exatamente do que Hanging Tree precisa. Obrigada, meu adorado pai, por me mandar essa viso. Comearei a trabalhar imediatamente 
nas artes em que fui educada. Irei seguir a tradio de minha me e erguer uma rplica do Drago Dourado nesta cidade.
    
    Jade guiou sua parelha pela larga rua de terra, a principal de Hanging Tree. A elegante charrete branca e dourada passou diante da estrebaria, do armazm Durfee 
e do consultrio do Dr. Prentice. Ultrapassou a cadeia e o escritrio do xerife, a Penso Potter, at que, finalmente, parou na outra extremidade da cidade.
    Havia uma cacofonia de sons no ar, serrotes cortando madeira e pregos sendo martelados. Uma exclamao coletiva de aprovao ecoou de repente quando mais uma 
parede ficava pronta. Os trabalhadores pareciam atarefados como formigas enquanto erguiam a estrutura.
    Jade desceu da charrete e ficou observando seu futuro tomar forma diante de seus olhos. J podia imaginar a majestosa fachada, com a pintura de um drago dourado 
montando guarda de cada lado de uma imensa porta dupla de madeira entalhada.
    Uma vez l dentro, um visitante seria transportado para um outro mundo, No faltariam tapearias, moblias, adornos e requintes de todas as partes do mundo. 
Haveria msica suave, balsmica. Seriam servidas iguarias como nunca provadas ali antes. E o ar seria fragrante, contendo perfume francs e incenso.
    - Ali est ela, reverendo. - A voz de uma mulher elevava-se com a raiva. - Uma sirigaita como nunca se viu!
    Jade virou-se para ver o grupo de moradores da cidade marchando em sua direo. Era liderado pela mexeriqueira local, Lavnia Thurlong e a amiga Gladys Witherspoon, 
com o pastor entre ambas.
    - Por que pensa que pode trazer algo assim infame para nossa cidade? - indagou Lavnia, apontando para a construo.
    - Sim. Por qu? - As palavras, emitidas por umas seis ou sete mulheres, soaram como ecos.
    - Ora, ns nem sequer temos uma igreja ainda. E voc est desperdiando dinheiro e madeira preciosa nesse... nesse antro de perdio.
    Meia dzia de cabeas foram meneadas em assentimento.
    - Sra. Thurlong - comeou o reverendo com gentileza -, talvez devesse dar  srta. Jewel uma chance de falar.
    - Uma chance de falar! Pois sim! No precisamos ouvir nada de lbios profanos. Devemos atear fogo a essa construo pecaminosa antes que possa se transformar 
numa ameaa  nossa comunidade.
    Vozes murmuraram em concordncia.
    O pregador deu um passo  frente e encarou o grupo de mulheres iradas.
    - Sra. Thurlonh, j se esqueceu que concordou em apenas perguntarmos  srta. Jewel sobre suas intenes para este lugar que est construindo.
    - No preciso perguntar. Todo mundo sabe o que ela est planejando. Uma casa de prostituio! Aqui mesmo em Hanging Tree. - A mulher lanou um olhar glacial 
a Jade. - E no pode negar, no  mesmo?
    Ela virou-se, dando as costas ao grupo de pessoas.
    - Viram? - gritou Lavnia. - Ela no pode negar a verdade.
    Jade pde ouvir a voz do pregador, baixa, persuasiva.
    - Est certo, senhoras. J deram a sua opinio. Agora, acho que  o momento de retornarem a seus lares.
    - Oh, iremos, sim! - bradou Lavnia. - E fecharemos as cortinas para proteger nossos olhos da devassido que est invadindo esta cidade. Mas eu vou lhe avisando, 
reverendo, se no convenc-la a abrir seu estabelecimento imoral em qualquer outro lugar, teremos que recorrer a algo mais concreto do que meras palavras.
    Jade cruzou os braos em torno do corpo e ouviu o murmrio de vozes enquanto a pequena multido se dispersava.
    - Elas esto falando srio, srta. Jewel.
    Ao som da voz possante, Jade virou-se.
    - Reverendo Weston. Pensei que tivesse se afastado com o grupo.
    Ela deu um passo atrs, colocando mais distncia entre si e o jovem pastor que parecia ter cativado a imaginao de todas as mulheres de Hanging Tree, tanto 
as jovens quanto as mais velhas. Ele era intenso demais... Possua uma aura de fora e mistrio que a inquietava. Desde o momento que o conhecera, afetara-a dessa 
maneira. No entendia a razo. Mas algo no homem a desconcertava. Era alto, forte, atraente e... msculo demais. E tinha uns olhos...
    - Eu fiquei para que pudssemos ter uma conversa.
    - No quero conversar. S quero ver a construo do meu prdio progredindo. - Jade sabia que sua voz soara com certo nervosismo. Mas no podia evitar. Esse homem 
simplesmente mexia de alguma maneira com seus sentidos.
    No se parecia com um sacerdote. Na verdade, havia ocasies, quando ele pregava diante da congregao, seu punho no ar, sua voz soando com indignao, que parecia 
o prprio pecado. Com lbios sensuais demais e olhos de felino, fazia lembrar um poderoso predador liberto de uma jaula. Era, sem dvida, dono de uma energia latente, 
de um magnetismo que a intrigava.
    - At agora, as pessoas esto apenas recorrendo s palavras, srta. Jewel. Temo que quando a construo termine, voc tenha que lidar com muito mais do que ameaas.
    Ela estava perplexa, seus olhos escuros faiscando em desafio.
    - S porque vou abrir meu negcio aqui na cidade.
    - No  apenas mais um negcio. Para as pessoas simples de Hanging Tree,  uma obra do demnio. - Ele estudou-lhe a expresso chocada e soube que a surpreendera. 
- Jamais permitiro.
    - Isso tambm  uma ameaa, reverendo Weston?
    -  apenas um aviso. No faz idias do fervor dessas pessoas. Acho que dever ficar preparada para uma guerra.
    - O que quer que eu faa? Que pare de construir o prdio agora, antes mesmo que esteja terminado?
    - Poderia transform-lo em algo que as pessoas precisem.
    - Como o qu? 
    - Que tal um hotel?
    - Chamar o Drago Dourado de hotel seria to descabido quanto dizer que meu pai era um vaqueiro.
    - Comenta-se que antes de ter se tornado um baro do gado, Joseph Jewel tinha sido de fato um simples vaqueiro.
    Ela ergueu o queixo.
    - Simples? Jamais. E o Drago Dourado nunca ser apenas um hotel. No pas de minha me, seus ancestrais proporcionavam entretenimento aos imperadores. - A voz 
de Jade elevou-se, orgulhosa. - Meu estabelecimento ser um lugar onde homens de toda a parte podero de divertir.
    - Ento, fique avisada. Os cidados de Hanging Tree no aceitaro isso facilmente.
    - Acho que no  com os moradores dessa cidade que se preocupa, reverendo. - Ela abriu um sorriso frio, embora seu tom trasse a crescente raiva. - Acho que 
teme que as palavras que prega no sero fortes o bastante para ajud-los a resistir aos... prazeres que minha casa oferecer.
    O pastor estreitou o olhar.
    - Conheo melhor estas pessoas do que voc. Iro se juntar e combat-la. E essa guerra poder se tornar sria.
    - E posso apostar que isso o deixar contente. - Ignorando-o, ela lhe deu as costas e observou os trabalhadores. - Poder se tornar um heri aos olhos de sua 
congregao os liderar na luta contra o demnio.
    - Eu no iria querer que isso acontecesse, srta. Jewel.
    - Nem eu, reverendo Weston.
    Orgulho. Obstinao. Essas eram as palavras que lhe surgiam  mente enquanto ele a observava. Sabia, porm, por experincia prpria que a jovem no seria preo 
para as pessoas de Hanging Tree.
    - Espero que mude de idia quanto ao tipo de trabalho que planeja fazer aqui.
    - E como posso?  tudo o que sei, fui educada para isso!
    O pregador tornou a estreitar o olhar, enquanto lhe observava o queixo erguido em altivez. Ser possvel que, em sua inocncia, ela no visse nada errado com 
seus planos?
    - Tenha um bom dia, srta. Jewel. - Meneando-lhe a cabea num gesto polido, ele se afastou.
    Jade continuou observando os trabalhadores. Mas seu corao estava descompassado no peito. E o dia ficara insuportavelmente quente. Era a raiva, disse a si mesma, 
no do pastor, que lhe exercia esse efeito.
    
    - Boa tarde, srta. Jewel. Eu estava falando sobre o seu novo negcio ao reverendo e a Willy aqui. - Rufus Durfee, dono do armazm, indicou Wade Weston e um fazendeiro 
visitante, que lhe levara uma carroa de porcos em tora de sacos de farinha e acar.
    Jade cumprimentou-os com sorriso polido.
    Rufus apontou para a extremidade da rua principal.
    - A srta. Jewel est construindo o Drago Dourado.
    O fazendeiro olhou pela janela empoeirada, observando os trabalhadores, enquanto se reuniam para erguer a ltima parede.
    Adiantando-se at uma prateleira que exibia uma certa variedades de cortes de tecido, Jade ouviu-o perguntando ao dono do armazm:
    - Para que servir um lugar como este aqui, no meio do nada? Quem, afinal, poder pagar para freqent-lo?
    Rufus deu de ombro.
    - O que importa? Desde que no seja o meu dinheiro, estou disposto a deixar a srta. Jade construir o que quiser. No se esquea, a cidade est crescendo. No 
ano passado comeamos a receber a visita de juiz quase uma vez por ms. E h aqueles banqueiros que esto querendo assumir o banco de Chester Pierce, depois que 
ele foi enforcado por ter atirado em Joseph Jewel. - Ele baixou a voz. - Parece que o progresso est mesmo chegando em Hanging Tree. Alm do futuro estabelecimento 
da srta. Jewel, Farley Duke acabou de completar o trabalho na sua serraria perto do riacho. E h um rumor de que a estrada de ferro est vindo para c. Se for verdade, 
haver vaqueiros, funcionrios da ferrovia e pessoas de todo o pas passando por nossa pequena cidade.
    - A estrada de ferro! - A voz do fazendeiro elevou-se em empolgao. - Ora, Hanging Tree poderia se expandir at ficar com Fort Worth ou Abilene.
    - Exatamente o que eu estava pensando - concordou Rufus, entusiasmado com o assunto. - Talvez eu devesse ampliar o meu armazm. A simples parada de alguns grupos 
de viajantes conduzindo gado j esgotaria meu estoque num nico dia.
    Jase sorriu consigo mesmo enquanto escolhia um corte de tecido cor-de-rosa para Prola. Esperava que os rumores quanto a estrada de ferro fossem verdadeiros. 
Se fossem, o Drago Dourado poderia se tornar o osis de diverso mais importante de todo o Texas.
    Ouvindo passos, virou-se enquanto Wade Weston parava atrs dela no corredor.
    - Est me seguindo?
    - No se lisonjeie, srta. Jewel. - Ele estendeu o brao apanhando um pacote de tabaco em cima da prateleira de tecidos. - No decorrer de qualquer dia da semana, 
 provvel que veja metade da populao de Hanging Tree entrando e saindo do armazm.
    Jade observou o pequeno pacote nas mos.
    - Tabaco, reverendo? Pensei que estivesse acima dessas coisas.
    Diante da provocao, ele limitou-se a sorrir.
    - Vou fazer uma visita a Yancy Winslon e achei que ele apreciaria uma pequena lembrana.
    - Eu deveria ter imaginado. Voc no tem vcio, no  mesmo?
    O sorriso de Wade alargou-se.
    - Nenhum que eu queira lhe contar, srta. Jewel.
    Enquanto ele se afastou, Jade fuzilou-o com o olhar antes de segui-lo a distncia.
    - Evidentemente - dizia Rufus ao fazendeiro -, sempre h o lado ruim do crescimento de uma cidade. Ouvi algumas histrias recentemente que me fizeram pensar 
o que poder acontecer com Hanging Tree daqui em diante.
    - O que quer dizer?
    Rufus olhou ao redor antes de prosseguir, apreciando o fato de que seu pblico aumentava. Duas mulheres da cidade tinham acabado de entrar. Lavnia Thurlong 
e Gladys Witherspoon olharam atravessado para Jade enquanto se aproximava.
    - H um falatrio de um bando de fora-da-lei possa estar no territrio. Um fazendeiro voltou de um dia de trabalho no campo e encontrou a esposa e os filhos 
mortos, alm da casa e o celeiro incendiados. E isso no  tudo.
    - Continue - disse lavnia, sua expresso vida. Mal podia esperar para espalhar tais informaes. - O que mais ouviu?
    O dono do armazm falou pausadamente para dar mais efeito s palavras:
    - Parece que em Crooked Creek um fazendeiro foi encontrado morto com um tiro nas costas e que seu rebanho inteiro foi roubado. Alguns dizem que  servio do 
bando Garland.
    Embora o nome no significasse nada a Jade, no pde deixar de notar a reao do reverendo Weston. Ficara muito quieto, seu semblante sombrio.
    - No pode ser. - O fazendeiro sacudiu a cabea.- Eu ouvi falar que esse bando terminou h anos, depois que um dos integrantes foi para a priso.
    - Tambm ouvi isso - assentiu Rufus. - Mas o xerife Regan acha que esses assassinatos tm o jeito brutal de Ned Garland.
    Ele aceitou o dinheiro que Jade lhe estendeu, devolvendo-lhe o troco e, desviou a ateno para o pregador.
    - Pea a Yancy que lhe d uma lista de suprimentos, reverendo, e direi aos meus filhos que os levem da prxima vez que estiverem a caminho de l.
    - Obrigado. Ele ficar agradecido.
    Enquanto Jade ia deixando o armazm, o reverendo Weston seguiu-a, estendendo a mo para ajud-la com o corte de tecido.
    - Posso carreg-lo sozinha - protestou ela.
    - Tenho certeza que sim. - Ele pegou-o, segurou a porta e, ento, acompanhando-a at a charrete. Depois de colocar o tecido cuidadosamente na parte de trs, 
cobriu-o com uma velha colcha de retalhos para proteg-lo da poeira da estrada.
    - Obrigada. - Ela subiu na charrete e apanhou as rdeas da parelha. - Mas talvez no queira ser visto fazendo-me gentilezas, reverendo. - Lanou um olhar significativo 
para o armazm, indicando Lavnia e Gladys que observavam atravs da janela. - Afinal, o que os respeitveis cidados de Hanging Tree vo pensar se virem seu pastor 
com uma pecadora? Talvez o achem indigno de pregar seus sermes na cidade deles.
    - Eu no me preocuparia com a minha reputao se fosse voc, srta. Jewel. Ter que se preocupar o bastante com a sua prpria. - Ele abriu-lhe um sorriso perigoso 
e tocou a aba do chapu polidamente antes de se afastar pela rua.
    Enquanto deixava Hanging Tree em sua charrete, Jade esforava-se para tirar Wade Weston dos pensamentos. Por que o pastor de uma cidadezinha lhe causava tamanha 
inquietao? O homem era, afinal, um grande arrogante. E perfeito demais para o seu gosto.
    Preferia um aventureiro como Joseph Jewel, o homem que conquistara o corao de sua me. Ou... pensou de repente sem poder evitar... um misterioso pistoleiro 
todo vestido de preto, que atiraria calmamente em qualquer um que ameaasse fazer mal a ela e, depois tomaria seus lbios num beijo de inebriar os sentidos.
    Esforando-se para dissipar o tolo devaneio, concentrou-se no trabalho pela frente. Teria que ir a San Francisco em breve, para providenciar toda a moblia para 
o novo Drago Dourado, ponderou.
    Os rudos costumeiros de sua charrete haviam bloqueado o som constante de cascos de cavalos, e Jade s os ouviu galopando quando j estavam prestes a alcan-la. 
Virando-se, ficou perplexa em deparar com um grupo de cavaleiros. Tinham os rostos cobertos por lenos.
    E apontavam as armas em sua direo.
    
    
    Captulo 3
    
    Uma onda de pnico tomou conta de Jade, produzindo-lhe um n na garganta que ameaou sufoc-la. Lembrando-se das horrveis histrias de Rufus, instigou a parelha 
com as rdeas, fazendo-a disparar. A charrete corria pelo caminho poeirento e irregular, sacolejando violentamente. 
    Nem mesmo quando ouviu o som de tiros ela decidiu parar. Em vez disso, gritou para os cavalos, incentivado-os a galopar a toda a velocidade.
    Um rpido olhar por sobre o ombro avisou-a que os cavaleiros iam diminuindo a distncia. Um deles avanou cada vez mais at emparelhar sua montaria com a charrete.
    - Pare, ou eu atiro! - gritou o homem, apontando-lhe a arma.
    Quando viu que ela tinha no inteno de obedecer, aoitou o cavalo at alcanar a parelha e a fez parar abruptamente.
    Cavaleiros rodearam a charrete, as armas em punho.
    - Desa da, mulher! - ordenou-lhe um deles.
    - Vamos ver o que tivemos tanto trabalho para pegar - disse um outro.
    Os homens riram at um olhar na direo do lder os fez parar de imediato.
    Ele permaneceu na montaria. Em vez da arma, segurava agora um chicote. Um leno cobria-lhe o rosto; apenas os olhos se viam abaixo da aba do chapu. Havia um 
brilho impiedoso naqueles olhos frios e escuros.
    - Desa. - A voz dele, dura e autoritria, acentuava-lhe o aspecto ameaador.
    O medo deixou o corao de Jade descompassado, mas esforou-se para no demonstr-lo. Segurando o xale com firmeza em torno dos ombros, desceu da charrete e 
encarou os malfeitores.
    - Se  dinheiro que querem...
    - Oh, no tenha dvida de que tomaremos o seu dinheiro. E outras coisas tambm... - Ante o tom sugestivo do lder, os demais soltaram sonoras gargalhadas.
    - Tire o xale. Quero examinar o que estou levando. - Ele comeou a desenrolar o chicote.
    Jade permaneceu imvel, segurando o xale com muita fora em torno de si.
    - Acho que terei que lhe ensinar uma lio. Quando dou uma ordem, espero ser atendido sem demora. - O chicote serpenteou no ar e, com um movimento rpido e preciso, 
arrancou-lhe o xale.
    O olhar do homem se estreitou ao ver o que ela estivera escondendo. O cabo de um punhal, cravejado de pedras preciosas, cintilou em sua pequena mo.
    - Acha que pode usar isso contra todas essas armas? - perguntou desdenhoso.
    - Quer testar minha habilidade? - O pavor quase sufocava a garganta de Jade, fazendo sua voz soar rouca. Mas no tinha inteno de sucumbir ao terror que ameaava 
domin-la. - Antes que suas balas possam me deter, meu punhal se enfiar em seu corao.
    O lder se endireitou na sela, observando-a em silncio. 
    - Eu acho que est blefando. - Ergueu a mo no ar para mais um golpe certeiro com o chicote. Ao mesmo tempo, ela atirou o punhal. Num gesto reflexivo, ele moveu-se 
na sela e, em vez de acertar-lhe o corao, o punhal fincou-se em seu ombro.
    - Ora, sua... - O malfeitor soltou um brado irado, enquanto arrancava o punhal do ombro e o jogava de lado, estancando o sangue do corte profundo com a mo.
    Antes que os homens pudessem reagir, uma srie de tiros ecoou no ar, fazendo-os jogarem-se ao cho para se protegerem. Uma nova seqncia de disparos levantou 
poeira logo  frente dos cascos dianteiros do cavalo do lder.
    - Devem ser homens do xerife, Ned - gritou algum. - Corra!
    O lder lanou um ltimo olhar para Jade e, ento, virou o cavalo depressa, fugindo em disparada. Com gritos e praguejamentos, os demais do bando seguiram-no 
em suas montarias.
    Sozinha, Jade virou-se na direo dos tiros, mas no pde ver nada exceto um denso arvoredo. Aguardou, mas nenhum cavaleiro apareceu.
    - Eles j se foram! - gritou. - Correram dos seus tiros! 
    No houve respostas s suas palavras.
    Intrigada, agachou-se, apanhando do cho o punhal esquecido. Ainda estava manchado com o sangue do fora-da-lei. Segurando-o pelo cabo com firmeza, adiantou-se 
at o arvoredo.
    - Quem estiver a pode sair agora. Os bandidos fugiram.
    Mas no havia ningum em meio s rvores. Ela olhou em todas as direes, mas no avistou viva alma.
    Ajoelhou-se, estudou o cho. Viu as inconfundveis marcas dos cascos de um nico cavalo.
    Seria possvel que tivesse sido salva por apenas um homem? Se fosse o caso, fora sensato em ter mantido a identidade escondida daqueles pistoleiros. Do contrrio, 
no havia dvida que o teriam enfrentado no tiroteio e buscado vingana por sua interveno.
    Mas por que no permanecera ali para se revelar a ela? Queria agradecer-lhe por ter-lhe salvo a vida e, de algum modo, recompens-lo por sua bondade.
    Depois de ter estudado a rea ao redor com ateno, retornou  charrete e apanhou as rdeas. Enquanto os cavalos seguiam a um trote rpido, os efeitos do que 
quase acontecera comearam a ser sentidos. Apesar do calor do sol, Jade no pde parar de tremer. No tinha dvida de que, sem a interferncia de seu misterioso 
salvador, seu destino teria sido o mesmo das outras vtimas desse bando sanguinrio.
    Mas que a salvara? E por que preferia manter sua identidade secreta?
    
    - Um homem misterioso. Que romntico - comentou Prola depois que Jade contou s irms o que acontecera.
    Seu marido, Cal, capataz da Fazenda Jewel, pousou a mo de maneira protetora no ombro da esposa quando ouviu o relato e puxou os filhos adotivos, Daniel e Gilbert, 
mais perto de si. O incidente era mais uma coisa com que se preocuparem. Mais uma razo para os vaqueiros olharem pelas suas crianas e filhos.
    - Teremos que relatar o ocorrido ao xerife.
    Jade assentiu.
    - Se no tivesse sido por meu... salvador misterioso, haveria algo bem mais grave a relatar.
    - Homem misterioso, bah! - Esmeralda, com seu tpico cinismo, tocou a arma que levava  cinta. O colete de couro no podia ocultar o ligeiro volume em seu ventre, 
a nica indicao de que estava esperando um beb. - O que precisa  de um bom par de revlveres. - Lanou um olhar apaixonado ao marido, Adam, que retribuiu seu 
sorriso com uma piscadela. - Assim, no precisa de um homem para salvar sua pele. Pode fazer isso sozinha.
    - Tenho meu punhal - disse Jade. - E eu o usei contra o lder do bando. Mas nem mesmo um par de revlveres teria sido o bastante para enfrentar aqueles homens. 
Sem aquele pistoleiro misterioso, eu jamais teria sobrevivido.
    - Quem teria sido? - murmurou Esmeralda, pensativa. - A maioria dos vaqueiros destas redondezas trabalha para ns, ou para uma das fazendas vizinhas.
    - Talvez tenha sido um caubi de passagem - sugeriu Prola.
    - Mas por que no teria se revelado a mim? - indagou Jade, ainda intrigada.
    - Poderia ter sido algum foragido - disse Adam, lembrando-se de sua prpria tribulao com a lei, quando fora acusado injustamente de assassinato.
    Cal assentiu, concordando.
    - Um homem que estivesse fugindo da lei no iria querer que ningum da regio soubesse de seu paradeiro.
    - Vocs esto todos errados. Eu sei quem foi, chrie - disse Rubi a Jade.
    Todos viraram-se para a jovem, cujos lbios curvavam-se num sorriso triunfante.
    - Foi o seu anjo da guarda.
    - Ora, bobagem - retrucou Esmeralda.
    - Bobagem! Voc no acredita em espritos?
    A pergunta de Prola interrompeu a ambas:
    - Voc no disse que havia marcas de cascos de cavalo?
    Jade assentiu.
    Prola virou-se para Rubi, determinada a deixar que o bom senso prevalecesse.
    - No acho que anjos da guarda andem a cavalo.
    - E como pode saber o que houve? - retrucou ela, exasperada. - Jade falou que o arvoredo estava vazio. Essas marcas podem ter sido deixadas l por algum cavaleiro 
horas antes. Vai precisar de melhor argumento para me convencer de que no foi o anjo da guarda dela que a salvou.
    Quando Jade se recolheu a seu quarto, refletiu a respeito de tudo que se comentara durante a conversa. Estava mais confusa do que nunca. Que tivesse sido um 
esprito, um anjo da guarda ou um homem de carne e osso, devia a sua vida a esse protetor annimo.

    Wade Weston soltou um bocejo e se espreguiou antes de afastar a coberta e se levantar da relva onde dormira. Decidira no voltar para seu quarto da penso de 
Millie Potter na noite anterior. s vezes, ansiava por ficar sozinho. Precisava de um descanso do elegante terno preto, da impecvel camisa branca e das palavras 
polidas que esperavam de um pastor.
    No era que no gostasse das pessoas. Na maior parte do tempo, apreciava companhia. Havia pessoas decentes como Millie Potter, Rufus Durffe, o velho Yancy Winslow, 
entre vrias outras.
    Mas havia ocasies que simplesmente precisava estar sozinho. E era quando o seu humor ficava sombrio, encobrindo todas as coisas boas, preciosas e decentes da 
vida. Nesses dias, tinha que se afastar de tudo, fechar-se em si mesmo e ser seu prprio conselheiro.Jogou mais um pedao de lenha nos restos da fogueira antes de 
colocar o bule de ferro enegrecido sobre as brasas. Logo o ar estava perfumado com o aroma forte e revigorante de caf.
    Barbeou o rosto, passando a lmina por sua pele com eficincia. Ento, despiu-se e entrou nas guas frias do riacho prximo. Depois de ter se ensaboado, comeou 
a nadar. Com braadas fortes, atravessou at a outra margem e voltou. Exigindo o mximo de si mesmo, continuou nadando at que seus msculos protestassem.
    Ofegante com o esforo, saiu do riacho e jogou os cabelos para trs num movimento que fez as gotculas de gua cintilarem sob o sol da manh. Com a pele ainda 
mida, teve certa dificuldade para vestir as calas. Ao estender a mo para apanhar a camisa da relva, percebeu um movimento repentino pelo canto do olho. Virou-se.
    Jade estava ali, sentada em sua charrete.
    Por quanto tempo estivera l? Pela expresso de seu rosto, por tempo bastante para ter visto mas do que esperara, pensou ele. Tinha os olhos arregalados os lbios 
um tanto entreabertos em admirao. Mas no demorou para se recompor. Numa questo de segundos, seu rosto voltou a adquirir um ar impassvel.
    - No deveria se esgueirar pelas costas do outros sem avisar. Se eu fosse outro tipo de homem, poderia ter disparado uma arma antes mesmo de saber de quem se 
tratava. - Wade apanhou a camisa e vestiu-a, acabando de aboto-la enquanto se aproximava da charrete.
    Notando que ela comprimia os lbios, suavizou sem tom.
    - Desculpe-me, srta. Jewel. No tive a inteno de ser to rude. Mas voc me surpreendeu.
    - Voc tambm. - Por alguns momentos, Jade parecia no conseguir desviar o olhar daquelas mos fortes, fechando os botes. Em seguida, viu-se fascinada por aqueles 
ombros largos, pelos msculos visveis sob o tecido d camisa. No podia se esquecer tampouco da cena que vira minutos antes. Ele tinha o corpo forte e vigoroso de 
um fazendeiro, ou de um caubi. Era uma constituio fsica que dificilmente se esperaria de um reverendo. - Eu... no estava preparada para ver voc... ou quem 
quer que fosse aqui.
    Os traos srios dele suavizaram-se num sorriso zombeteiro.
    - Obviamente eu no esperava ver voc tambm, ou teria estado mais preparado. Ou pelo menos melhor vestido. - Fez um gesto de cabea na direo da fogueira. 
- Gostaria de se juntar a mim para um caf?
    - No, obrigada. Desculpe-me pela intromisso. - Ela ergueu as rdeas da parelha, preparada para ir embora.
    Wade ergueu a mo para det-la.
    - Por favos, srta. Jewel, no v. Receio ter reagido de maneira errada. Torno a lhe pedir desculpas por minha rudeza. E eu realmente apreciaria sua companhia.
    Ao sentir-lhe a mo cobrindo a sua, Jade foi tomada por uma imediata onda de calor. Esforou-se para no demonstrar quanto a afetava.
    Sua reao a esse homem no cessava de intrig-la. Ele j deixara claro que tinha inteno de se opor a ele. O que seu honorvel pai sempre dissera quanto a 
um inimigo?  melhor enfrentar suas palavras zangadas agora do que sua arma mais tarde. Talvez devesse ser cordial com seu oponente, pensou. Ou, ao menos, rebater 
diplomaticamente seus argumentos com alguns dos seus.
    - Bem, acho que tenho tempo para um caf. - Jade desceu da charrete, encaminhando-se at o tronco cado, onde se sentou. - Voc sempre dorme sob as estrelas?
    - Nem sempre.
    - Achei que tivesse um quarto alugado na penso de Millie Potter.
    - E tenho. - Ele encheu duas canecas e entregou-lhe uma antes de se sentar na relva. - Mas s vezes sinto a necessidade de ficar sozinho.
    - Ah, eu entendo como . Eu mesma me vejo precisando de um pouco de solido de vez em quando.
    - Suponho que deva ser difcil s vezes, enfrentar a perspectiva de um novo negcio, enquanto ainda est se adaptando ao fato de que tem trs irms.
    - Realmente, ainda no sei o que  mais difcil: acostumar-me ao futuro negcio, ou o fato de que tenho trs irms das quais nem sequer sabia a existncia.
    Wade estudou-a por sobre a caneca. A tnica de seda pssego moldava-lhe as curvas de uma maneira instigante. Parecia pequena. Delicada. As sabia que aquela aparncia 
de fragilidade era enganosa. Jade Jewel provara ser uma mulher forte e valente. No momento, franziu o cenho, e ele soube que era a causa disso. Normalmente teria 
feito o possvel para amenizar-lhe a tenso. Mas nesse dia era como se houvesse um demnio dentro de si; um que estava cansado de combater.
    - O que a traz s proximidades deste riacho a essa hora do dia, srta. Jewel? No acredito que seja privacidade que esteja buscando. Nem um banho. - Embora a 
hiptese de v-la se banhando fizesse uma espcie de fogo correr por suas veias.
    - Eu estava ansiosa para ver o que os trabalhadores j fizeram desde a minha visita ontem. - Na verdade, ela precisava reunir toda a sua coragem para deixar 
a segurana da fazenda. Mas no podia permitir que um bando de malfeitores lhe roubasse a liberdade. E assim, apesar dos seus temores, forara-se a sair. - Mas dessa 
vez eu... pensei em fazer um caminho diferente at a cidade.
    Wade notou-lhe a hesitao na voz.
    - H algo errado?
    -  claro que no. Tudo est perfeitamente bem. Por que pergunta?
    - Apenas fiquei curioso quanto  razo de voc ter vindo nesta direo, j que  to fora do seu caminho. - O olhar dele foi atrado pelo punhal preso ao cinto 
da tnica de Jade. - E quanto ao porqu de estar usando isso para se proteger.
    Ela acompanhou-lhe a direo do olhar.
    - Sempre carrego isto, embora eu costume mant-lo escondido. Era de minha me. E antes foi de minha av. Quando minha me veio da China, carregava este punhal 
para afastar os maus espritos.
    Os lbios de Wade curvaram-se.
    - E deu certo?
    Ela abriu um sorriso misterioso.
    - No sei quanto aos maus espritos. Mas o punhal a salvou muitas vezes de homens com ms intenes.
    Wade ficou pensativo enquanto observava a caneca de caf fumegante.
    - O mundo est cheio de homens de ms intenes.
    - Suponho que veja uma poro deles em seu trabalho.
    - E quanto ao seu trabalho, srta. Jewel? No acha que ter eu lidar com homens ruins no Drago Dourado?
    Ela sentiu o rubor tingindo-lhe as faces.
    - Isso ser um problema meu.
    - No ser apenas um problema seu. A presena de homens assim ser malfica para a cidade inteira.
    Jade soltou um longo suspiro.
    - Eu sabia que voc encontraria um meio de manipular esta conversa at que girasse em torno do meu negcio e das razes que deveriam me fazer desistir dos meus 
planos.
    - Encontrar muita na cidade que se oporo a voc. O que est planejando afetar a rotina deles.  um estabelecimento que atrair para Hanging Tree o tipo de 
pessoas que sempre causa problemas. Espero que tenha bons amigos para a apoiarem.
    Mais uma vez, ela ouviu aquele indcio de ressentimento.
    - o que todo mundo espera, um amigo para dar apoio num momento de necessidade.-Bebericando o caf distraidamente, pensou em sua tribulao quando fora cercada 
pelo bando de malfeitores. - Descobri um amigo desses ontem mesmo. Quando voltava de Hanging Tree rumo  Fazenda Jewel, fui atacada por um grupo de homens armados.
    Wade estreitou o olhar.
    - Voc os reconheceu?
    - No. Ouvi chamarem o lder de Ned. Todos estavam com os rostos cobertos por lenos. Mas eu sei que eles tinham... ms intenes. - Jade notou-lhe o semblante 
endurecendo. At um homem de paz sabia o que malfeitores cruis faziam com mulheres indefesas. - Tudo o que tinha para me defender era meu punhal. Mas eu estava 
preparada para us-lo. - Baixou a voz at um sussurro: - Ou morrer tentando.
    - Est parecendo bem viva para mim, srta. Jewel.
    Ela esvaziou a caneca de caf, deixando-a cair de lado.
    - Os pistoleiros foram afugentados pelo som de tiros. Mas quando partiram em seus cavalos, eu me vi sozinha. Quem quer que tenha atirado na direo deles, no 
quer ser visto. Mas fico me perguntando por qu. Por que algum teria se arriscado a salvar a minha vida e, depois, desaparecido sem que eu sequer tivesse chance 
de agradecer.
    - Talvez voc tenha imaginado os tiros.
    - E ser que os malfeitores os teriam imaginado tambm? - Agitada, Jade ps-se de p.
    Ele tambm se levantou, deixando-a mais uma vez consciente do quanto era alto e forte.
    - No, reverendo Weston. Eu sei o que ouvi. Algum salvou minha vida. E embora eu no saiba quem foi, estou em grande dbito com essa pessoa. - Ela ergueu um 
pouco a cabea, fitando-o nos olhos, seu prprio olhar preocupado. - Rubi achou ter uma explicao as sugerir que havia sido um anjo da guarda. Isso faz parte de 
suas crenas tambm? Acredita que foi um... anjo da guarda que me salvou.
    Wade Weston abriu um sorriso perigoso.
    - Pode ter sido. - O sorriso alargou-se. - Mas  provvel que tenha sido apenas um estranho, de passagem por ali, que a viu em apuros e resolveu ajudar.
    - Mas por que teria partido sem se identificar?
    O olhar dele pousou nos lbios de Jade, fazendo-a corar.
    - Percebo que isso a incomoda, srta. Jewel. Mas no vejo por que deva fazer tanta diferena. Voc saiu do incidente so e salva.
    Uma mecha dos cabelos dela esvoaou com a brisa, roando-lhe o rosto. Sem pensar, Wade estendeu a mo e pegou-a, observando com um olhar intenso enquanto os 
fios negros e sedosos deslizavam por seus dedos.
    Jade ficou com a respirao com suspenso, seu corao batendo descompassado no peito. Quando se deu conta do que fizera, ele afastou a mo, deixando-a ao longo 
do corpo, o punho cerrado.
    - E  provvel que tenha aprendido uma valiosa lio quanto aos perigos de viajar sozinha nessa regio solitria.
    Jade soltou devagar o ar que estivera contendo num suspiro um tanto trmulo. Pelos cus, chegara a temer que ele a beijasse! E, na verdade, no estava certa 
se teria ou no conseguido resistir...
    - Agora, voc est me soando como Esmeralda. - Inquieta, adiantou-se at a charrete. - Obrigado pelo caf, reverendo Weston.
    - Eu  que lhe agradeo pela companhia, srta. Jewel. - Ele segurou-lhe o brao delicado para ajud-la a subir na charrete.
    Jade sentiu o pulso se acelerando e culpou a raiva por isso.
    Ao v-la apanhando as rdeas, Wade comentou:
    - Espero que seja cuidadosa no seu percurso at a cidade.
    - No precisa se preocupar. Eu no gostaria de ter que recorrer demais ao meu anjo da guarda. Quando o Drago Dourado estiver pronto, talvez ele seja o nico 
a estar do meu lado.
    Wade observou at que a charrete desapareceu atrs de uma colina. Ento, mergulhado em pensamentos, comeou a recolher suas coisas, levantando acampamento.
    
    
    Captulo 4
    
    - Reverendo Weston, veja o que Agnes lhe preparou. - Lavnia Trurlong segurava o brao da filha com fora, empurrando-a para frente pelos degraus at que estivesse 
diante do bonito pastor.
    -  uma torta de amoras. - A jovem corou e soltou um risinho enquanto as mos de ambos se roaram.
    - Obrigado, Agnes. Foi muita bondade sua. Wade abriu-lhe um sorriso gentil e colocou a torta numa pequena janela do armazm Durfee. Uma vez por semana, ele conduzia 
o servio religioso no salo que havia nos fundos. Pessoas de toda a redondeza iam ouvir seus sermes, muitas percorrendo quilmetros para estar ali.
    Pelo canto do olho, ele viu Jade se aproximando com as trs irms. Esforou-se para no demonstrar sua surpresa.
    - Agnes faz as melhores tortas de Hanging Tree. - No momento, no era a habilidade culinria da jovem que interessava Lavnia. A nica coisa em mente era fisgar 
um solteiro disponvel para a filha de dezoito anos. Agnes era uma garota bonita, e todos os jovens caubis das redondezas pareciam interessados nela. Infelizmente, 
nenhum era o que a me considerava um bom partido.
    Quanto ao reverendo Weston, por outro lado, era bonito o bastante para fazer at o corao de a prpria Lavnia bater mais forte. E toda a me sabia que um homem 
devorado aos ensinos religiosos daria excelente marido. Afinal, o pastor de uma cidade e sua famlia sempre tinham um lugar para dormir e comida na mesa. No era 
uma vida como a maioria dos fazendeiros, que tinham que tirar seu sustento a custo do solo. Ou os caubis, que estavam sempre na estrada conduzindo um rebanho ou 
perseguindo algum sonho. E pelos sermes do reverendo Weston, era conhecido por ser bom, generoso e ntegro. Em sumo, era o sonho de qualquer me para sua filha.
    - Acho que ela puxou a voc, Lavnia - disse Wade, mantendo o sorriso cuidadosamente no lugar, enquanto Jade j comeava a subir os degraus da varanda dos fundos 
do armazm com as irms.
    A mulher corou quase tanto quanto a filha. Com sorrisos idnticos, as duas entraram no salo e tomaram seus lugares entre os demais.
    - Bom dia, Wade - cumprimentou-o Esmeralda, num tom afetuoso.
    - Bom dia. - Ele aceitou-lhe o aperto de mo. - Onde est Adam?
    - Est com o gado no pasto norte.
    - Mande-lhe lembranas. - Wade virou-se para Prola, que estava fechando a sombrinha. - Vejo que Cal no pde acompanh-la.
    - Ele e os meninos esto com Adam. Nessa poca do ano, h muito o que fazer nos campos.
    - Eu entendo. - Wade, ento, sorriu para Rubi, que ajeitava o xale para cobrir o decote ousado do vestido. - Fico contente em v-la.
    - Voc teria visto muito mais de mim se Esmeralda no me lembrasse que devo me cobrir. - Amarrou as pontas do xale, jogando o n displicentemente por sobre um 
ombro antes de entrar no salo do armazm. - No queria que eu causasse escndalo - resmungou.
    Os olhos de todos os homens presente viraram-se em sua direo enquanto Rubi seguia as irms pelo corredor at uma fileira de lugares vazios.
    Wade ainda soltava um riso divertido quando se virou para Jade com a mo estendida.
    - Bom dia. - Procurou manter seu tom casual, embora fosse tomado por sbito impacto.
    Nesse dia, ela usava uma tnica longa de seda azul, com um delicado xale negro. Prendera os cabelos num coque elegante no alto da cabea, com algumas mechas 
finssimas roando-lhe as laterais do rosto.
    - Fico contente que tenha vindo com suas irms. Receei que talvez comeasse a evitar os cultos do domingo.
    - E perder os sermes em que voc avisa os bons cidados de Hanging Tree sobre as mulheres libertinas infiltradas na comunidade?
    Ele quase riu diante daquele olhar fascinante. Jade o desafiava a incitar a congregao. E era um homem que sempre adorava um desafio. Mas no estava ali para 
causar problemas. Sempre que possvel preferia evitar que ocorressem.
    Ela desviou o olhar para a torta fumegante na janela que dava para a varanda.
    - Uma admiradora, reverendo?
    -  Wade - disse ele, com um sorriso tranqilo. - E a torta foi presente de Agnes Thurlong.
    Jade foro um sorriso em resposta.
    - Uma tima escolha. Agnes  tmida e doce. Jamais daria a ningum um nico momento de preocupao.
    Havia um tom de riso na voz de Wade:
    - Vejo que veio  cidade preparada para me provocar para uma briga.
    - Vim aqui hoje porque Esmeralda sugeriu que o culto de domingo me daria a oportunidade de enfrentar Lavnia e os demais que comearam uma campanha de sussurros 
contra mim.
    Ele preferiu no lhe dizer que no eram apenas meros sussurros. Haviam ficado mais acalorados e maldosos.
    - Tambm vim aqui hoje para agradecer ao meu anjo da guarda - prosseguiu ela.
    - E como espera reconhec-lo?
    - Ao final de seu culto, voc sempre pergunta se algum tem alguma notcia que queira partilhar com a congregao. Estive pensando em pedir ao meu anjo da guarda 
que se revele para que eu possa agradecer-lhe devidamente.
    Wade no pde conter o riso.
    - Tenho certeza que tal pedido faria com que dezenas de homens saltassem de seus lugares, ansiosos pela chance de receber o seu agradecimento.
    Ela sentiu as faces queimando.
    - Acho que est se divertindo  minha custa, reverendo Weston.
    - J disse.  Wade. E no estou me divertindo  sua custa. O fato  que metade dos homens desta cidade daria muito para ter voc em dbito com eles.
    - Acho que est me confundindo com minha irm Rubi.
    - Se acredita nisso, est se subestimando.
    Jade no se permitiu nem um momento sequer de prazer com o elogio. Afinal, ele estava apenas sendo gentil. Era sua funo como pastor dizer tais coisas s pessoas 
para que continuassem comparecer aos cultos. Alm do mais, cedo ou tarde, mostraria seu lado verdadeiro quando tomasse o partido da cidade contra ela.
    - Bem no vou mais tomar seu tempo. Tenho certeza que nos prover com alimento o bastante para o esprito reverendo Weston. - Ela enfatizou o ttulo antes de 
comear a se afastar.
    - Eu me empenharei ao mximo, srta. Jewel.
    Wade passou mais meia hora cumprimentando fazendeiros e suas famlias, que aproveitavam os cultos de domingo para compara suprimentos e conversar com as pessoas 
da regio. Enquanto lhes falava, ou ouvia seus problemas, flagrara-se olhando ao redor do salo at onde uma jovem de vestido da cor do cu texano estava sentada 
ao lado das irms.
    Vrias pessoas cutucavam uma s outras, sussurrando e apontando discretamente para as fascinantes irms Jewel. Mas era Jade quem despertava o maior interesse. 
A cada dia, enquanto o Drago Dourado tomava forma, os falatrios se espalhavam.
    Sempre que seus olhares se encontravam, ele sentia uma crescente admirao pela mulher que era objeto de tanta especulao. O que quer que estivesse sentindo, 
Jade mantinha a cabea erguida, a expresso imperturbvel.
    No momento em que comeou seu sermo, Wade encontrou a inspirao necessria. E quando o terminou at Lavnia e Gladys concordavam que o pregador chegara a se 
superar em seus sbios aconselhamentos.
    O tema de seu sermo fora sobre os perigos da maledicncia.
    - Algum gostaria de contar algo  congregao? - perguntou ele ao final do culto.
    Como ningum se levantasse, olhou diretamente para Jade. Sentindo-lhe a intensidade do olhar, ela recusou-se a encar-lo. Manteve a cabea baixa, estudando as 
mos que repousavam no colo. Tivera tempo o bastante para refletir sobre sua inteno inicial. Quanto mais pensava a respeito, mais se convencia de que Wade tinha 
razo. SE cometesse a tolice de anunciar  cidade inteira que um homem misterioso a salvara de um bando de foras-da-lei, teria que descreverem detalhes o que acontecera. 
E a idia de tornar pblico o seu infeliz encontro no era das mais animadoras. J fora difcil o bastante ter contado ao xerife. Alm do mais, durante o sermo 
inteiro, sentira os olhares hostis dos membros da congregao. No queria chamar mais ateno para si mesma.
    - Bem. - Wade abriu-lhe um de seus sorrisos carismticos. - Espero que todos possam ir com o corao mais leve do que chegaram.
    Adiantou-se at a porta dos fundos e abriu-a. Saiu para a varanda, colocando-se de lado, apertando as mos das pessoas que iam se retirando. Quando as irms 
Jewel saram, tambm teve um sorriso e uma palavra bondosa para cada uma.
    Jade sentiu a tenso dominando-a quando se viu obrigada a oferecer-lhe a mo.
    - Foi um excelente sermo. Foi como se o calor daquela palma forte se expandisse atravs da sua, afetando-a inesperadamente.
    - Fico contente que tenha gostado. - Wade fitou-a com aquele olhar perscrutador, um indcio de riso em sua voz. - Eu o fiz em seu benefcio. Afinal, vai precisar 
de toda a cooperao que seus vizinhos possam lhe dar, to logo o Drago Dourado fique pronto. - Sem esperar pelo comentrio, acrescentou: - Achei que iria perguntar 
a todos sobre seu salvador misterioso. O que houve, srta. Jewel perdeu a coragem?
    - Eu... pensei a respeito e conclu que voc tinha razo. Seria tolice me expor desse jeito. E eu tenho certeza de que ele deve ter tido boa razo para preferir 
manter-se em annimo.
    - Acho que tomou a atitude certa. Ainda assim - disse Wade, com um sorriso -, teria sido interessante ver quantos homens se apresentariam como seu anjo da guarda.
    Mais uma vez, ele ria  sua custa, pensou Jade, com sbita exasperao. Libertando a mo, deu um passo atrs.
    - Tenha um bom dia, reverendo Weston - disse com frieza.
    - Voc tambm, srta., Jewel - murmurou ele, virando-se para a prxima pessoa que saa.
    Com o servio religioso de domingo encerrado, os fazendeiros e suas famlias desfrutavam de um breve descanso da rigorosa rotina semanal de trabalho. As crianas 
brincavam em torno das rvores, enquanto os homens lotavam suas carroas com suprimentos. As mulheres estendiam toalhas na relva com a comida levada de casa e conversavam 
com as vizinhas.
    - Venham. - Esmeralda deu o brao a Prola e indicou a Jade e a Rubi que as acompanhassem. - Vamos at a penso de Millie antes que toda a comida termine.
    A dona da penso sempre apreciava o movimento intenso nas manhs de domingo. Alm dos fregueses assduos, como o xerife Quent Regan, o dr. Prentice e outros 
solteiros, haviam aquelas famlias de fazendeiros prsperas o bastante para desfrutarem a tima comida de Millie.
    Situada na rua principal, a grande casa da penso era limpa e organizada, com assoalhos e janelas brilhando. Alm de alguns quartos para alugar, continha uma 
sala de estar formal e uma sala de jantar grande o bastante para acomodar dezenas ou mais de pessoas confortavelmente.
    Da cozinha, emanava o delicioso aroma de po recm-assado e a fragrncia adocicada de maas e canela.
    A porta foi aberta por Birdie Bidwell, garota de treze anos e vizinha de Millie que ajudava nas tarefas para completar a modesta renda da famlia.
    - Ol, Birdie - cumprimentaram-na as irms Jewel, enquanto entravam.
    - Bom dia - disse a menina, dirigindo-se a todas.
    Jade abriu-lhe um sorriso afvel.
    - Birdie, Prola comentou comigo que voc  sua melhor aluna.
    - No por muito tempo - lamentou a garota. - Meu pai acha que estudar  uma perda de tempo para uma menina da minha idade. - Forando um sorriso, rumou para 
a cozinha para retomar suas tarefas antes que Jade pudesse fazer algum comentrio.
    Esmeralda dirigiu-se a Millie, enquanto os quatros entravam na sala de jantar.
    - Bom dia. Pode nos acomodar hoje?
    - Claro - assentiu a mulher. - Voc sabe que sempre h lugar para meus melhores fregueses.
    Seu sorriso alargou-se quando avistou o pastor.
    - Chegou bem na hora.
    Wade adiantou-se na sala, detendo-se para conversar com outros fregueses antes de para ao lado de Jade. Ele puxou-lhe a cadeira para que se sentasse e, em seguida, 
ocupou uma a seu lado. A perna roou a dela produzindo-lhe um calor que pareceu atravessar a seda do vestido e expandir-se pelo corpo.
    - Achei que voc estivesse na casa de Agnes, partilhando de uma agradvel refeio de domingo com ela e a famlia.
    - E ficar sentado l de braos cruzados enquanto tentassem me fisgar? - Ele abriu um sorriso. - Achei que estaria mais seguro aqui.
    Nesse momento, a dona da penso e sua jovem ajudante comearam a servir o farto caf da manh. Ao parar ao lado de Wade, Millie colocou vrios biscoitos em seu 
prato.
    - Assei estes especialmente para voc - murmurou. - Tm bastante acar e canela, da maneira como gosta.
    Jade esforou-se para conter o riso. Todos em Hanging Tree sabiam que Millie, que era viva, tinha a esperana de fisgar um pai para suas trs filhas pequenas. 
E quem melhor do que o pastor da cidade?
    - Oh, sim, reverendo. Voc est bem mais seguro aqui. - Jade saboreou o momento de triunfo enquanto, a seu lado, Wade Weston comeava a refeio em silncio.
    -  uma construo imensa aquela que est fazendo srta. Jewel. - o xerife Regan serviu-se de um pouco de ovos mexidos e passou a bandeja ao dr. Prentice. - AS 
pessoas da cidade esto preocupadas.
    Jade sentiu olhares curiosos dos demais  mesa.
    - Preocupadas, xerife?
    - Sim, temem que seu... negcio possa atrair o tipo errado de gente  cidade.
    Ela dirigiu-lhe um sorriso impassvel.
    - Acho que voc e os moradores de Hanging Tree ficaro surpresos com o resultado. O Drago Dourado ser um estabelecimento refinado, com msica, cultura e boa 
comida. Pretendo dirigi-lo da maneira como minha me fazia em San Francisco.
    O xerife apenas assentiu polidamente, e o silncio se prolongou  mesa. Enfim, foi rompido pelo dr. Prentice.
    - Ouvi dizer que houve outro ataque, Quent.
    - Sim. E no foi muito longe da cidade. Seis forasteiros emboscaram Samuel Fisher a caminho de sua fazenda. Ele teve sorte de escapar vivo. Se no tivesse sido 
pelos quatro filhos cavalgando por l naquele momento, jura que no teria conseguido se safar.
    - E reconheceu algum do bando? - perguntou o mdico.
    - No. Todos tinham lenos encobrindo o rosto. Mas, ao que parece, so os mesmos malfeitores que j atacaram antes.
    - Talvez seja o momento de reunir voluntrios e ir atrs do bando - sugeriu o dr, Prentice.
    - No gosto da idia de afastar homens de suas famlias. Especialmente em se tratando de um bando to sanguinrio. Esses bandidos parecem ter prazer em matar.
    - Acha que vo atacar de novo? - perguntou Esmeralda.
    - No sei o que pensar - respondeu Quent. - Mas vou lhe dizer uma coisa. Ningum ir aterrorizar os cidados do meu territrio. No enquanto eu for a lei. Eu 
e meu ajudante estamos tomando todas as precaues para proteger a cidade.
    Perola estremeceu.
    - Tanta violncia... Acho que nunca vou me acostumar.
    - Faz parte do Texas - declarou esmeralda.
    - E da vida. - acrescentou o xerife.
    - Mas no tem que ser. - As palavras de Wade, embora ditas com gentileza, continham grande veemncia.
    Jade virou-se para estud-lo. De perfil, no parecia o homem que falara to serenamente durante o servio religioso. Com os lbios apertados e o maxilar rijo, 
dava a impresso de ser capaz de liderar um grupo de voluntrios ele prprio.
    -  fcil para voc dizer - comentou o xerife - j que carrega uma bblia em vez de uma arma. Mas no ganha sua vida perseguindo bandidos.
    - De certo modo, sim. - O tom de Wade suavizou-se, embora ainda houvesse fervor em seus olhos. - Voc os persegue para puni-los e eu, para oferecer-lhes a chance 
de se redimirem e buscarem o perdo daqueles a quem prejudicaram.
    - Bem, voc pode lhes oferecer perdo, reverendo. Eu lhes ofereo justia. Na ponta de uma corda.
    - Alis, falando em corda e violncia, houve uma poca em que os enforcamentos chegaram a se tornar uma espcie de febre nesta cidade - comentou o dr. Prentice. 
Todos sabiam que o mdico, embora relativamente recm-chegado ao Texas, tinha fascnio pela histria da cidade.
    - Houve tantos assim? - perguntou Prola.
    - Conta-se que aconteceram dezenas. Parece que existia um antigo carvalho que datava de cem anos ou mais no alto da colina, logo na entrada da cidade. Os galhos 
eram longos e fortes, perfeitos para se enforcar um homem. O primeiro enforcamento foi por roubo de gado. As pessoas deslocaram-se de um raio de muitos quilmetros 
para assistir. Em seguida, fizeram um piquenique junto ao riacho. Depois disso, tornou-se uma espcie de tradio. As pessoas vinham ver um enforcamento e ficavam 
um pouco ais para confraternizar com os vizinhos.
    Jade estremeceu.
    - No posso imaginar ningum fazendo um piquenique depois de um evento to horrvel. Parece algo to brbaro.
    Quent Regan assentiu, concordando:
    - A maior parte de tudo isso aconteceu antes de minha poca. Ouvi dizer que a situao se agravou ao ponto de as pessoas ficarem ansiosas pelo prximo enforcamento, 
apenas para terem um pretexto para mais um piquenique. O xerife finalmente teve que pedir que um juiz federal fosse enviado de St. Louis.
    - Com que propsito? - perguntou Jade.
    - Ele concluiu que era preciso algum de cabea fria para impedir que as pessoas da cidade tomassem decises apressadas que pudessem custar a vida de um inocente.
    Ao seu lado, ela percebeu que o reverendo ficara muito quieto. Virando-se para fit-lo, viu-o baixando o olhar. Mas naquela frao de segundo em que se entreolharam, 
notou-lhe o brilho furiosos nos olhos castanho-claros. Tinha os punhos cerrados com tanta fora sobre o colo que os ns dos dedos estavam esbranquiados.
    De repente, ele afastou a cadeira para trs, levantando-se.
    - Se me der licena - disse, dirigindo-se a Millie Potter -, tenho muitas visitas a fazer hoje. Prometi a Yancy que levaria mais tabaco. E disse aos Thompson 
que iria at l para partilhar a leitura da Bblia com o filho deles, que caiu do cavalo e machucou o brao. E j que a viva Purdy est acamada novamente, passarei 
por l tambm;
    - Parece que ter um dia cheio, reverendo. - Terminando de preencher as xcaras de caf de algumas pessoas, Millie apanhou um embrulho de uma mesa de canto e 
atravessou a sala. - Mas eu j imaginava. Afinal,  domingo. Voltar mais tarde?
    - Ainda no sei. Se eu me vir muito longe da cidade, dormirei no caminho.
    - Ento,  melhor levar isto. - Millie entregou-lhe um grande farnel de comida embrulhado numa toalha de linho. Ele agradeceu e virou-se para os demais  mesa 
despedindo-se.
    Jade observou-o apanhando um casaco pendurado a um canto e saindo. Ainda intrigada, perguntou-se qual teria sido o motivo da reao de Wade s palavras de Quent 
Regam. Pudera sentir a raiva que ele se esforava para conter, a dor. No era de admirar, disse a si mesma. Afinal, aquele era, como o prprio xerife afirmara, um 
homem que carregava uma Bblia em vez de uma arma. A idia de tamanha violncia seria inconcebvel para ele.
    Ainda assim, para um homem que pregava a paz, sua reao fora quase violenta. E sua violncia, embora cuidadosamente controlada, no deixava de ser assustadora.
    
    
    Captulo 5
    
    Era meio da tarde e Wade estivera em sua jornada desde o caf da manh na penso de Millie Potter, levando o consolo possvel para os doentes e necessitados. 
    Comeando a descer uma pequena colina em seu cavalo, avistou uma charrete parada num trecho do terreno irregular mias ao longe. Ao se aproximar mais, deparou 
com Jade agachada junto  charrete, examinando uma roda quebrada.
    - Est ferida? - Ele desmontou depressa..
    - No. - Jade ficou to aliviado em ver algum que poderia t-lo abraado. - Felizmente, a parelha ia devagar. Do contrrio,  provvel que eu tivesse sido atirada 
no cho.
    Ele estudou-a com semblante preocupado.
    - Tem certeza de que no machucou nada?
    Ela ficou surpresa com a gentileza daquele tom... e com sua instantnea reao. Para encobri-la, disse-lhe:
    - Estou bem. O nico dano foi a essa roda.
    Wade estava genuinamente preocupado com a segurana dela. E aborrecido com o turbilho de sensaes que o simples fato de rev-la causou-lhe. Com seus temores 
despertados, entregou-se a uma inesperada onda de raiva.
    - O qu, afinal, estava fazendo sozinha aqui no meio do nada? No h viva alma em muitos quilmetros. Resolveu abusar da sorte? Quis saber se era capaz de escapar 
ilesa de um bando de foras-da-lei outra vez?
    Diante de tais palavras acaloradas, o alvio de Jade dissipou-se, dando lugar  raiva.
    - No lhe devo nenhuma explicao, reverendo Weston. Mas, para sua informao, eu estive visitando as sepulturas dos meus pais.
    - Ento, deveria ter pedido a alguma dos vaqueiros que a acompanhassem.
    - Eles tm uma fazenda para cuidar. - Ela tocou o punhal em sua cintura. - Alm do mais, j lhe disse, sempre carrego comigo a devida proteo.
    - Se bem me lembro, o seu punhal foi intil contra aquele bando que a surpreendeu no caminho. Ou talvez goste mesmo de desafiar a sorte, para ver se seu... anjo 
da guarda ir salv-la outra vez.
    - S que, em vez disso - retrucou ela, com certo sarcasmo -, acabei deparando com voc.
    - Lamento desapont-la. - Wade virou-se para observar a roda quebrada. - No disponho das ferramentas necessrias para consertar isto. Mas posso lev-la  sua 
fazenda...
    O semblante de Jade se iluminou.
    - Seria timo.
    - Desde que voc se importe com uma parada pelo caminho.
    Ela suspirou. Seus planos para o resto do dia teriam que ser adiados. Mas, ao menos, no ficaria ali sozinha para desatrelar a parelha da charrete e cavalgar 
sem sela de volta  fazenda. Esboou um sorriso.
    - Obrigada, reverendo. Ficarei grata se puder me levar.
    Ele desatrelou os cavalos e guiou-os at um trecho com relva, por onde passava um regato. Agarrou-os, ento, a uma corda esticada entre duas rvores. Certo de 
que ficariam em segurana, montou no prprio cavalo e estendeu o brao para erguer Jade, ajudando-a a sentar-se atrs de si.
    A fenda em ambos os lados da tnica de seda permitiu-lhe montar no cavalo sem rasgar o tecido. Tambm exps parte de suas pernas, do tornozelo aos joelhos.
    Ela ficou aturdida com a onda de emoes que a dominou quando abraou Wade pela cintura. Quando o cavalo comeou a galopar, foi obrigada a segurar-se com firmeza, 
pressionando o rosto nas costas dele.
    Enquanto seu cavalo avanava pela paisagem texana, Wade tratava sua prpria batalha pessoal. Estava consciente demais dos seios macios contra suas costas, das 
coxas pressionando as suas, dos braos delicados envolvendo-se com firmeza. O vento soprava-lhe os cabelos longos e negros, fazendo-os esvoaar como seda em torno 
dele. Inalava a fragrncia extica do perfume dela e via-se pensando em coisas s quais no tinha direito. Coisas que lhe aceleravam o pulso e faziam com que uma 
espcie de fogo corresse por suas veias...
    
    - Foi muita gentileza sua ter vindo, reverendo - disse-lhe a viva Purdy, recostada nos travesseiros em sua cama. - E que tima surpresa ver a srta. Jewel com 
voc.
    - Vocs j se conhecem? - Wade achara que a viva, vivendo em tal isolamento, no saberia a respeito dessa recm-chegada ao territrio.
    - Esmeralda mandou que seus vaqueiros matassem uma vaca e salgassem a carne, entregando-a aqui para que tivesse provises no inverno passado. Como no pde acompanh-los, 
pediu a Jade que viesse em seu lugar.
    Ele arqueou uma sobrancelha, surpreso. Era mais uma faceta do mistrio em torno de Jade Jewel.
    - E como acabaram juntos? - perguntou a Sra. Purdy casualmente.
    - O reverendo acabou me ajudando. Uma roda da minha charrete quebrou.
    -  bem tpico de ele ajudar a quem precisa. Tem sido to generoso conosco. Por favor, sentem-se e fiquem  vontade.
    A Sra. Purdy tinha o rosto engelhado, aps uma vida inteira de trabalho nos campos com o marido, e os cabelos totalmente brancos como os algodoeiros da Louisiana, 
onde nascera.
    - Aceitam um caf? Martha ir traz-lo num instante.
    - Obrigado. - Wade colocou uma cadeira prxima  cama para Jade e outra para si mesmo. - Diga-me, est precisando de alguma coisa, Sra. Purdy?
    -  bondade sua perguntar, mas as pessoas da cidade olham por mim. E Martha cuida bem de sua velha me.
    A filha, seus prprios cabelos grisalhos, lanou um olhar afetuoso  me, enquanto se aproximava dos visitantes com a bandeja de caf.
    - Tem sorte em contar com algum da famlia por perto - comentou Jade.
    A viva assentiu.
    - Martha  a ltima pessoa que me resta. Perdi um filho e um genro na guerra, alm de meus pais. Pensei ter perdido Beauford tambm. Mas ele voltou para mim. 
Viemos para c vinte anos atrs, em 1850. Era uma terra selvagem, indomada. Mas ainda ramos fortes e aventureiros. - Soltou um longo suspiro. - Apesar das tribulaes, 
foi uma vida boa, reverendo. Mas no vou lamentar o dia de deix-la.
    - No fale assim - disse Martha, sentando-se numa cadeira do outro lado da cama com suas agulhas de tric depois de ter servido o caf.
    - Minha filha no gosta de pensar que ficar sozinha. - A Sra. Purdy lanou-lhe um olhar terno e fechou os olhos ao acrescentar: - Mas no poder ser evitado.
    - Nunca estive realmente sozinha - disse Martha num tom suave. - Sempre houve minha me. E, depois Jed. E quando ele no voltou para casa da guerra, eu tinha 
as crianas. Mas agora, meus filhos esto todos espalhados por esse mundo afora. E minha me... - As agulhas de tric moveram-se mais depressa. Quando ela ergueu 
os olhos, estavam marejados. - J esteve sozinha, srta. Jewel
    - Na verdade, no. Embora meu pai no morasse conosco, costumava nos visitar quando podia. E minha me sempre esteve a meu lado. Quando a perdi e a meu pai, 
encontrei trs irms maravilhosas para preencher o vazio.
    - Tem muita sorte. - Martha lanou um olhar a Wade. - Sabe o que  estar sozinho, reverendo?
    - Sim. Eu diria que sei exatamente como  isso.
    Jade virou-se para observ-lo. No havia pensado muito em como teria sido a vida deles antes de ter chegado a Hanging Tree. Presumia que haveria uma famlia 
em algum lugar. Um pai, uma me, talvez irmos.
    - Tem estado sozinho por muito tempo? - indagou Martha.
    Fora um indcio de dor que vira nos olhos dele? Perguntou-se Jade. Bebericando seu caf, continuou estudando-o mais atentamente.
    - E como tem suportado isso? - As palavras de Martha no foram mais do que um sussurro assustado.
    - Nunca pensei muito a respeito.  apenas a maneira como minha vida sempre foi.
    - Isso ir mudar. - A viva Purdy abriu os olhos de repente. - Voc  jovem, saudvel. Encontrar uma boa mulher. - Fitou Jade com um olhar perscrutador antes 
de tornar a fix-lo no reverendo. - E no mais ter de ficar sozinho.
    - Duvido muito. - Vendo o olhar que a me e filha trocaram, Wade mudou prontamente o assunto: - Disse que veio para c em 1850, no foi? Imagino que tenha algumas 
histrias para contar sobre os primeiros tempos aqui em Hanging Tree. 
    - Oh, sim. Sobrevivemos a ataques de ndios,  clera,  peste, lutamos contra foras-da-lei.
    - Chegou a testemunhar algum dos notrios... piqueniques de Hanging Tree.
    - Sim, muitos. Lembro-me de ter ficado perplexa com o clima festivo durante o primeiro enforcamento da cidade. Em princpio, as pessoas hesitaram, relutantes 
em assistir  morte de um homem por enforcamento, embora a maioria de ns achasse que qualquer um que matasse gente ou roubasse gado merecesse a punio. Mas, aps 
um tempo, comeamos a encarar os piqueniques como uma oportunidade de nos reunirmos com os vizinhos. Como pode imaginar... - Ela pareceu determinada a explicar as 
atitudes da cidade, a justificar seu comportamento - ... a vida aqui nestas terras bravias era rdua. A nica coisa conhecia era a sobrevivncia.No havia tempo 
para a menor frivolidade. E, segundo o ponto de vista das pessoas daqui, os enforcamentos eram necessrios para livrar a comunidade de assassinos. Assim, comeamos 
a us-los como um pretexto para nos reunirmos.
    - Lembra-se de algum enforcamento em especfico?
    - No h nada errado com minha memria, reverendo. Eu me lembro de todos. No h muito mais a fazer em longas noites de inverno exceto recordar.
    - Lembra-se de um fazendeiro chamado Jessie Simpson?
    A viva baixou o olhar para o cobertor, alisando-o devagar antes de sacudir a cabea.
    - No, acho que no me lembro do nome... mas por que a pergunta reverendo?
    - Por nada. Eu fiz a mesma pergunta a Yancy Winslow, que tambm me disse que no se lembrava do nome. Mas ficou bastante agitado quando conversamos a respeito 
e, depois, pareceu-me preocupado com a possibilidade de que sua participao nos... piqueniques da cidade o mantenha fora do Paraso quando sua hora chegar.
    -  possvel que esteja - disse a mulher, pensativa. - Mas est com uma idade avanada, e no creio que sua memria seja das melhores - apressou-se a acrescentar.
    No silncio que se seguiu, Wade levantou-se. Esvaziou a xcara de caf depressa, depositando-a no criado-mudo. 
    - Vou deix-la repousar agora. Voltarei na semana que vem para saber como est passando.
    - Obrigada, reverendo. - A viva fechou os olhos, um tanto fatigada.
    Jade seguiu Wade enquanto eram conduzidos at a porta por Martha e ele lhe dizia as palavras que esperava poderem confort-la.
    Assim que saram, montou o cavalo e estendeu a mo para Jade, ajudando-a a sentar-se atrs de si. To logo o abraou pela cintura e sentiu-lhe a presso do corpo 
forte, ela foi tomada mais uma vez por um sbito calor. Se ele experimentou algo semelhante, no deu indicao. Cavalgou em completo silncio, como se mergulhasse 
em si mesmo. Era como se estivesse vendo em sua mente todas as coisas que a viva Purdy acabara de descrever.
    E por que no? Pensou Jade mais uma vez. Afinal, um pastor ficaria horrorizado com a idia de tamanha violncia.
    Ela sentiu um calafrio ao ponderar sobre a crueza dessa terra que havia levado a vida de seu pai. Essa terra a qual decidira chamar de lar, embora lhe fosse 
to misteriosa quanto o anjo da guarda que a salvara de um bando de foras-da-lei.
    
    
    Captulo 6
    
    - No estou gostando nada do aspecto do cu. Especialmente porque ainda estamos a quilmetros de distncia de sua fazenda.
    Ouvindo o comentrio de Wade, Jade estremeceu. Nuvens negras e ameaadoras avanavam pelo cu, encobrindo a luminosidade, transformando o dia em noite. Relmpagos 
cortavam a escurido, seguidos dos estrondos ensurdecedores dos troves.
    Numa questo de minutos, uma chuva torrencial, precipitou-se dos cus. Ela recostou a face no ombro de Wade, os olhos se anuviando sob o aguaceiro. Ele tocou 
as pequenas mos que o seguravam com firmeza pela cintura. Estavam geladas. Tinha que encontrar um abrigo, e quanto antes.
    Com um suspiro resignado, guiou a montaria para outra direo.
    - Par onde estamos indo? - Os lbios de Jade, junto ao pescoo dele, fizeram-no estremecer.
    - H uma cabana abandonada no muito longe daqui. Teremos que correr para l.
    Ela segurou-se com fora, enquanto ele conduzia o cavalo a um galope veloz. Pouco tempo depois, pararam e, atravs da cortina de chuva, distinguiram os contornos 
de uma cabana. 
    Wade desmontou e ajudou-a a descer depressa do cavalo. Indicou-lhe que corresse na frente at a cabana, enquanto a seguia um pouco mais devagar, levando o animal.
    Encontrando a porta entreaberta, Jade escancarou-a e entrou apressada. Ele aproximou-se logo em seguida, permanecendo por longos momentos junto  entrada, permitindo 
que seu olhar se acostumasse ao escuro. Estreitou os olhos, pensativo, enquanto observava o cmodo, avaliando a moblia arruinada pela ao do tempo e invaso de 
animais, a lareira de pedra desolada e vazia. Notando que Jade tremia, tornou a sair e retornou um pouco depois, os braos empilhados com galhos de rvores. Ajoelhou-se 
diante da velha lareira de pedra e pacientemente acendeu o fogo, usando os fsforos que pegara rapidamente no alforje no cavalo. To logo as chamas comearam a ganhar 
vida, tornou a sair.
    Em meio a luminosidade difusa do fogo, Jade olhou ao redor. Era uma velha cabana de madeira, mas as paredes pareciam slidas e o teto oferecia proteo contra 
a fria dos elementos. No havia assoalho; o cho era de terra batida. Por todos os cantos, haviam pedaos de cermica e de moblia quebrada. Mas apesar da desordem, 
o lugar era seco e acolhedor, oferecendo abrigo temporal.
    Encharcada, adiantou-se at a lareira e cruzou os braos em torno de si.
    - Voc est tremendo. - A voz possante de Wade ecoando da porta a fez virar-se para fit-lo com certo nervosismo.
    - Estarei bem agora que a lareira est acesa.
    - Precisa se livrar dessas roupas molhadas.
    Jade viu como ele a fitava de alto a baixo e, de repente, deu-se conta de qual devia ser seu aspecto. A tnica de seda ensopada moldava-se a seu corpo como uma 
segunda pele, revelando cada contorno e curva de seu corpo. Os cabelos molhados cascateavam-lhe com um vu de cetim negro sobre as costas.
    O rubor espalhou-se por suas faces ao deparar com a intensidade naqueles olhos castanho-claros.
    - Tenho uma muda de roupa aqui - disse ele, aproximando-se com o alforje por sobre o ombro. Pousando-o no cho examinou o contedo at encontrar um par de calas 
e uma camisa. Eram peas simples, no as roupas mais formais de um pastor. Estendeu-lhe uma camisa xadrez. - Acho que vai ter que se arranjar com isto at que sua 
roupa seque.
    - Como assim? Acha que ficaremos aqui por tempo o bastante para que nossas roupas sequem?
    - Pelo jeito dessa tempestade,  provvel que tenhamos que passar a noite aqui.
    - Eu nem deveria precisar lembr-lo, reverendo, do que as pessoas de Hanging Tree iro pensar sobre isto se ficarem sabendo.
    Ele abriu um sorriso.
    - Se est preocupada com seu bom nome, srta. Jewel posso lhe assegurar que no contarei a viva alma.
    - No  com a minha reputao que estou preocupada, mas com a sua, reverendo. Se as mulheres da cidade souberem que passou uma noite na minha presena, elas 
o expulsaro da cidade to depressa que nem sequer ter tempo para apanhar suas coisas na penso de Millie Potter.
    O lado impulsivo de Wade estava de volta, minando-lhe o bom senso. Decidiu descobrir at que ponto podia provocar essa mulher de ar to confiante. Em vez de 
responder, simplesmente despiu a camisa, jogando-a sobre uma cadeira quebrada. Quando fez meno de abrir o primeiro boto da cala, viu-a virando-se de imediato; 
mas no antes que o rubor se espalhasse por suas faces delicadas.
    Ele abriu um sorriso satisfeito. Ento, parecia que a dama no era experiente com os homens como fingia ser.
    Jade ouviu o farfalhar de roupas, o som dos passos dele e, enfim, a voz divertida:
    - Pode olhar agora, srta. Jewel. Estou decente.
    Ela se virou. Aquilo podia se chamar de decente? Engoliu em seco ao v-lo usando apenas uma cala preta e justa, continuando despido acima da cintura. Mais uma 
vs, viu-se contemplando os plos escuros que lhe cobriam o peito largo, os msculos dos ombros e braos. Experimentou a j familiar seqncia de arrepios pela espinha, 
ao mesmo tempo em que suas faces queimavam. Por que esse homem lhe exercia tamanho efeito?
    Esperou que sua voz no soasse trmula:
    - Se voc se virar para o outro lado, eu me livrarei desta tnica molhada.
    - Quer que eu me vire, srta. Jewel? Achei que preferisse me ver olhando. Isso no  parte do que ser oferecido no Drago Dourado? - Vendo-a fazer meno de 
protestar, indignada, o sorriso dele se alargou. - Oh, bem, se voc insiste - acrescentou, virando-se para a parede.
    Maldito riso daqueles olhos, pensou Jade, exasperada. O homem a abalava tanto que mal podia se livrar depressa da tnica molhada. Suas mos nunca tinham-lhe 
parecido to desajeitadas. Quando, enfim, vestiu a camisa seca, sentiu-se confortada pelo calor. Mas ela cobria pouco, terminando-lhe apenas um pouco abaixo das 
coxas.
    Atravessando a cabana, colocou a tnica sobre a cadeira, ao lada das roupas molhadas dele e, ento, deteve-se diante da lareira crepitante, evitando fit-lo.
    Vendo-a parada ali, Wade compadeceu-se. Parecia to pequena e com tanto frio. To vulnervel.
    - Pode se sentar aqui. - Estendeu o cobertor da sela no cho, diante da lareira. - O fogo ir aquec-la.
    - Obrigada. - Sentando-se, Jade sentiu o calor das chamas comeando a dissipar-lhe a tremedeira do corpo.
    Wade tirou um embrulho do alforje.
    - Graas a Millie Potter, no teremos fome - disse, enquanto desembrulhava da toalha de linho um grande pedao de carne defumada, vrios biscoitos com mel e 
uma preciosa poro de gro de caf.
    Do alforje, ainda tirou um bule de ferro enegrecido que foi deixar perto da entrada da cabana, sob a chuva. Sem demora ficou repleto de gua. Acrescentou parte 
dos gros de caf e colocou-o sobre o fogo. Cortando a carne em pequenos pedaos, colocou-os em gravetos compridos. Ajeitando-os acima das chamas. Logo, o forte 
aroma de caf espalhava-se na cabana, mesclando-se  tentadora fragrncia da carne assando.
    Levando os biscoitos na toalha de linho, sentou-se ao lado de Jade. Enfim, comeou a tirar as varetas com a carne no fog, entregando-lhe uma.
    - Peo-lhe desculpas pela refeio simples.
    Jade provou a carne e sorriu.
    - No  simples em absoluto. Acho que nunca provei algo to delicioso.
    Ambos comeram a carne e os biscoitos com apetite e ento, partilharam de uma caneca de caf forte e fumegante.
    - Costuma cozinhar, srta. Jewel? - Wade apoiou-se num cotovelo, sorvendo um gole de caf antes de passar-lhe a caneca. Era bom estar sentado ali, num lugar aconchegante 
e seco, partilhando de comida e de uma conversa agradvel com essa mulher fascinante. Estudou-lhe o belo perfil.
    - No tenho muita chance. Carmelita faz toda a comida na fazenda. Mas, s vezes, quando tenho vontade de provar os pratos de minha infncia, vou at a cozinha 
e preparo frango com especiarias.
    - E onde as consegue?
    - Eu trouxe um pequeno pacote comigo de As Francisco. - Ela sorriu de repente e toda a cabana pareceu se iluminar. - Voc sabia que se pode comprar qualquer 
coisa l?
    - Sim - murmurou ele, sem confiar na prpria voz. Jade Jewel tinha o rosto mais estonteantes que j vir. Traos pequenos e perfeitos. Olhos castanhos-escuros 
e amendoados. Nariz um tanto arrebitado. Cabelos negros como bano, cumpridos e fartos o bastante para fazerem um homem se perder em suas mechas sedosas. E havia 
aqueles lbios... Como se fossem esculpidos, feitos para beijar.
    - J esteve em San Francisco? - perguntou ela.
    Wade aceitou-lhe a caneca das mos e sorveu um gole de caf antes de responder casualmente:
    - Uma ou duas. Mas fale-me sobre seu lar.
    O semblante dela ficou radiante. Esse era um assunto que nunca se cansava.
    - Meu pai chamava o Drago Dourado de uma ilha bonita e extica num mar de sofrimento. Como pode ver - acrescentou, com um sorriso tmido -, ele no gostava 
tanto de San Francisco quanto de seu adorado Texas.
    - Se pensava assim, por que continuava indo at l?
    - No era a cidade que fazia Joseph Jewel voltar. Era minha me. Ele tentou convenc-la a partir de l, a acompanh-lo ao Texas. Mas, embora o amasse, ela recusou. 
Costumava chamar o Drago Dourado de sua melhor criao, depois de mim.
    Wade recostou-se mais sobre o cotovelo, apreciando-lhe a voz melodiosa de inflexo formal. Ela tinha o hlito de baixar os olhos, como se estudasse o cho cuidadosamente. 
Em seguida, erguia-os de repente e o fitava com uma intensidade de tirar o flego.
    - Diga-me, o que achou de San Francisco?
    - Uma bela cidade. - Quase para si mesmo, ele acrescentou: - Um homem poderia se perder l e nunca ser encontrado. - Esforou-se para afastar os pensamentos 
sombrios. - Voc sente muita falta de l, no ?
    - Sim.
    - Ento, por que continua aqui? Por que no retorna para cidade que ama?
    - Era o maior desejo de meu pai que minha me e eu vissemos para o Texas morar com ele.
    - Mas seu pai morreu. O que a impede de retornar para o lugar que cativou seu corao?
    - Aqui  meu lar agora. Com as outras filhas de meu pai, encontrei uma famlia. E embora Joseph Jewel tenha morrido, eu me sinto prxima a ele aqui. Acredito 
que, onde estiver, ficar contente em, saber que planejo ficar.
    - Ao que parece, ele est governando sua vida de seu tmulo.
    Jade limitou-se a sorrir, tocando o cordo de ouro em seu pescoo.
    - Talvez esteja. Talvez todos ns sejamos governados pelos eventos de nossa infncia. - Viu-o estreitando o olhar ligeiramente. - E quanto a voc? - perguntou-lhe 
com um sorriso. - Onde foi criado?
    Mas no viu o menor sinal de riso naqueles olhos castanhos. Ficou intrigada pelo que pde ver ali. Dor. Raiva. E, ento, houve um retraimento gradativo at que 
parecessem desprovidos de emoo. 
    - Acho que j estive em praticamente todo o oeste - disse ele, evasivo.
    - No h nenhum lugar que chame de lar?
    - Nenhum. - O tom de Wade soou um tanto sombrio. - Sou como a erva daninha. Onde quer que eu v  l que crio razes at que a prxima brisa me leve.
    - Ento, no tem planos de permanecer definitivamente em Hanging Tree? E quanto s pessoas que passaram a depender de voc?
    - So boas pessoas. Importo-me com elas. - Wade deu de ombros, seu tom endurecendo: - Mas quem pode saber quanto tempo se passar at que o vento me lance em 
outra direo?
    Jade no soube por que sentiu uma sbita raiva. Talvez fosse pela facilidade com que ele se desligaria das pessoas que pareciam lhe nutrir tanta afeio. Ou 
talvez fosse pela lembrana da sensao de abandono que experimentara a cada vez que seu prprio pai partira.
    Com um suspiro, levantou-se e comeou a andar pela cabana, detendo-se a um canto para observar um dos colches em runas. De repente, o brilho de algo na penumbra 
chamou-lhe a ateno. Um tanto enterrado no cho, havia um objeto reluzente. Agachando-se, desenterrou-o, limpando-o na manga da camisa.
    - O que  isso? - perguntou Wade.
    -  um pente de enfeitar os cabelos.  de prata. Gostaria de v-lo?
    Ele se levantou e apanhou o pente, examinando-o em silncio por longos momentos.
    - Fico me perguntando quem ter morado aqui - disse ela, olhando mais uma vez em torno da cabana. - E por que teria ido embora. Pelo jeito, devia ter havido 
uma famlia, um casal com crianas. Devem ter partido s pressas.
    - Vai me dizer que sabe de tudo isso apenas olhando ao redor?
    - Claro. Olhe para as camas, ou o que sobrou delas. Havia uma grande para os pais, uma menor para as crianas. - Jade passou a mo devagar pelos remanescentes 
da moblia. - A mesa e as cadeiras foram alisadas at que no houvesse cantos speros. Isso significa que o marido fez seu trabalho com bastante amor e carinho. 
E os pratos e potes de cermica foram pintados a mo por algum que os apreciava. Mas quando a famlia partiu daqui, deixou para trs seus estimados pertences. - 
Aproximando-se mais, tocou de leve o pente feminino que ele ainda segurava. - Um pente de prata  um tesouro pessoal caro demais para ser deixado para trs. A menos 
que a mudana tenho sido repentina.
    - Tem um talento impressionante, srta. Jewel. Sempre consegue ver o passado?
    Ela deu de ombros.
    - s vezes. Quando os espritos esto inquietos. Pode-se senti-los aqui, em torno de ns.
    Wade surpreendeu-a, erguendo o pente at os cabelos dela. Embora arregalando os olhos, Jade no se moveu. Permaneceu muito quieta enquanto ele passou o pente 
devagar por seus cabelos. Era o toque mais sensual que j experimentara. Sentiu-se estremecendo por inteiro e teve que fazer um tremendo esforo para manter-se imvel.
    Quando o fitou nos olhos, achou ver um certo brilho naquele intenso tom de castanho, como se ele, tambm estivesse experimentando alguma reao especial. Sua 
voz possante, ento, soou um tanto rouca ao falar-lhe.
    - Tambm consegue ver o futuro assim facilmente?
    - s vezes.
    Wade deixou o pente de lado e estreitou o olhar ligeiramente.
    - Pode prever se eu irei beij-la?
    A pergunta pegou-a de surpresa, fazendo-a recuar um passo.
    - No ir.
    Antes de lhe dar chance de pensar, ele segurou-a pelos ombros, mantendo-a no lugar.
    - E se estiver enganada?
    Jade arregalou os olhos, os lbios se entreabrindo para emitir um protesto. Nesse momento, Wade comeou a se inclinar para beij-la, fazendo-a esquecer-se do 
que pretendera dizer.
    Na verdade, queria ser beijada. Apesar de toda a sua rgida educao, das orientaes que recebera quanto a se manter sempre impassvel e controlada, sentia 
o pulso se acelerando ante a idia de experimentar algo proibido.
    Fechou os olhos e ofereceu os lbios. Mas em vez do beijo, sentiu a ligeira hesitao dele quando as mos fortes apertaram seus braos de leve.
    Abriu os olhos e viu-o fitando-a de uma maneira estranha, resguardada. Observava-lhe os lbios com a mesma intensidade, mas continuava hesitando, suas mos agora 
afagado-lhe os braos num ritmo lento, sensual.
    Wade foi tomado por sbito impacto perante as prprias emoes. Deu-se conta de que cometera um terrvel erro. O simples fato de toc-la j estava lhe causando 
reaes que mal podia controlar. Se a beijasse, estaria perdido.
    Reunindo toda a sua fora de vontade, soltou-a e deu um passo atrs. Com um profundo suspiro, virou-se pra a lareira. Somente quando pde confiar na voz, tornou 
a fit-la:
    - Acho melhor eu ir arranjar mais lenha. - Adiantou-se at perto da porta e vestiu seu casaco molhado. - Parece que a tempestade ainda vai demorar a passar.
    Quando o viu desaparecendo na escurido da noite, Jade cruzou os braos em torno de si. Era como se ainda pudesse sentir o calor daquelas mos afagando seus 
braos, a proximidade daquele torso nu e perfeito.
    Em meio aos sons constantes do temporal, pde ouvir um machado cravando-se na madeira. Como era possvel que ele pudesse afet-la de um modo to intenso, to 
surpreendente, com nada mais do que um toque? E em seguida, com a mesma facilidade, pudesse sair calmamente e ir cortar lenha?
    Apanhando o pente prateado, estudou-o sob a luz do fogo. O toque da mo dele deslizando com o pente vagarosamente por entre as mechas de seu cabelo fora uma 
experincia carregada de erotismo como nenhuma outra em sua vida. Despertara emoes que nem sequer soubera que existia.
    At ento, provara dos lbios de apensa um homem. E aquele beijo acontecera havia tanto tempo que provavelmente devia-se mais  imaginao do que  memria. 
Mas, na poca, evocara a mesma espcie de anseio, o mesmo desejo que o toque de Wade.
    Com um suspiro, sentou-se diante do fogo. Fixou o olhar nas chamas como se tivessem s repostas para todos os mistrios da vida.
    O qu, perguntou-se, causava-lhe turbilho maior? A tempestade l fora? Ou a que estava acontecendo em seu corao?
    
    
    Captulo 7
    
    Wade empilhou uma braada de lenha no interior da cabana e fechou depressa a porta atrs de si, bloqueando as fortes rajadas de vento e a chuva copiosa. Fora 
um alvio poder desafogar suas frustraes no corte da lenha. Ainda assim, msculos doloridos no eram substitutivos para o que realmente ansiava.
    Virando-se, observou Jade adormecida diante da lareira. Foi tomado por uma sensao estranha e agradvel ao v-la em sua camisa xadrez, que revelava mais do 
que cobria. Deixou o olhar vagar por aqueles graciosos ps descalos, pelas pernas longas e bem-feitas, exposta at quase a altura das coxas. Sob a luminosidade 
suave do fogo, notou-lhe a curva dos seis na abertura da camisa folgada. A cada arfar suave daquele peito, podia sentir o seu prprio se oprimindo.
    Ele a queria. Desesperadamente. E ressentia-se do fato. Era uma batalha que travava consigo mesmo a cada vez que a fitava.
    Pensou em todos os sermes que pregara sobre resistir  tentao e as atitudes certas a tomar. Nesse momento, pareciam no passar de palavras vazias. Se tivesse 
direito a um nico desejo...
    Por que estava se torturando daquela maneira?
    Desviando os olhos da adorvel mulher adormecida, correu-os em torno da cabana. Invejou o repouso plcido dela, sabendo que no haveria nenhum para si mesmo 
nessa noite.
    
    Jade acordou de repente, embora levasse alguns momentos para se lembrar de onde estava.
    A cabana abandonada. A tempestade. Seu pulso se acelerou. Wade Weston...
    Sentou-se, afastando os cabelos do rosto. O fogo fora cuidadosamente renovado, com mais lenha crepitando na lareira. Olhou ao redor e ficou surpresa em ver que 
estava sozinha. Pela pequena janela, percebeu que ainda estava escuro. Levantando-se, espiou para fora. A chuva cessara. No cu surgiam os primeiros indcios da 
luz do amanhecer.
    Despiu a camisa xadrez, vestindo a tnica de seda que secara por completo. Calando suas botas delicadas abriu a porta da cabana, observando os arredores.
    Em princpio, no pde distinguir nada exceto os contorno escuros de um curral em runas. Mas quando seus olhos se acostumaram  poa claridade, avistou um vulto 
andando perto da cerca.
    Ao se aproximar, observou enquanto Wade percorria o interior do curral devagar, passando a mo sobre o alto da cerca. Vez por outra parava e olhava a distncia 
como vendo as montanhas que ainda estavam encobertas pela escurido.
    Estudando-lhe o rosto, ele notou que exibia uma expresso absorta, pensativa, e tinha o cenho franzido.
    - Bom dia - disse-lhe. - Conseguiu dormir?
    Wade ergueu a cabea. Com esforo, fez com que o ar preocupado desse lugar a um semblante sereno.
    - Um pouco. E voc, srta. Jewel?
    - Eu devia estar mais exausta do que pensei. - Ela se deteve perto do porto do curral e esperou que ele sasse, parando a seu lado. - Dormi o bastante para 
que meu vestido secasse com o calor do fogo. Obrigada por ter me emprestado a sua camisa.
    Wade tomou o cuidado de no toc-la enquanto caminhavam de volta  cabana. Mas, com aquela proximidade, Jade estremeceu de leve e culpou o ar fresco do amanhecer. 
Olhou ao redor da antiga fazenda, com suas construes externas em runas e os campos infestados de mato.
    -  triste pensar que antes este foi o lar de algum e agora est to abandonado. Meu pai me disse que houve muitos fazendeiros que se viram obrigados a fugir 
dos rigores do Texas.
    Wade tornou a franzir o cenho.
    -  o que voc acha? Que eles fugiram do trabalho rduo para voltar a uma vida fcil? - Ela deu de ombros.
    -  possvel. O que voc acha?
    - Tenho coisas mais importantes em que pensar, srta. Jewel - retrucou ele, abruptamente.
    - Tais como?
    - Tais como quando poderemos partir. - Wade venceu o restante da distncia at a cabana com passadas largas.
    - Suponho que esteja com pressa para voltar ao conforto da penso de Millie Potter.
    - Pode-se dizer que sim. - To logo entrou, ele vestiu a camisa xadrez que Jade usara para dormir. Sua extica fragrncia estava impregnada no tecido. Respirou 
fundo, inalando-a, tomado por sensaes s quais sabia no ter direito.
    Aborrecido com o rumo de seus pensamentos, recolheu o resto de suas roupas ao alforje com certa exasperao.
    - Espero que no se importe se eu usar o que sobrou de seu caf.
    - Fique  vontade.
    Jade colocou o bule de ferro no fogo e, ento, desembrulhou o restante da comida da toalha de linho. Enquanto se ocupava com a tarefa, perguntou-se sobre a sbita 
raiva dele. Teria sido algo que lhe dissera? Ou estaria simplesmente aborrecido com aquele imprevisto que o fizera pernoitar ali?
    -  bom que no tenhamos que passar mais uma noite aqui - comentou ela, ao servir-lhe biscoitos e vrios pedaos de carne. - Ou ficaramos sem comida.
    Wade podia pensar numa razo mais forte para no passar outra noite ali. Uma razo que a teria feito corar dos ps  cabea. Mas guardou seus pensamentos para 
si mesmo enquanto comia e sorvia um pouco do caf fumegante.
    Minutos depois, jogou o alforje por sobre o ombro e rumou abruptamente para a sada da cabana.
    -  melhor partirmos, srta. Jewel.
    Ela o seguiu mais devagar, lanando um ltimo olhar ao redor antes de fechar a porta.
    - Estou quase triste em deixar este lugar.
    - Por qu? - Ele virou-se para fit-la com um brilho surpreso nos olhos.
    - H algo de acolhedor nessa pequena cabana. Algo que fala de amor. - Vendo a maneira como Wade a fitava, corou. - Minha me me disse que herdei essa fraqueza 
de meu pai. 
    - Fraqueza?
    - Essas idias... romntica que tenho s vezes. - o rubor se acentuou. - Meu pai me disse uma vez que no foi a determinao cega que a transformou num fazendeiro 
bem-sucedido nesta regio bravia. Foi a necessidade de deixar para trs tudo que lhe era familiar e ir em busca de uma aventura que mudaria a sua vida para sempre. 
Mas uma vez aqui, ele sentiu muita falta do antigo lar e da famlia e passou o resto de sua vida buscando o que perdera. Chamava a si mesmo de um romntico incurvel. 
Minha me, por outro lado, acreditava que no era sensato acalentar pensamentos romnticos num negcio como o nosso.
    - E voc deseja ser uma mulher de negcios racional como sua me foi?
    - Sim.  o que tem sido esperado de mim desde o meu nascimento. Segundo a tradio,  um tipo de negcio que deve ser passado de me para filha.
    - Mas no esperaram tambm que se casasse um dia? Se sempre houve filhas,  porque devem ter existido maridos.
    -  claro.
    - E se houve casamento,  porque existiu amor, certo? 
    - No, em absoluto. Os casamentos eram arranjados na poca do nascimento.
    Wade sorriu, pensando tratar-se de um gracejo, mas quando a estudou mais de perto, viu que falava srio.
    - Ento, sua me foi casada antes de ter vindo para este pas?
    - Sim, casou-se aos trs anos de idade com um homem que o pai dela havia escolhido. Mais tarde, o marido mandou-a para c, para abrir um negcio e mandar o dinheiro 
para a China. Ela sempre achara que ficaria neste pas por poucos anos. Mas uma vez que abriu o Drago Dourado, o tempo passou e ela foi ficando, embora tenha jurado 
nunca entregar seu corao a nenhum homem. Isso,  claro, foi antes de conhecer Joseph Jewel.
    Wade comeava a entender.
    - Assim, embora ela tenha amado seu pai, no podia se casar com ele, uma vez que j tinha um marido. - Algo ocorreu-lhe de repente. - E quanto a voc? O seu 
casamento foi arranjado na poca do seu nascimento.
    - Era o que minha me queria. Havia uma famlia em San Francisco que tinha vindo da provncia dela na China. Tinham um filho jovem que seria adequado. Mas meu 
pai no permitiu.
    Por alguma estranha razo, o corao de Wade aliviou-se de um momentneo peso.
    Enquanto ele se preparava para subir em sua montaria, ouviu cavalos se aproximando em pleno galope e virou-se, deparando com mais de dez vaqueiros da Fazenda 
Jewel, com Cal McCabe e Adam Winter  frente. Cavalgando entre o grupo, estava o ajudante d xerife, Charles Spitz.
    A expresso de Cal era de preocupao, at que avistou Jade um tanto escondida pelo cavalo de Wade.
    - Jade! Voc est bem? - indagou, aproximando-se na montaria.
    Ela assentiu.
    - Sim. Uma roda da minha carruagem quebrou. O reverendo Weston ofereceu-se para me levar para casa. Mas um temporal nos impediu de prosseguir caminho e tivemos 
que buscar abrigo aqui nesta cabana.
    Cal desmontou, enquanto os demais permaneciam  volta em seus cavalos.
    - Como voc no voltou para casa ontem  noite ficamos terrivelmente preocupados. Encontramos a sua carruagem com a roda quebrada e a parelha. Mas a tempestade 
nos obrigou a adiar a busca at de manh.
    - Oh, eu lamento muito ter causado tanto incmodo, Cal. Voc sabe que eu teria enviado a mensagem de que estava bem se tivesse sido possvel.
    - Eu sei. E fico contente que tenha conseguido encontrar abrigo. - Ele deu-lhe um tapinha gentil na mo e, ento, virou-se para Wade. - Eu lhe estou em dbito 
reverendo. E aliviado que voc tenha estado com Jade e a protegido aqui durante a noite. Ao menos eu sei que no teve nada a temer.
    Aquelas palavras causaram uma onda de culpa em Wade. Se Cal fizesse alguma idia dos pensamentos que haviam povoado sua mente durante a noite inteira estaria 
apontando-lhe uma arma em vez de lhe estender a mo amistosamente. No lhe restou, porm, outra alternativa seno apert-la.
    Em seguida, o capataz da Fazenda Jewel pousou a mo no brao de Jade, comeando a conduzi-la at seu cavalo.
    - Sei que deve estar ansiosa para voltar para casa.
    Tudo estava acontecendo to depressa. Num minuto, Jade tinha todo o tempo do mundo para agradecer Wade por sua ajuda. No minuto seguinte, estava sendo levada.
    Pensou em todas as coisas que pretendia dizer antes que se separassem. Mas nenhuma delas soava adequada. Ento, conseguiu falar por sobre o ombro:
    - Fico-lhe muito grata por toda a sua ajuda, reverendo.
    Wade tocou a aba do chapu, meneando a cabea. Enquanto Jade e os vaqueiros partiam, foi tomado por uma onda de frustrao. Deveria estar contente com o fato 
de que a fonte de sua tentao tivesse sido afastada. Ao menor por ora. Mas, em vez de gratido, sentia um inevitvel desapontamento. Algo tambm lhe dizia que essa 
estranha situao entre ambos estava longe de terminar.
    
    Carmelita entregou a Jade uma bandeja de galinha assada com especiarias.
    - Fiz isto para voc, seorita Jade. Fiquei to preocupada ontem  noite, achando que estava sozinha naquela tempestade.
    - Oh, felizmente, voc no estava sozinha - disse Prola, veemente.
    -  providencial que tenha sido o reverendo Weston a ajud-la - comentou Esmeralda, enquanto se sentava  mesa com as irms para o jantar.
    Adam, Cal e os meninos haviam retornado para o pasto norte, junto com a maioria dos vaqueiros, deixando as quatro irms passarem a noite na Fazenda Jewel.
    - E por que? - indagou Jade, enquanto se servia de uma pequena poro da bandeja e a passava a Esmeralda.
    - Ser tivesse estado na companhia de qualquer outro homem, as fofoqueiras da cidade soltariam a lngua mais depressa do que um estouro de gado - declarou ele 
secamente, enquanto preenchia o prato. - J da forma como aconteceu, aposto que Charles Spitz mal podia esperar para chegar em casa e contar  esposa. E todo mundo 
sabe que o que quer que ela descubra acaba logo relatando a Lavnia Thurlong e Gladys Witherspoon. E o que aquelas duas ouvem  repassado para a cidade inteira De 
Hangig Tree em menos de uma hora.
    - Mas com o reverendo Weston, a sua reputao est intacta - acrescentou Prola. - Nem mesmo as piores fofoqueiras poderiam achar que alguma coisa tivesse acontecido 
entre voc e um cavalheiro respeitoso como aquele.
    Enquanto as duas irms continuavam tecendo comentrios semelhantes, Rubi estudava Jade em silncio, notando-lhe o ligeiro rubor nas faces, a maneira como mantinha 
o olhar fixo no prato.
    - Mas o reverendo  um homem atraente, no , cheri? - perguntou-lhe.
    Jade ergueu a cabea no mesmo instante.
    - Ora, Rubi - queixou-se Prola em seu tom mais ultrajado. - Isso  simplesmente escandaloso. Como pode dizer uma coisa dessas?
    - Que ele  atraente? - Rubi continuou estudando Jade por sobre a mesa, seu sorriso alargando-se. - Ele no  um monge, nem um padre comprometido com uma vida 
celibatria. No preciso lembr-la de que pastores podem se casar. E, acima de tudo, ele  um homem. A menos que todas sejamos cegas, temos que admitir que Wade 
Weston  muito bonito. No h duvida de que possua todos os apetites masculinos.
    - Voc  to maliciosa quanto Lavnia e Gladys - declarou Esmeralda, acusadora.
    - Mas no so mexericos que eu espalho - retrucou a irm, num tom casual. -  a verdade, no ? - Lanou um olhar desafiador s demais. Ento, virou-se para 
Jade com um ar de cumplicidade: - E ento, cheri? Conte-nos. O bonito pregador ofereceu-se para aquecer suas mos frias nas dele?
    - Cus, como pode ser to irreverente? - protestou Prola.
    - Ora, est querendo dizer que o nobre Cal nunca tentou segurar sua mo, ou beij-la, antes de lhe propor casamento?
    As faces de Prola tingiram-se de vermelho. Levou um guardanapo aos lbios para ocultar seu constrangimento. Mas no proferiu palavra em defesa ao marido.
    - Com eu pensei - declarou Rubi, triunfante, antes de desviar a ateno para Jade. - Homens so homens. Quer ganhe a vida pregando ou laando bois, sempre tm 
um fraco por mulheres bonitas. Agora, diga-nos. Como voc e o reverendo passaram a noite?
    Vendo o rubor nas faces de Jade, Esmeraldo segurou-lhe a mo sobre a mesa e disse com gentileza:
    - Na primeira vez que Adam me beijou, fiquei to assustada que quis fugir e em esconder.
    - Voc? - indagou Jade, surpresa. Essa mulher, nascida e crescida no Texas bravio, era a mais forte e corajosa que j conhecera. - Teve medo de um beijo?
    - Exatamente.  claro que da segunda vez que ele me beijou, eu retribu. Mais ainda estava bastante assustada e confusa com todos aqueles sentimentos por Adam 
Winter ebulindo dentro de mim.
    Estudou o ar preocupado nos olhos de Jade.
    - Rubi tem razo? Aconteceu algo entre voc e Wade Weston ontem  noite?
    Pos um instante, Jade pensou em confiar nessas trs mulheres atenciosas. Eram, afinal, a sua famlia. Mas na arte de esconder as emoes no permitiam. Alm 
do mais, nada acontecera. O beijo que ele estivera prestes a lhe dar no chegara a se concretizar...
    Levou a xcara de ch aos lbios, sorvendo-o devagar. Sentindo que o nervosismo comeava a passar, alternou um olhar tranqilo entre as irms.
    - O reverendo  um homem honrado. Se no fosse, teria enfrentado o meu punhal.
    Satisfeitas, Esmeralda e Prola comearam a comer. Mas enquanto Jade baixava o olhar para o prprio prato, flagrou um sorriso malicioso nos lbios de Rubi. E 
soube, do fundo de seu corao, que no convencera a irm nem a si mesma.
    
    
    Captulo 8
    
    Guiando sua montaria na direo da cidade, Wade notou que seus alforjes estavam consideravelmente mais leves aps um dia de visitas. Entregara tabaco a Yancy 
Winslow, uma torta caseira de Millie Potter e duas galinhas vivas a viva Purdy. Levara tambm farinha, acar e suprimento necessrios a Nellie Cooper e seu marido 
Frank, o velho fazendeiro com quem pudera conversar sobre os antigos tempos de Hanging Tree, embora sua memria j estivesse fraca.
    Em geral, suas visitas eram mais bem-vindas e teis do que qualquer sermo que pudesse pregar. Evidentemente, se fosse franco consigo mesmo, havia outro motivo 
pelo qual favorecia os mais velhos com suas visitas. Era um motivo muito menos nobre... No era o dinheiro deles que estava em busca, mas de suas lembranas. Lembranas 
de uma certa poca ali em Hanging Tree...
    Seu cavalo chegou ao topo da colina, e Wade puxou as rdeas, parando-o para observar a cidade. Era um cenrio sereno. Espirais de fumaa saam pelas chamins. 
As luzes dos lampies cintilavam atravs das janelas como vaga-lumes. Mesmo aquela distncia, podia identificar um ou dois vultos conhecidos, enquanto caminhavam 
na direo do saloon, ou do escritrio do xerife. Ainda assim, apesar de toda a familiaridade com o lugar, ele se sentia totalmente desligado dali.
    A inquietao tornava a domin-lo. Ou talvez nunca o tivesse deixado de vez. Talvez tudo o que chegasse a conseguir fosse alguns breves momentos de paz antes 
que todos os velhos fantasmas voltassem para atorment-lo.
    Essa no era a sua cidade. No mencionara algo assim a Jade? No era a sua gente; no precisava ficar.
    Fechou os olhos e passou a mo pelo rosto num gesto de tremendo cansao. No poderia retornar para a penso de Millie Potter essa noite. Nem tampouco queria 
passar uma noite fria sob as estrelas junto  margem de um riacho.
    Guiou o cavalo na direo oposta da cidade. E com uma angustia oprimindo-lhe o peito como se fosse o peso do prprio mundo, afastou-se da civilizao.
    
    - Esses so os ltimos detalhes externos, srta. Jewel. - Farley Duke, cuja serraria fornecia toda a madeira de construo para os moradores de Hanging Tree e 
os fazendeiros das redondezas, era tambm o homem que Jade contratara pra supervisionar os operrios. Trabalhando de sol a sol, haviam conseguido colocar as ltimas 
janelas e a grande porta dupla da entrada. - Poderemos comear a trabalhar na parte de dentro amanh.
    - Obrigada, Sr. Duke. - Ela no conseguia para de olhar para o prdio. Era, sem dvida, a maior construo que havia na cidade, situada numa ligeira elevao 
e possuindo dois andares. Por ora, parecia ser apenas quadrada, slida e, exceto pelo tamanho, comum. Mal podia esperar pela fase de acabamento, quando uma camada 
de tinta fresca obre as tbuas daria seu toque mgico. Ento, duas figuras de drages seriam pintadas a ouro, ladeando a majestosa porta principal, com o nome do 
estabelecimento acima. E o interior seria adornado luxuosamente, como nada que j tivesse sido visto em todo o Texas.
    Soltou um longo suspiro. J era tempo de fazer planos para aquela viagem de compras a San Francisco. Mas no seria to de imediato. Ainda no estava preparada 
para enfrentar a longa jornada. Esperava poder adi-la por mais algumas semanas.
    Depois que os trabalhadores se foram, ansiosos pelo retorno do lar, ela subiu em sua charrete e sacudiu as rdeas da parelha. No tivera inteno de ficar na 
cidade at to tarde. Ainda teria um extenso percurso at a fazenda. E j comeava a escurecer.
    Enquanto os cavalos conduziam a charrete pelas colinas e atravs dos campos, foi inevitvel que seus pensamentos se voltassem mais uma vez para Wade Weston. 
Aquele era um homem indecifrvel, enigmtico. Sob certos aspectos, parecia ter sido feito sob medida para a profisso. Sem as exigncias de um lar e uma famlia, 
era livre para dedicar todo o seu tempo e ateno aos que precisavam. Era realmente carismtico. Desde sua voz, baixa e agradvel, queles olhos intensos, que pareciam 
poder enxergar atravs da alma de uma pessoa, ele era uma presena marcante. E era extraordinariamente bom. Sua generosidade no passava despercebida. Todos num 
raio de muitos quilmetros elogiavam com eloqncia o bom reverendo Weston. Tudo isso contribua para torn-lo ainda mais misterioso. Nunca falava sobre si mesmo. 
Conseguira evitar as perguntas dela sobre sua infncia, tomando o cuidado de no revelar nem mesmo o mais simples detalhe sobre seu passado.
    Seria aquele ar de mistrio o que a atraa? Pensou num outro homem que despertara seu interesse certa vez. Ainda agora a simples lembrana daquele estranho fazia 
seu corao bater mais forte.
    De repente, foi despertada de seus devaneios pelo som de um tiro reverberando pelas colinas.
    Sobressaltada, ela guiou a parelha depressa at um pequeno arvoredo e espiou pelas sombras do anoitecer. No muito longe, ouviu-se a voz de um homem soltando 
um praguejamento. Isso foi seguido pelo murmrio de vrias vozes masculinas e sonoras gargalhadas.
    Era o bando de foras-da-lei! E ela quase rumara diretamente para eles...
    Ser que a teriam visto se aproximando? O tiro teria sido na sua direo? Ou na de algum outro viajante desavisado?
    Engolindo em seco, esforou-se para tentar escutar o que diziam. Mas o pulsar em suas veias parecia ecoar-lhe nos tmpanos. Tudo o que sabia era que os homens 
acima tinham ficado estranhamente quietos.
    Ento, um deles perguntou de repente:
    - O que foi aquilo?
    - O qu? - gritou outro. - No ouvi nada.
    - Pareceu que havia algum na trilha. Vamos voltar.
    Jade foi tomada por uma onda de terror. No podia deixar que a vissem. Mas seria impossvel ocultar o rudo de cascos e das rodas da charrete. No havia como 
passar despercebida por perto deles. E se desse meia-volta e tentasse voltar  cidade, certamente a alcanariam.
    O medo tornou seus gestos aflitivos e desajeitados enquanto descia da charrete e desatrelava a parelha. Segurando-se com firmeza ao pescoo de um cavalo, deu 
uma palmada no flanco do outro, fazendo-o correr em direo de casa. Ento, montou no cavalo que ficara, agarrando-se  crina.
    Ao contrrio de Esmeralda, estava longe de ser uma experiente amazona. Mas o medo e a determinao tiveram que suprir a falta de habilidade. Guiando o cavalo 
na direo oposta a das vozes, saiu a pleno galope.
    - Aqui em cima - disse algum, e vrios cavalos dispararam na direo do que corria sozinho.
    - No. Venham por este caminho! - ordenou outra voz. - Deve haver dois deles.
    Apavorada, Jade percebeu que pelo menos alguns dos cavaleiros tinham-na avistado e estavam no seu rastro.
    Agachando-se acima do dorso do animal, entrou deliberadamente numa rea de bosques densos. Os galhos mais baixos esbarravam em seus cabelos e feriam sua pele. 
A manga de sua tnica foi rasgada, deixando um aranho profundo ao longo de seu brao, mas esforou-se para ignor-lo enquanto instigava mais o cavalo em sua fuga 
frentica. 
    Os cavaleiros que a perseguiam foram retardados pela densidade dos arvoredos. Vez ou outra ouviu vozes masculinas, praguejando, amaldioando. A cada uma que 
escutava, conseguia adentrar mais pelo bosque. Logo, os sons desapareceram na distncia, porm ela continuava impelindo o cavalo a dar o mximo de si. 
    Arbustos altos enroscavam-se na barra da tnica, rasgando-a at que estivesse em farrapos. Sangue se esvaa de diferentes cortes e arranhes.
    Enfim, o cavalo livrou-se do bosque e Jade se viu num descampado solitrio e envolto pela escurido.
    A cada quilometro vencido, continuava olhando nervosamente por sobre o ombro, aterrorizada com a possibilidade de que os foras-da-lei a encontrassem de algum 
modo. No tinha nenhum plano em mente agora exceto prosseguir, durante toda a noite se fosse necessrio, at estar a salvo.
    No demorou a perceber, para seu horror, que estava perdida.
    Ocorreu-lhe que tudo o que realmente conhecia desse bravio e primitivo territrio do Texas era a pequena cidade de Hanging Tree e a fazenda de seu falecido pai. 
Para uma jovem nascida e criada em San Francisco, essa terra era assustadora. Especialmente agora que a noite cara por completo, escondendo aos poucos marcos naturais 
que pudesse ter reconhecido.
    Uma onda de puro terror invadiu-a, ameaando sufoc-la. Tentou control-la. Tentou control-la, estremecendo de frio e medo e, determinada, continuou instigando 
o cavalo.
    Ao chegar ao topo de uma pequena colina, os contornos de uma cabana surgiram inesperadamente na escurido. Quando percebeu que era a cabana abandonada onde pernoitara 
com Wade, foi tomada pelo sbito alvio. Finalmente, teria um abrigo. Mas ao mesmo tempo, sentiu um novo temor. E se os foras-da-lei a encontrassem? Sozinha nesse 
lugar estaria a merc deles. E dessa vez sem a ajuda de seu anjo da guarda...
    Ao desmontar, ficou sobressaltada com o relincho de um cavalo no curral. Levou a mo aos lbios, horrorizada. O que fora fazer? Havia algum ali. Notou as finas 
espirais de fumaa saindo da chamin. Cus, poderia ser o restante do bando. Se fosse, caminhara diretamente para uma armadilha.
    - Vire-se - ordenou-lhe uma voz possante - E erga suas mos at onde eu possa v-la.
    Ao ouvir aquele tom familiar, Jade virou-se. Parado nas sombras da noite estava Wade.
    -Oh, reverendo Weston, felizmente... - Suas palavras morreram-lhe na garganta quando conseguiu v-lo com maior clareza.
    No parecia um pastor. Em vez do costumeiro terno preto com a impecvel camisa branca, usava as roupas rsticas de um caubi.
    E em suas mos, havia um rifle de aspectos ameaador.
    Ela, portanto, levou vrios momentos para se recobrar da surpresa.
    - O qu...? - Baixando as mos, deu um passo  frente. Mas diante do brilho zangado nos olhos dele, parou. No havia uma expresso de boas-vindas naqueles profundos 
olhos castanhos-claros. E nenhum sorriso nos lbios cheios. Em vez de amistoso, parecia tenso e alerta feito um predador.
    Continuou parado perto da porta da cabana, o rifle nas mos.
    - O que est fazendo aqui? - perguntou-lhe.
    - Eu estava voltando para casa e... - a voz dela tremeu ligeiramente - ... e quase deparei com aquele bando de foras-da-lei outra vez.
    De imediato, Wade baixou o rifle e deu um passo  frente.
    - Voc os viu?
    - No. Mas pude ouvi-los. E soube que eles perceberam que eu me aproximava pela estrada.
    Quando ela contou o que fizera, houve um tom de aprovao na voz de Wade ao dizer:
    - Pensou rpido, srta. Jewel.
    - Nem sei se eu estava conseguindo pensar com clareza. Fiquei desesperada e comecei a agir por instinto. Mas quando, enfim, consegui despist-los, percebi que 
me havia perdido. Foi por pura sorte que vim parar aqui.
    Agora que se via em segurana, ela deveria sentir alvio. Mas uma estranha tremedeira tomava conta de seu corpo. De repente, cambaleou. Antes que pudesse cair, 
Wade deixou o rifle de lado, aproximou-se mais e segurou-a em seus braos.
    - Pelos cus, voc est sangrando. Foi baleada?
    - No. Ou ao menos, acho que no. Curiosamente, Jade no conseguia sentir nada exceto o calor daqueles braos que a erguiam. De encontro  solidez do peito que 
a aninhava, sentiu-se protegida. Todo o medo que estivera contendo saiu numa enxurrada de palavras e num profundo suspiro:
    - No sei por que estou sangrando. Talvez os galhos... - A voz falhou-lhe com o sbito acesso de lgrimas. Tentou enxug-las, mas comearam a rolar copiosas 
por suas faces. - Eu fiquei to apavorada... Oh, nem sei por que estou chorando. Eu nunca...
    Resmungando algo entre dentes, Wade carregou-a ao interior da cabana, fechando a porta atrs de si. Deitou-a sobre o cobertor que deixara estendido diante do 
fogo crepitante da lareira.
    Ajoelhou-se ao lado dela, examinando os machucados. Era to pequena, to frgil. Oprimia-lhe o corao v-la assim ferida.
    Molhando seu leno numa bacia de gua, comeou a limpar-lhe a pele, fascinado com sua maciez e com a delicadeza da ossatura dela. Tinha vrios arranhes, constatou 
que eram todos superficiais.
    - Se aqueles homens tivessem me encontrado...
    - No diga nada agora. - Enquanto Wade torcia o leno na gua e ia lhe limpando os machucados, sentiu-se tomado por uma fria cega. Compreendeu com sbito impacto 
que estava comeando a se importar demais com essa mulher. A idia de Jade nas mos de um bando cruel despertava-lhe sentimentos indesejveis, pouco confiveis.
    Ela permaneceu quieta feito um passarinho ferido sob os cuidados dele, enquanto refletia que aquelas grandes mos pudessem ser to gentis.
    Enfim, Wade limpou o arranho mais profundo no brao dela e enrolou-o com uma tira de linho. Enquanto o fazia, sua mo roou-lhe o seio acidentalmente.
    A onda de calor foi instantnea.
    Baixando o olhar, viu o rubor que se espalhou pelas faces dela. Evidenciou-se ainda mais por causa da atual palidez.
    Esforou-se para no dar nenhum sinal de seu turbilho interior, enquanto a cobria com seu casaco. Mas a voz traiu-lhe a tenso ao murmurar:
    - Ficar bem agora.
    Jade aninhou-se no calor do casaco e, com um suspiro de contentamento, perguntou:
    - Como aconteceu de estar aqui nesta noite?
    Ele tirou algo de uma panela de ferro acima do fogo.
    - Ficou tarde demais para voltar  cidade e eu me abriguei aqui. Tive sorte em conseguir caar dois coelhos.
    Aquilo explicava o rifle, pensou ela, embora nunca tivesse visto com uma arma. Mas ao olhar ao redor, notou algo mais. As janelas estreitas tinham sido cobertas 
com farrapos. Mas por qu? Seria para bloquear o frio, ou para impedir que algum que passasse por ali visse a luz do fogo?
    O motivo para estar na cabana parecia lgico. Afinal, eles mesmos no tinham buscado abrigo ali durante a tempestade daquela outra noite? Mas dessa vez, o cu 
estava lmpido e estrelado. E a cidade devia ficar apenas a algumas horas de distncia.
    Poderia estar evitando algum? Por que outra razo um homem como ele preferia uma cabana rstica ao conforto da penso acolhedora de Millie Potter?
    Wade estendeu-lhe um parto de cozido, e Jade se sentou, comendo com apetite. Em seguida, ele ofereceu-lhe uma caneca de caf fumegante.
    - Obrigada. Nem faz idia do quanto lhe sou grata por voc ter escolhido essa noite para estar aqui. - Agora que estava segura, aquecida e que sua fome fora 
saciada, foi-lhe difcil permanecer acordada. Mas enquanto se deitava e se deixava dominar pelo bem-vindo torpor, vrias perguntas comearam a anuviar-lhe a mente. 
Se aquele se tratava mesmo de um pastor, por que era to misterioso? A quem evitava? Por que, se j caara aqueles coelhos para o cozido, ainda estivera segurando 
o rifle quando ela chegara? E qual a razo daquelas vestimentas, estranhas a seu ofcio?
    Apesar de seus pensamentos inquietantes, ou talvez por causa deles, mergulhou num sono profundo.
    
    
    Captulo 9
    
    No decorrer da longa noite, Wade obrigou-se a manter-se ocupado. Enxugou o plo suado do cavalo exausto de Jade antes de coloc-lo no curral com o seu. Depois 
de jogar bastante feno n cercado, buscou vrios baldes com gua num riacho prximos despejando-os num velho cocho para os animais. Munido do rifle, andou pelas colinas 
ao redor, atento a possveis intrusos. Fez uma meia dzia de viagens at os bosques vizinhos, retornando a cada vez com os braos repletos de lenha. Ao esgotar a 
lista de tarefas para ocupar seu tempo, retornou, relutante, para a pequena cabana. Sentando-se a um canto, ficou observando Jade dormir.
    Era to bonita, to perfeita, que poderia ter sido algum sada de sua imaginao, apenas para satisfazer um vazio em seu ntimo. Mas ela era real. Real demais. 
E tentadora tambm...
    Cus, como ansiava por um gole de usque. Queria aplacar aquela inquietao em seu ntimo. Queria... Jade.
    Passou a mo por seus cabelos castanhos num gesto frustrado. Na ltima vez que haviam estado sozinhos nessa cabana, tivera que lutar contra uma poderosa tentao. 
E tivera xito. Mas agora era diferente. Nessa noite...
    Por que ela fora escolher essa noite para retornar? Para precisar de sua ajuda? Para confiar nele?
    Confiar... Sacudiu a cabea, desdenhando de si mesmo.
    Na maior parte do tempo, tinha total controle sobre suas aes. Mas nessa noite, sua fora de vontade parecia ter se esgotado. Tinha seus prprios demnios para 
exorcizar. E a presena dessa mulher ameaava lev-lo para alm do seu limite.
    A respirao dela acelerou-se de repente e comeou a murmurar palavras incoerentes. Wade percebeu que estava tendo um pesadelo, revivendo o medo da perseguio.
    - No... esconder... encontrar-me...
    No vendo outra escolha, ajoelhou-se a seu lado e sacudiu-lhe o ombro com gentileza.
    - Jade, acorde.  apenas um sonho.
    Com um grito, ela sentou-se, o casaco escorregando para o lado. Os cabelo. Lisos e negros com o bano, cascatearam-lhe pelos ombros, emoldurando um rosto que 
no deixava de fascinar. Wade a cada vez que o contemplava.
    Jade tinha os olhos arregalados pelo pavor e, assim, que se deu conta de onde estava, abraou-o instintivamente pelo pescoo.
    - Oh, Wade! Tive tanto medo. Por um minuto, eu achei que...
    - Eu sei. - Aqueles braos em torno do seu pescoo, a face encostada na sua num gesto meigo eram como uma tortura para Wade. Deveria afast-la, mas toda a sua 
determinao esmorecia.
    Era to incrivelmente doce e feminina. Precisava abra-la, nem que fosse apenas por um momento.
    Com infinita ternura, estreitou-a em seus braos, acariciando-lhe as costas. Pareceu a coisa mais natural do mundo roar-lhe as tmporas com seus lbios e murmurar-lhe 
palavras de conforto.
    - Est tudo bem. Est a salvo agora. - To a salvo quanto qualquer cordeiro nas garras de um lobo, pensou ele, censurando a si mesmo.
    - Eu sei. Fico to aliviada que esteja aqui. Do contrario, eu estaria sozinha, com frio e com fome. E to apavorada...
    - No h nada a temer agora. - Exceto o homem que lhe sussurrava todas essas doces mentiras. Wade sentiu-se o mais vil dos seres. E incapaz de se conter.
    Jade gostou da sensao daqueles braos a envolv-la de estar aninhada junto ao peito forte, sentindo-lhe o ritmo acelerado do corao. Acelerado? Percebeu de 
repente. Sim, tanto quanto o seu...
    Ele, ento, tomou-lhe o rosto entre as mos, fitando-a nos olhos. Aquela proximidade dissipava-lhe qualquer pensamento coerente, deixando apenas um. Tinha que 
beij-la. Naquele momento. Afundou as mos nos cabelos sensuais, puxando-a ainda mais para si.
    Jade pde ver o desejo naqueles olhos. Por um instante ficou tensa. Mas logo em seguida, sucumbiu.
    Os lbios clidos roaram os seus com gentileza, um beijo lnguido, sereno, deu-lhe a chance de se esquivar. Mas ela no o fez. No podia; no com as sensaes 
abrasadoras que o toque daqueles lbios lhe evocavam.
    - Pea-me para parar - sussurrou ele em tom de splica.
    - No, eu... - Em vez de se afastar, Jade abraou-o pela cintura, as mos sentindo-lhe os msculos das costas atravs do tecido fino da camisa. - Eu no posso.
    - Nem eu. - Agora, no havia nada de gentil no beijo. Wade apossou-se daqueles lbios rosados com quase desespero. Tomou-os com sofreguido, invadindo-lhe a 
maciez da boca com a lngua vida, no lhe dando nem sequer tempo para pensar.
    Ele soubera... Sim, soubera que todo o cuidado e planejamento, as boas maneiras, o cavalheirismo poderiam desmoronar num nico momento inconseqente. Fora por 
tal razo que se empenhara tanto para evitar isso. Para evitar essa mulher. Mas no importava mais. Tudo o que importava era o que partilhavam agora.
    A necessidade de toc-la era impossvel de ignorar. Correu uma mo pelas costas delicadas, pelo ombro, pelo pescoo.
    Jade se movia sob aquele toque, arqueando-se a cada carcia. Sentia a tenso se esvaindo, seus temores se dissipando. Mas, ao mesmo tempo em que comeava a relaxar, 
o mesmo toque excitava, inebriava. Seu corpo estava dominado por um incontrolvel anseio. Era algo poderoso que a fazia retribuir ao beijo de uma maneira que nunca 
sonhara ser possvel.
    Seus lbios se entreabriam, dando acesso  lngua que lhe explorava a boca com ousadia, entrelaando-a com a sua. Beijava-o com uma paixo que nem sequer julgava 
possuir.
    Desde o momento em que comeara a beij-la, o controle de Wade se fora, dando lugar a um desejo to intenso que o surpreendeu.
    Sabia que precisava recuar. E teria que ser agora, antes que ultrapassasse certos limites. Mas enquanto um beijo se confundia com o outro, toda a razo se dissipou. 
Tudo o que podia fazer era abra-la, toc-la, continuar beijando aqueles lbios irresistveis com arrebatamento. No demorou para que a paixo explodisse de uma 
maneira avassaladora entre ambos, quase enlouquecendo-os.
    Jade entregara-se com abandono ao prazer do momento, que era mais intenso do que qualquer coisa que j tivesse experimentado. Enquanto o beijo sfrego prosseguia, 
esqueceu-se de tudo o que aprendera sobre resistir aos avanos de um homem. Todos os ensinamentos que haviam-lhe sido ministrados foram em vo. Em algum canto de 
sua mente, ouviu um gemido abafado que falava de paixo, de um desejo que ia sendo gradativamente despertado. Mas nem sequer o reconhecia como seu.
    - Eu achei que poderia lutar contra isso. Mas no tenho foras - sussurrou ele. - Quero voc... e desde a primeira vez que a vi.
    Ergueu os olhos e fitou-a sob a luz do fogo. Jade tinha os lbios rubros e midos de seus beijos, os olhos semicerrados pela paixo, a respirao ofegante.
    - E eu... eu quero...
    De repente, estudando-a com perturbadora intensidade, Wade ergueu a mo, traando-lhe o contorno dos lbios lenta e sensualmente com o polegar.
    Fitando aqueles penetrantes olhos de mbar, ela gelou com uma inesperada lembrana do passado.
    No, aquilo no podia estar acontecendo.
    Ele no podia ser...
    Jade arregalou os olhos em choque e sbito reconhecimento. Por um momento, sentiu-se como se o ar lhe faltasse. Ento, encontrando a voz, conseguiu dizer.
    - Foi voc.
    Diante de tais palavras, ele estudou-a, estreitando o olhar.
    - A sua voz naquela noite era um mero sussurro. E seu rosto estava diferente. Tinha uma barba crescida, como um montanhs. Mas nunca me esqueci da maneira como 
voc me beijou no meu aniversrio de dezesseis anos. E o jeito como afagou meus lbios com o polegar... exatamente como fez agora.
    Aps um longo silncio, Wade encontrou a voz e fez meno de tornar a abra-la.
    - Voc deve ter me confundido com outra pessoa.
    - No. - Jade desvencilhou-se do brao, sentindo um sbito frio. Com a respirao acelerada, ergueu o olhar para fit-la, como se o estivesse vendo pela primeira 
vez. - Voc estava todo vestido de preto. E estava jogando e ganhando. Algum chamou voc de Nevada. E voc matou um homem. Calmamente, sem emoo. E ento voc 
me beijou.
    Como ele no disse nada em sua defesa, ela se levantou do cobertor e atravessou a cabana, precisando colocar alguma distncia entre ambos.
    - J  ruim o bastante que voc seja um jogador e um pistoleiro. Mas para piorar a situao,  um mentiroso tambm. - Encarou-o com um olhar furioso. - O pior 
tipo de mentiroso, que se passa por um homem de paz.
    Sentiu as lgrimas aflorando-lhe nos olhos e afastou-as. No se permitiria chorar por causa da lembrana ilusria que acalentara tolamente durante trs anos. 
A lembrana de seu primeiro beijo, dado por um homem que a fascinara. E alimentara seus sonhos.
    - Como pde ter mentindo para mim?
    Como ainda queria estreit-la em seus braos, Wade cerrou os punhos ao longo do corpo. Sua voz soou cuidadosamente controlada:
    - No  uma mentira. Sou um homem de paz. Ao menos, tento ser. E no pedirei desculpas por aquele beijo. Nem pelo do passado, nem pelos de hoje. Quanto  sinceridade, 
srta. Jewel se estivesse sendo franca teria que admitir que correspondeu aos meus beijos. - Seus lbios cheios curvaram-se num sorriso amargo. - Naquela poca e 
agora.
    Como fosse verdade, ela ergueu o queixo daquela maneira altiva que ele passara a conhecer to bem. A fria transformava-lhe a voz numa arma to afiada e cortante 
quanto o punhal que levava preso  cintura:
    - Ao menos agora que sei o que voc pretende, tenho a decncia de pr um fim nisto. Quanto a voc, no tem a menor, em absoluto. Mentiu para mim. E para as pessoas 
de Hanging Tree. Isso  algum tipo de jogo cruel e desumano para voc, no ?
    - Jogo?
    - Sim. Voc mesmo no disse que no tinha a inteno de ficar na cidade? Que essas pessoas no significavam nada para voc? Pelo que imagino, voc poderia estar 
usando seu carisma para aprender tudo sobre as pessoas de Hanging Tree para poder tirar vantagem delas. Assim como fez comigo.  o que est planejando?
    Ele ficou muito quieto. A raiva que o tomava por dentro no estava visvel em seu rosto, nem a voz quando falou:
    - Isso tudo nem  digno de resposta. - Lanou um olhar para a porta fechada. - No vai demorar a amanhecer. Eu a levarei para casa.
    - No precisa se incomodar. Sei cuidar de mim mesma.
    Wade atravessou o cmodo em poucas passadas, as mos segurando-lhe os ombros delicados com firmeza.
    - Eu disse que a levaria em casa. Depois disso, nunca mais ter que me ver.
    A dor e a raiva fizeram Jade esquecer o cuidado:
    -Para mim, ser timo. Voc me causa repulsa. Agora, tire suas mos de mim.
    Ele devia solt-la de imediato, mas a prpria raiva sobrepujou as demais emoes.
    - Um minuto atrs, estava gostando do toque de minhas mos. E se perguntando como seria entregar-se aos prazeres da carne comigo.
    Havia um brilho perigoso naqueles olhos castanho-claros. Um brilho que assustava Jade e a excitava ao mesmo tempo, fazendo seu pulso acelerar.
    Odiou-o por ter decifrado suas emoes to facilmente. Embora quisesse negar, seria mentira. Quisera-o. E ainda o queria, se fosse franca consigo mesma.
    - No  tarde demais, srta. Jewel. - O tom de Wade endureceu. - Poderia descobrir agora mesmo. Gostaria disso? Quer que eu lhe mostre como seria fcil? E prazeroso?
    Assim como em San Francisco, Jade sentiu-se tanto atrada como repelida pelo perigo, pelo desconhecido. Foi a custo que conseguiu manter a voz controlada:
    - Solte-me.
    Ele observou-lhe os olhos escuros ao baixar as mos ao longo do corpo e deu um passo atrs. O medo dela dissipara-se, mas no por completo. Embora mantivesse 
a cabea erguida, os ombros rijos, havia uma expresso preocupada, apreensiva em seu semblante.
    Wade soube que deveria se desculpar por sua rudeza de momentos atrs. Mas ainda estava furioso demais. Em vez disso, girou nos calcanhares e adiantou-se at 
a porta.
    - Vou buscar os cavalos.
    
    
    Captulo 10
    
    A primeira luminosidade do dia despontava no horizonte, mas o cu ainda estava salpicando de estrelas. Alheios  beleza do amanhecer que banhava as montanhas 
ao longe com sua luz perolada, Wade e Jade cavalgavam em absoluto silncio.
    Ela no sabia o que era pior: a fria fria nos olhos dele ou as maneiras excessivamente polidas que adotara. Manteve a montaria ao lado da sua durante tosa a 
jornada, porm apenas olhou na sua direo quando foi absolutamente necessrio.
    O corao de Jade jamais estivera to oprimido, to desolado. O reverendo Wade Weston era um farsante um mentiroso. Era tambm o misterioso e bonito cavaleiro 
de seu passado cuja lembrana alimentara seus sonhos. Tudo que ele afirmava ser no presente, porm, era uma grande mentira.
    Cus, como fora tola! E no tinha ningum a culpar a no ser a si mesma. De algum modo, intura que o pistoleiro que conhecera no Drago Dourado tivera algo 
a esconder. Por que outra razo teria desaparecido misteriosamente, nunca mais tendo sido visto em San Francisco?
    Que melhor maneira para um pistoleiro com um passado secreto comear uma nova vida na pele de um homem de paz? Talvez fosse por isso que nunca tivera feito a 
ligao entre Wade Weston e o enigmtico pistoleiro. Embora ambos tivessem lhe despertado algo em seu ntimo, tinham parecido o extremo oposto um do outro. E agora 
descobrir que era o mesmo homem...
    O fato mais chocante de todos era que, a despeito de sua farsa, ele era o nico homem que j a havia tocado. E no apenas permitira, mas o encorajara, pensou, 
mortificada.
    Havia envergonhado sua me, que lhe ensinara, para o sucesso de seu negcio, a manter-se distante de todos os homens. E tambm envergonhara o pai, que sempre 
tivera orgulho de ser um profundo conhecedor das pessoas. Como podia ter entregado seu corao a um mentiroso?
    Quando, finalmente, fizeram uma parada numa colina com vista para a Fazenda Jewel, ela rompeu seu silncio:
    - Eu gostaria de prosseguir sozinha pelo resto do caminho.
    - Disse que a levaria em segurana at em casa.
    - No. - Os olhos de Jade faiscaram em desafio. - Se estiver preocupado com minha segurana, pode ficar aqui at que eu chegue aos estbulos. Mas no quero que 
se aproxime mais da minha casa.
    - Como quiser, srta. Jewel.
    - Diga-me, Wade Weston  o seu verdadeiro nome? Ou inventou isso tambm?
    O semblante dele parecia esculpido em granito.
    - Pensei que soubesse, srta. Jewel. Tudo a meu respeito  falso. - Tocou a aba do chapu, deu meia-volta com o cavalo.
    Ela permaneceu onde estava at v-lo desaparecendo depois de outra colina. Ento, com um terrvel peso no peito, guiou o cavalo at a rea principal da fazenda.
    Suas trs irms saram correndo da casa quando avistaram seu cavalo.
    - Onde voc esteve? - indagou Esmeralda.
    - Ficamos to preocupadas quando um de seus cavalos voltou sem voc! - exclamou Prola.
    - Os vaqueiros passaram a noite vasculhando os campos  sua procura - disse Rubi, em tom de reprimenda.
    - Lamento muito. Perdoe-me. - Descendo do cavalo, Jade contou-lhes sobre como estivera preste a deparar com os foras-da-lei e a maneira como conseguiu despist-los 
e fugir.
    - Uma outra boa noite com o bom reverendo! - declarou Rubi, com um sorriso maroto.
    - E a ltima - retrucou Jade, franzindo o cenho.
    - Qual o problema? - perguntou Esmeralda, notando a dor por trs das palavras. - O que houve?
    - Nada - respondeu ela depressa demais. As trs a estavam estudando atentamente. - Agora, se no se importam, eu gostaria de um banho e a chance de dormir numa 
cama.
    Enquanto se adiantou rapidamente at a casa, as trs irms se entreolharam em consternao. Algo acontecera para tirar de Jade a sua costumeira alegria. Mas 
no parecia disposta a contar o que houvera a ningum.
    - Foram aqueles malditos foras-da-lei - declarou Esmeralda, furiosa.
    -  claro. O pavor que passou abalou-a - assentiu Prola.
    - Se querem minha opinio - interveio Rubi, pensativa - no  o bando que est causando tanta infelicidade a ela.  algo mais, Ou algum...
    O que quer que fosse, Jade guardou para si mesma. Pelo resto do dia, permaneceu em seu quarto, a porta firmemente trancada. Nem mesmo o frango com especiarias 
de Carmelita foi capaz de tir-la de seu isolamento.
     noite, porm, teve um anncio a fazer s irms. Partiria na manh seguinte para San Francisco.
    
    Enquanto o cocheiro acomodava as malas de Jade na carruagem, ela se incumbia das ltimas despedidas s irms, que, desoladas, ainda lhe pediam que reconsiderasse 
a deciso.
    Como de costume, a presena das irms Jewel na cidade de Hanging Tree atraa uma pequena multido de curiosos.
    Vrias pessoas paravam na rua para observ-las, incluindo, Lavnia Thurlong e Gladys Witherspoon, que abriram caminho entre todos, esperando ouvir algo da conversa 
das quatro.
    - Parece que est prestes a fazer uma viagem - arriscou Lavnia.
    Jade limitou-se a assentir.
    - Interessante. - Gladys arqueou a sobrancelha. - Ouvi dizer que o reverendo Weston deixou a cidade tambm. Parece que falou a Millie Potter que no sabia quando 
iria retornar.
    Trs das irms Jewel entreolharam-se com preocupao e, em seguida, viraram-se para Jade. Mas pela maneira como comprimia os lbios, sabiam que ela no faria 
nenhum comentrio sobre o bom pastor.
    As trs, ento, sabendo que cada palavra que proferissem seria repetida por toda redondeza, baixaram as vozes:
    - Eu gostaria que voc ficasse - persistiu Esmeralda.
    - J lhe disse. - Jade estreitou-a num abrao apertado. -  importante que eu cuide dos negcios de minha me. Ela investiu sua vida no Drago Dourado.  uma 
valiosa casa de entretenimento. Preciso encontrar um comprador.
    - Mas voc no nos deu nenhum aviso - queixou-se Prola. - E agora diz que talvez fique fora por semanas ou at meses. Por que agora? E por que tem que se ausentar 
tanto tempo?
    Jade abraou-a tambm.
    - Meu prdio aqui na cidade est quase terminando. Vai precisar ser mobiliado. H coisas no Drago Dourado de San Francisco que seriam teis aqui. Tenho que 
fazer uma lista dos muitos tesouros e avaliar cada item cuidadosamente antes de decidir qual devo guardar e qual vender. E h tambm os meus empregados. To logo 
eu arranjar um corretor para vender o estabelecimento, pretendo assegurar emprego para todos que dependem de mim.
    - Prometa que ter cuidado, chrie - sussurrou-lhe Rubi ao pux-la para si, envolvendo-a num abrao terno. -  uma longa jornada desde aqui at San Francisco.
    - Eu prometo.
    - No  apenas a jornada que me preocupa - murmurou a irm que apenas Jade ouvisse. -  voc e um certo... cavalheiro. Acho que h muita coisa entre vocs que 
no nos contou.
    - No se preocupe. Posso cuidar de mim. Quanto ao cavalheiro - sussurrou ela, com um suspiro - no merece esse ttulo. - Bem, sentirei sua falta, Rubi. De todas 
vocs - acrescentou, virando para as outras duas irms.
    O cocheiro terminou de acomodar os bas no alto da carruagem e desceu.
    - Estamos prontos para partir, srta. Jewel.
    - Obrigada. - Jade permitiu que o homem a ajudasse a subir na carruagem. Quando a porta se fechou, debruou-se na janela e segurou nas suas mos estendidas das 
irms. - No se preocupem comigo. Voltarei antes que tenham tempo de sentir minha falta.
    Enquanto a carruagem se afastava, ficou  janela observando, at que pequena cidade de Hanging Tree desapareceu na poeira. Recostou-se, enfim, no assento fechou 
os olhos, surpresa com a ameaa de lgrimas.
    Ento, a verdade levara Wade para longo. No deveria chorar, disse a si mesma. No haveria lgrimas derramadas por esse homem, qualquer que fosse seu nome. Nem 
agora, nem nunca. Ele estava fora de sua vida. Definitivamente.
    
    - Seja bem-vinda, Jade. Senti muito a sua falta.
    - E eu, a sua, tia Lily.
    A mulher loira, de trinta e oito anos e formas curvilneas, realadas por um vestido sofisticado, no era realmente uma parenta sua. O ttulo era honorrio. 
Lily Austin fora a assistente da mais alta confiana de Anh Lin. Fora a ela que Jade recorrera quando sua me havia morrido. E fora Lily tambm que prometera manter 
o Drago Dourado funcionando normalmente quando ela partira apressada para o Texas com a notcia da morte de seu pai.
    Quando Jade lhe escrevera uma carta longa, declarando que queria permanecer no Texas para conhecer sua nova famlia, Lily compreendera. Prontificara-se a esperar 
quanto fosse necessrio at que ela decidisse qual ser o passo seguinte em sua vida.
    A porta principal foi fechada por um gigante oriental cujo corpo ondulava com msculos torneados durante anos de trabalho nas docas de San Francisco. O forte 
Lee Yian fora escolhido pelo prprio Joseph Jewel para proteger as mulheres do estabelecimento de Ahn Lin. Sua lealdade a Jade era inquestionvel.
    Ao fechar a porta, ele cruzou os braos, permanecendo ali enquanto duas criadas comeavam a desfazer as malas. Jade caminhou, inquieta, pelos luxuosos cmodos 
que haviam sido seu lar durante toda a vida. No precisava falar sobre a saudade de casa. Seu prolongado silncio, interrompido apenas por um suspiro ocasional, 
dizia tudo.
    Correu a mo com gentileza pelo delicado papel de parede, a elegante roupa de cama bordada, as pesadas cortinas de veludo. Abrindo uma janela, respirou fundo, 
inundando os pulmes com aquelas fragrncias que eram exclusivas de San Francisco. Aqueles sons e vistas familiares sempre a tocariam de uma maneira especial. A 
chuva fina que j era parte da cidade. O cheiro revigorante do oceano carregado pela brisa mida. As ruas lotadas com carros de mo, carruagens, tlburis e uma variedade 
de pessoas de todos os cantos do mundo.
    - Talvez voc queira descansar. Podemos conversar mais tarde.
    Jade pareceu momentaneamente confusa, como surpresa pela presena das mulheres ali. Sua mente rodopiava com as lembranas.
    - Sim, por favor. Foi uma longa jornada, e eu estou fatigada.
    Lily bateu palmas. De imediato, as criadas se aproximaram, cada uma com os olhos baixos, a cabea inclinada. As cobertas da cama foram afastadas; a segunda criada 
ajudava Jade a se despir. Nua, ela deslizou por entre os lenis acetinados e fragrantes. Quando a porta foi fechada e se viu sozinha, retornou  sua infncia, mergulhada 
em lembranas.
    Deitada em sua cama, Jade prestava ateno aos sons que se filtravam pelas paredes. Durante os meses anteriores, aprendera a se adaptar aos sons caractersticos 
da vida numa fazenda de gado. Agora, enquanto anoitecia, ouvia a msica da cidade. A msica que a acalentara para dormir desde que nascera, ali em San Francisco. 
Navios iam atracando na baa, avisando as demais embarcaes de sua presena. Nas ruas, passavam carruagens. No andar de baixo, as notas de um violino, altas e puras, 
produziam um suave fundo para o tilintar dos copos, o murmrio grave das vozes masculinas e um ocasional riso feminino.
    A porta abriu-se suavemente. A luz de um candeeiro aproximou-se, iluminando o quarto. Jade sentou-se na cama e observou tia Lily se adiantando at pousar o candeeiro 
no criado-mudo.
    - Gostaria de um banho? - perguntou-lhe
    - Sim, por favor.
    Lily bateu palmas e algumas criadas apareceram, carregando uma banheira. Vrias outras seguiram-nas, munidas de baldes de gua fervente. Logo o banho fora preparado 
diante de uma lareira acolhedora. Com um suspiro de contentamento, Jade entrou na gua. Seus longos cabelos foram lavados e envoltos numa toalha aquecida. Seu corpo 
foi banhado com leos e perfumes. Quando, enfim, saiu da banheira, sentia-se revigorada.
    Uma criada aproximou-se segurando vrios vestidos. Jade escolheu um de seus favoritos, uma tnica longa de seda verde. Ao pescoo, usava uma nica jia, o cordo 
de ouro com as pedras nix e jade. A cada vez que o usava, sentia a presena de seu pai a seu lado.
    Por um momento, segurou-o com fora na mo. Ainda sinto voc comigo, honorvel lugar onde me deu isto de presente, mais do que nunca.
    Sacudiu a cabea, forou-se a voltar ao presente. Foi conduzida  penteadeira, onde seu cabelo foi escovado e preso parcialmente com pentes de pedrarias.
    Estudou seu reflexo no espelho. No havia mais sinal da jovem que chegara cansada e empoeirada da viagem. Numa mera questo de horas, transformara-se na mulher 
que fora educada  imagem de sua me para agradar, como anfitri, o gosto refinado dos homens que freqentavam o Drago Dourado.
    - Tia Lily, sinto-me como se fosse uma nova mulher.
    - De fato, voc se parece com a Jade que eu me recordo. Venha. Desceremos para jantar. E voc poder me contar tudo o que aconteceu desde que partiu. Quero ouvir 
especialmente sobre a casa que pertence a seu pai.
    Ao descer as imponentes escadarias, Jade ficou atenta s lnguas estrangeiras, aos muitos e estranhos dialetos. Ao entrar na sala de jantar formal, saudou os 
homens em seus prprios idiomas, conversando facialmente em francs, espanhol, italiano, alemo. Enquanto se adiantava pelo luxuoso ambiente, os olhares de admirao 
iam-na acompanhando.
    Lily conduziu-a numa mesa retirada, que fora arrumada com cristais e a melhor porcelana chinesa. Quando se sentaram, mais uma vez Jade se lembrou de outra ocasio. 
Se perceber, olhou ao redor.
    - Est esperando algum?
    Ela sentiu as faces corando. Para encobrir seu constrangimento, disse:
    - No. Acontece apenas que isto tudo  to novo e, ao mesmo tempo, to familiar. Vou sentir falta daqui.
    - Voc fala como se pretendesse partir.
    Jade tomou as mos de Lily entre as suas.
    -  pretendo. Oua, eu cheguei a uma dolorosa deciso. Meu lar agora  no Texas. Eu voltei para vender o Drago Dourado.
    Pde ver o choque e o horror que suas palavras causaram. Lily arregalou os olhos. Seus lbios comearam a tremer e mordeu o inferior, enquanto se esforava para 
no se descontrolar.
    - No pode est falando srio. O que acontecer com todos ns?
    - Eu... estava esperando que voc pudesse voltar comigo. J comecei a reproduzir o Drago Dourado no meu novo lar.
    A loira soltou um riso incrdulo.
    - Quer que eu v viver no Texas? Na cidadezinha poeirenta de... Como  mesmo o nome? Hanging Tree?
    Ouvir aquilo dos lbios de Lily fazia toda a situao parecer to impossvel... E ainda assim, at esse momento, Jade realmente acreditara que poderia ter xito 
em seu sonho.
    Bebericando a taa de vinho suave que lhes foi servido, escolheu suas prximas palavras com cuidado.
    - Como j sabe, eu encontrei uma famlia no Texas. Irms. - Ao longo do jantar, foi descrevendo as trs mulheres com quem agora partilhava de laos indestrutveis. 
- Esmeralda e Prola se casaram e agora tm seus prprios lares. A fazenda de Esmeralda fica ao lado da nossa, e a casa de Prola situa-se, na verdade, nas nossas 
terras, prxima a um belo riacho. Rubi e eu ainda moramos na antiga casa da fazenda de nosso pai, mas conseguimos ver Prol e Esmeralda todos os dias. Ns nos tornamos 
uma famlia. E no quero me separar delas. Mas preciso ter um propsito na minha nova vida no Texas. E a nica coisa que sei  isto.
    Lily deixou os talhares de lado. Conseguira comer um pouco, mas um n parecia ter se formado em sua garganta, e o apetite se dissipara.
    - Entendo a sua necessidade de uma famlia - disse, com gentileza. - A cada vez que seu pai partia, eu podia ver a dor em seus olhos. Mas sempre achei que ns 
fssemos a sua famlia. Todos ns aqui, que temos trabalhado no Drago Dourado.
    - Sabe quanto gosto de todos e, especialmente, de voc. - O olhar de Jade estava angustiado. - Voc sempre foi uma parte importante de minha vida. Quero que 
continue sendo. Mas Esmeralda, Prola e Rubi so as filhas de meu pai. Acabamos de nos conhecer. No posso suportar a idia de nos separarmos. H tanta coisa que 
podem me contar sobre a vida de meu pai quando no estava comigo.
    Lily estudou a jovem amiga. Com um sorriso triste, levantou-se.
    - Vou precisar de algum tempo para refletir a respeito. Enquanto isso, tenho trabalho a fazer. - Estendeu a mo. - Voc me acompanha?
    Jade assentiu.
    Logo, ambas se deslocavam pelo salo principal e salas anexas, parando ocasionalmente para conversar, ouvir, chamar um garom ou resolver com diplomacia algum 
pequeno contratempo.
    Deixando Lily conversando com um grupo de cavalheiros, Jade continuou circulando pelos refinados ambientes. Chegou, enfim, a sala privativa, onde, ficara sabendo, 
acontecia um jogo de pquer de altas apostas.
    Entrando na sala, fechou a porta atrs de si com suavidade. Sorriu para a jovem que estava sentada  cabeceira da mesa, conduzindo as apostas. O sorriso continuava 
no lugar ao correr os olhos pela meia dzia de homens  mesa.
    De repente, gelou. Sua respirao ficou em suspenso.
    Um homem todo vestido de preto ergueu o olhar. Tinha a barba crescida e as roupas continham a poeira da estrada. Mas no havia como confundir aqueles intensos 
olhos castanhos-claros que pareciam enxergar atravs dela. Nem a curva cnica daqueles lbios enquanto ele franziu o cenho antes de desviar a ateno s cartas, 
ignorando-a.
    Era Wade Weston. Mas no parecia o reverendo.
    Parecia-se muito mais, na verdade, com o misterioso pistoleiro de seu passado.
    
    
    Captulo 11
    
    Jade precisou respirar fundo algumas vezes num esforo para se recompor. Enfim, com as pernas ameaando fraquejas, adiantou-se mais at a mesa, cumprimentando 
alguns dos homens que conhecia.
    - Jade, minha cara - disse um dos cavalheiros. - Sentimos a sua falta. Ouvir dizer que voc esteve no Texas. Minhas condolncias pela morte do seu pai.
    - Obrigado, senado Hammonde.  bom estar de volta a San Francisco.
    - Senhores - comeou o senador, dirigindo-se aos demais  mesa - permitam-me apresentar-lhes a srta. Jade Jewel. Esta adorvel dama  a proprietria do Drago 
Dourado.Enquanto todos comeavam a se levantar, ele ergueu a mo graciosamente, detendo-os.
    - Por favor. No quero interromper o jogo de vocs.
    - mas essa  a mais agradvel das interrupes, minha cara. - O senador indicou-lhe os jogadores que no conhecia, apresentando-os. Ela conseguiu sorrir e menear 
a cabea nos momentos apropriados. Embora parecesse calma e afvel, sua mente estava num turbilho.
    - E este  um dos melhores jogadores que j tive a sorte de enfrentar - concluiu o senador, com um sorriso satisfeito. - Apresento-lhe Nevada.
    - Srta. Jewel. - Wade meneou-lhe a cabea de leve e continuou fitando-a nos olhos.
    Ela no podia decifrar aquele olhar. Estava frio e imperturbvel como se a sua presena no o afetasse em nada.
    Na verdade, ele estava igualmente perplexo com o reencontro. Da ltima vez que a vira, Jade estivera cavalgando em direo a casa da fazenda. No tivera nenhuma 
razo para achar que iria partir do Texas. Sentiu uma sbita onda de raiva. O qu, afinal, ela estava fazendo ali em San Francisco? E por que teria de ser agora? 
Com tremendo esforo, conseguiu ocultar sua exasperao.
    - Gostaria de me acompanhar num licor mais tarde minha cara? - perguntou-lhe o senador.
    - Claro. Obrigada. Lily me avisar quando vocs estiverem terminando aqui. - Aos demais, Jade acrescentou: - Desejo boa sorte a todos, cavalheiros.
    Virou-se, ento, em direo  porta, obrigando-se a caminhar devagar, embora sua primeira inclinao tivesse sido a de sair dali correndo. Pde sentir o olhar 
de Wade em suas costas at que a porta se fechou.
    Uma vez que se viu na segurana de seu escritrio, e longe de olhos perscrutadores, sentou-se atrs de sua mesa com um suspiro.
    Ento, fora por isso que Wade Weston deixara Hanging Tree to abruptamente. Rumara para San Francisco, movido por um sbito desejo de retomar velhos hbitos. 
Mas no era mais o pregador de uma cidadezinha. Era o jogador, Nevada.
    No restava nada do homem gentil que conhecera no Texas. Dos revlveres  cinta ao seu corpo de usque  mesa, estava deixando claro que era o misterioso pistoleiro.
    O que deveria fazer? Perguntou-se, aflita. Como enfrentaria os dias e semanas que estavam por vir, sabendo que o homem que povoara seus sonhos estava ali em 
pessoa? E que os antigos sonhos tinham-se tornado um grande pesado?
    
    O piano estava silencioso. Nos sales do Drago Dourado, as vozes tinham diminudo. Durante as altas horas da madrugada, o estabelecimento ficara quieto, exceto 
por um riso ocasional ou um estalido da escadaria.
    O senador Hammond, tendo perdido uma fortuna considervel, fora conversar com Jade. Amigos de longa data, ambos tinham partilhado de algumas lembranas sobre 
os pais dela, bebericando um licor antes que ele tivesse sado. O jogo de pquer terminara, os jogadores tendo se dispersado. Alguns tinham ido para casa; outros 
buscado demais prazeres. E as mulheres que no estavam mais ocupadas tinham ido dormir.
    Apesar de no estar conseguindo se concentrar, Jade insistira em continuar examinando uma papelada no escritrio. Era, ao menos, uma tentativa de se distrair 
das preocupaes que a dominavam.
    A porta do escritrio se abriu de repente. Quando ergueu o olhar, ficou surpresa em depara com o homem que estivera povoando seus pensamentos. Ele adiantou-se 
calmamente pela sala parando diante da mesa.
    Continuava to misterioso e bonito quanto ela se lembrava. E suas reaes eram as mesmas: o corao disparava, a palma das mos ficavam midas, garganta, seca.
    Mas em vez de prazer em v-lo, sentia agora um misto de medo e raiva. Medo porque sabia quanto se sentia atrada por ele... uma atrao que estava determinada 
a combater. E raiva por ser capaz de sentir tais coisas por um farsante e mentiroso.
    Das duas emoes, optou pela raiva, sabendo que seria mais fcil de lidar no momento.
    - Um cavalheiro sempre bate antes de entrar num recinto de uma dama.
    - Tenho certeza que sim. - Ele sentou-se calmamente na beira da mesa, um familiar anel de ouro e mbar reluzindo em seu dedo. Com um sorriso, acrescentou: - 
Mas ningum nunca acusou Nevada de ser um cavalheiro.
    - O que est fazendo aqui em San Francisco?
    - Eu poderia perguntar a mesma coisa.
    - Tenho todo o direito de estar aqui. J se esqueceu de que sou dona deste lugar?
    - Eu no me esqueci de nada. - Nevada lanou-lhe um olhar significativo e tornou a sorrir ao v-la enrubescendo. - e qualquer modo, meu dinheiro ajudou a construir 
Drago Dourado, como o de minha gente.
    - Iss no lhe d o direito de ir invadindo o meu escritrio particular.
    - Sabe, eu nunca precisei de permisso para fazer o que quis.
    Jade se levantou, a postura rgida, o queixo erguido.
    - Faa o que quiser em algum outro lugar. No o quero aqui no Drago Dourado.
    - Devo lembr-la, srta. Jewel, que eu trouxe bons lucros para a sua casa nesta noite. A fatia do Drago Dourado naquele jogo foi de quase dez mil dlares.
    Jade sabia que era verdade. Lily comentara, eufrica sobre a sbita afluncia de jogadores quando Nevada aparecera.
    Mas, em vez de lhe dar razo, limitou-se a fuzil-lo com o olhar.
    - E eu devo estar grata?
    - Espero que sim. E se quiser demonstrar a sua gratido de alguma maneira... especial, no vai me ouvir objetando. - O brilho malicioso naqueles olhos castanho-claros 
a fez corar de imediato.
    O homem parecia estar apreciando seu papel de jogador e pistoleiro. Ou era essa a verdadeira faceta, e o pregador uma mera encenao?
    - Como pode ser to desprezvel?
    - Se est tentando me insultar, desista. Estou de timo humor nesta noite. Consegui uma soma consideravelmente maior do que a do Drago Dourado, srta. Jewel. 
Sou um jogador de muita sorte.
    - Ouvi dizer. - Jade contornou a mesa, disposta a encerrar aquela conversa. Mas ele segurou-a pelo pulso, impedindo-a de se afastar.
    - Vai a algum lugar? - Descera da beirada da mesa e a puxava para to perto de si que ela podia sentir-lhe o hlito quente contra o rosto.
    - Est tarde. Vou me deitar. Sugiro que faa o mesmo.
    - Seria um prazer. No seu quarto, ou no meu?
    - Eu durmo sozinha.
    - Eu ficaria contente em poder mudar isso.
    - Solte-me, sim?
    - E se eu no quiser?
    - Se no soltar meu brao agora mesmo, vou ser obrigado a chamar Lee Yin.
    Nevada sabia que o gigante no hesitaria em quebrar-lhe os ossos como se fossem gravetos. O brutamontes j expulsara mais de um pistoleiro inconveniente do Drago 
Dourado. E sua lealdade a Jade era indiscutvel.
    - Eu no faria isso se fosse voc.
    - E por que no?
    - No quer que tenha o sangue de um homem inocente na minha conscincia, no ?
    - Eu no sabia que o jogador Nevada tinha conscincia.
    - E no tem.
    Jade esforou-se para manter o seu tom frio, duro, a fim de ocultar a dor que sentia.
    - O que aconteceu com o reverendo Wade Weston, o pregador de Hanging Tree?
    - No existe mais - respondeu ele, zangado. - No tem mais razo para isso.
    Jade sentiu a fora daquela mo em seu pulso e foi tomada por certa apreenso.
    - Lamento muito ouvir isso. Eu gostava dele. Ao menos, mais do que o jogador Nevada.
    -  mesmo? Pensei que estivesse aliviada. J se esqueceu de que, em Hanging Tree, o reverendo Weston teria que ficar ao lado das pessoas que se opusessem a voc?
    - Ao menos, voc estaria lutando por alguma causa. Pelo que posso ver, o jogador Nevada no se importa com nada nem ningum. Exceto com seus prprios prazeres 
egostas.
    - Falando nisso... - Ele abriu-lhe um sorriso sugestivo que a fez sentir o corao disparando. Como era possvel que o sorriso perigoso de um homem fosse capaz 
de exercer tanto poder sobre suas emoes?
    Usou o que esperou ser seu tom mais autoritrio.
    - Quero que saia. Agora.
    - No, no quer. O que realmente deseja  o mesmo que eu. Uma chance para terminarmos isto que h entre ns.
    Jade ansiava por negar. Mas no podia. Era a pura verdade, embora a envergonhasse profundamente.
    - No pode haver nada entre ns. Jamais.
    - Ento, no vai se importar se eu lhe der um ltimo beijo. Em nome dos velhos tempos.
    O roar daqueles lbios clidos nos seus foi to sensual que Jade no pde se mexer. Sua mo, posicionadas para afast-lo de si, permaneceram imveis. O corpo 
ficou tenso e, ento, pareceu derreter com o calor que se irradiava do de Nevada. O beijo continuava to suave, to terno que tocava seu corao a fundo. Era tudo 
o que se lembrava daquela primeira vez, quando tinha dezesseis anos e ele no passava de um estranho misterioso.
    Enfim, ele ergueu a cabea e fitou-a nos olhos. Olhos escuros e intensos que lhe diziam que Jade ficara igualmente afetada pelo que haviam acabado de partilhar.
    Em seguida, como por consentimento mtuo, os lbios de ambos se encontraram num beijo to sfrego, to faminto que ameaou enlouquec-los com as chamas da paixo.
    Sua mente rodopiando, Jade abraou-o com fora, deixando que a guiasse pelo escritrio at encost-la numa parede. Ele continuava beijando-a com arrebatamento, 
os lbios experientes estimulando os seus, a lngua em sua ousada invaso, o corpo moldando-se ao dela.
    No havia mais ternura. Agora, havia apenas fogo, paixo e um mpeto semelhante  fria de uma tempestade. A mo de Nevada acariciavam, ansiosas por tocar, por 
desvendar. E os lbios devoravam, querendo mais, exigindo.
    E Jade correspondia. Embora nunca tivesse experimentado tamanho desejo como o que a consumia, sucumbiu sem poder oferecer a menor resistncia 
    Ele sabia que estava ido depressa demais, mas no havia como parar. No minuto em que provara daqueles doces lbios, vira-se perdido. O desejo at ento contido 
alastrava-se por suas veias como lava incandescente, exigindo por se aplacado.
    Continuou beijando-a, ignorando a voz de alerta que tentava penetrar em sua mente. Jovem e inexperiente, ela no tinha armas para combat-lo. Sabia que estava 
se aproveitando de sua inocncia. E no fora dessa maneira que quisera que acontecesse. Mas estava alm dos limites da razo no momento. Movido por uma paixo que 
fugia do controle, podia apenas deix-la tomar seu curso natural.
    O corao de Jade pulsava com tanta violncia que reverberava em seus tmpanos. De repente, o som ficou mais alto e deu-se conta de que no era apenas seu corao. 
Algum estava batendo  porta.
    - Jade. - A porta de abriu. - Eu estive pensando em...
    O som da voz de Lily, Nevada ergueu a cabea bruscamente.
    A mulher ficou surpresa diante daquela cena, observando especialmente o forte rubor nas faces de Jade e as emoes indecifrveis que passavam pelos olhos do 
jogador. 
    - Perdoe-me. Eu no fazia idia. - Ela deu um passo atrs. - Achei que voc estivesse sozinha.
    Jade recobrou o flego e se desvencilhou dos braos que a envolviam. A cada passo que se afastava daquele homem, sua sanidade ia retornando. E com isso, a sua 
firme determinao, que apenas fora temporariamente esquecida.
    Vendo que Lily estava prestes a se retirar, disse-lhe:
    - No precisa ir. Nevada j estava de sada. No  mesmo? - Lanou-lhe um olhar faiscante, desafiando-o a argumentar. - O que queria, tia Lily?
    - Estou surpresa com voc, Nevada. Aquele que o enfrentaram num jogo de cartas consideram-no um homem honrado.
    - Aonde quer chegar? - Ele inda mal podia encontrara voz, tomado pelo turbilho de emoes.
    - No pde perceber que Jade  inocente?
    Nevada encontrou-lhe o olhar. Embora exasperado com sua interrupo, compreendeu de repente que Lily salvara de cometer um terrvel erro. Devia ter ficado enlouquecido. 
Quase fizera algo de que ele e Jade teriam se arrependido com o nascer do dia.
    - No vou me esquecer disso outra vez - murmurou.
    - Vou providenciar para que no esquea. Apenas por precauo, vou pedir a Lee Yin que fique guardando  sua porta. Tenha uma boa noite.
    Enquanto Lily descia a escada, ele seguiu pelo rumo ao quarto alugado. No tinha dvida de que se fizesse alguma tentativa de sair, seria obrigado a enfrentar 
a ira do gigante oriental.
    Ao menos por mais uma noite, Jade Jewel estaria a salvo.
    Perguntou-se se ela estaria sentindo to pssima quanto ele.
    
    
    Captulo12
    
    Lily inclinou-se para sussurrar no ouvido de Jade:
    -Nevada est de volta.
    Ela ergueu o olhar do grupo de cavalheiros com quem conversava a tempo de ver um par de ombros largos e musculosos desaparecendo at uma das salas de jogos.
    - Com essa, so sete noites seguidas - comentou. Ento, dando-se conta do que seu tom revelara, acrescentou seca: - Como se eu me importasse.
    Viu os lbios de Lily se curvando num sorriso, e isso s reforou sua deciso de ignor-lo.
    Nevada retornara a cada noite para se envolver em jogos de pquer de apostas altas, o que s vezes durava a noite inteira e parte da manh.
    As mulheres do Drago Dourado estavam encantadas com ele. E os homens deixavam claro que gostavam de sua companhia.
    Embora Jade no fizesse mais do que oferecer um ligeiro cumprimento, era inevitvel ficar consciente de sua presena. Mesmo nos ambientes apinhados, seu olhar 
era invariavelmente atrado para ele. No usava mais as roupas de um viajante. Agora, como os outros que freqentavam o suntuoso palcio de prazeres, usava roupas 
elegantes, sob medida, suas camisas brancas impecveis com abotoaduras de ouro. Os cabelos tinham sido cortados, o rosto estava sempre bem barbeado.
    Mesmo sem dirigir-lhe uma palavra, era como se pudesse toc-lo com o olhar.
    Agora, enquanto ela se adiantava pela sala de jogos, estava bastante ciente do brilho perigoso daqueles olhos que a acompanhavam sorrateiramente.
    Cumprimentou-o com a mesma reserva usada com os demais jogadores,  exceo do gentil senador Hammond, a quem dirigiu um sorriso afvel.
    - Jade - disse-lhe ele - creio que ainda no conhea Virgil Trent.
    - Sr. Trent. Seja bem-vindo ao Drago Dourado.
    - Bela acolhida. - O jogador, sentado  direita de Nevada, usava uma casaca formal com um colete de cetim. A pilha de fichas  sua frente ia diminuindo lentamente.
    Havia solicitado que seu copo de usque fosse trocado a todo instante. A cada vez que suas cartas se mostravam desfavorveis, esvaziava o copo de um gole s.
    Embora no parecesse ter mais de vinte anos, seus olhos eram frios e calculistas, os lbios apertados numa constante linha zangada.
    - Tive melhor sorte num saloon decadente em Deadwood - resmungou.
    - Ento, talvez prefira tent-la em algum outro jogo - sugeriu Jade.
    - Apenas se voc for o prmio. - Separando grande quantia de dinheiro  sua frente, Virgil olhou-a de alto a baixo. - Diga seu preo.
    Lee Yin comeou a se aproximar pela sala, pronto a defender a honra de Jade. Mas ela j contornava rapidamente a situao, dizendo num tom jovial:
    - Eu estava pensando em sugerir-lhe os dados, ou algum outro jogo.
    Ele alternou um olhar entre a dama e seu guarda-costas.
    - Meu jogo  pquer. Ou seja, quando os parceiros jogam limpo.
    - Est insinuando que ns trapaceamos? - Os olhos do senador faiscaram.
    Virgil deu de ombros calmamente.
    - Se a carapua servir...
    - Gostaria de mais vinho, senador Hammond? - perguntou Jade, num tom suave.
    O poltico respirou fundo e, ento, virou-se para fit-la. Notando-lhe o olhar suplicante, murmurou:
    - Sim. Obrigado, minha querida.
    O jogo, ento, prosseguiu, e o corpulento Lee Yin foi retomar seu lugar junto  porta.
    Nevada observou enquanto a prpria Jade servia mais vinho ao senador. Sua presena era uma distrao. Uma das mais agradveis, mas uma distrao assim mesmo. 
Tomara o cuidado de manter seu distanciamento, para que no tivesse mais chance de repetir aquele acidente trrido no escritrio. Depois que tivera tempo para refletir 
a respeito, compreendera que Lily estava com a razo. Jade era inocente. Embora tivesse sido educada para assumir os negcios da me e afirmasse saber tudo quanto 
a satisfazer as necessidades de um homem, no tinha experincia prpria nessas questes. Sabia apenas o que lhe fora transmitido pelos tutores.
    Fora tomado por um estranho contentamento ao saber de tal inexperincia. Por outro lado, porm, era algo perigoso para uma mulher na posio dela. Ainda que 
os homens que freqentavam o Drago Dourado seguissem as regras da casa e a respeitassem como a proprietria, havia aqueles que sempre iriam cobiar o que era proibido. 
Quanto mais se mantivesse inacessvel, mas a desejariam.
    Era franco ao ponto de admitir que era o primeiro da lista. Ele a queria. Sim, desde a primeira vez que a vira. No papel de reverendo Wade Weston, seu desejo 
fora uma tentao difcil de superar. Agora que estava mais uma vez na antiga pele do jogador Nevada, aquela mulher se tornara um fogo constante que percorria suas 
veias e exigia ser aplacado. Mas um fogo que tambm ameaava destruir a ambos e, portanto, tinha que ser contido a qualquer custo.
    No havia dvida de que lhe era necessrio um esforo sobre-humano. Especialmente em momentos como esse em que a proximidade dela era to desconcertante. Gostava 
de seu andar gracioso, da deliciosa e extica fragrncia que ficava no ar com sua passagem e especialmente do jeito como corava quando seus olhares se encontravam.
    Notava, contrariado, que, a seu lado, Virgil Trent tambm parecia no poder tirar os olhos de Jade, enquanto jogavam.
    De qualquer modo, esforava-se para manter sua concentrao nas cartas. Mas, apesar de ter vencido a maioria das mos que se seguiram, Nevada pareceu no sentir 
a menor satisfao com isso.
    - Bem, acho que esta foi a minha noite de vitria - disse aos demais jogadores, com um esboo de sorriso.
    - J a minha, foi a de perder. - Virgil Trent afastou a cadeira para trs bruscamente e deixou a mesa. Saiu daquela sala, elevando a voz para exigir que lhe 
servissem mais usque.
    Lily enviou uma jovem para atend-lo de imediato.
    - Minha noite tambm no foi das melhores. J contribu o bastante para o seu bolso hoje - disse o senador com um suspiro resignado. - No quero que me faa 
apostar as calas tambm. - Estendeu a mo para Nevada num cumprimento. Enquanto os demais jogadores se dispersavam, os dois homens deixaram a sala de jogos, parando 
diante da lareira no amplo salo principal. Jade aproximou-se com taas de conhaque.
    - Vejo que as cartas foram generosas com voc - comentou quando Nevada aceitou a taa. Suas mos se roaram, e ela ergueu o olhar deparando com aqueles penetrantes 
olhos castanho-claros.
    - Estou acostumado a ganhar em algumas vezes e a perder em outras - disse ele, dado os ombros.
    Jade virou-se para o senador para entregar-lhe outra taa.
    - Lamento, por outro lado, que as cartas no lhe tenham sido favorveis nesta noite.
    - No  a primeira vez, minha jovem. Nem ser a ltima. A sorte , por certo, imprevisvel. E nesta noite escolheu sorrir para meu amigo aqui. - Ele pousou a 
mo no ombro de Nevada e os dois trocaram um sorriso cordial.
    - Jade, voc ficaria e nos acompanharia num drinque? - convidou o senador.
    - Perdoe-me, mas o dever me chama. Talvez num outro momento.
    Quando ela se afastou, Nevada no se deu conta da maneira como seu olhar a acompanhou.
    A voz do senador a seu lado soou risonha:
    -  melhor tomar cuidado, meu rapaz. Se Lee Yin vir esse olhar, esganar voc sem a menor hesitao. Bem, no que eu culpe voc, claro - acrescentou o velho 
cavaleiro, com um sorriso. - Jade  uma rara beleza. Mas est estritamente fora do alcance.
    - Sim, j me disseram. - Despertando de suas reflexes, Nevada estendeu-lhe as mos. - Mais uma vez obrigado por sua participao no jogo. Espero v-lo amanh 
 noite.
    - Eu no perderia a chance de uma revanche por nada. Bem, agora tenho outros prazeres em mente - acrescentou o senador, adiantando-se pelo salo  procura de 
Lily.
    Sorvendo mais um drinque, Nevada olhava sombriamente para as chamas na lareira. Embora a hora fosse avanada e estivesse cansado, simplesmente no conseguia 
se retirar. Podia ouvir a voz melodiosa de Jade ecoando de outra parte do salo, conversando em francs com um grupo de cavalheiros. A um dado momento, ouviu-lhe 
o riso, suave, cristalino. Invariavelmente, seu olhar foi atrado em sua direo, embevecendo-se com a perfeio daquela mulher.
    Apertou os lbios, zangado com as prprias reaes. Sentia-se pssimo, desorientado. Talvez fosse melhor tomar uma sria deciso. Era tempo de partir dali, antes 
que essa verdadeira obsesso por Jade Jewel fugisse do controle.
    Quando estava prestes a se afastar da lareira e se adiantar at a sada, avistou Virgil Trent caminhando pelo salo apinhado na direo de Jade. Parando a seu 
lado, abraou-a pelos ombros e puxou-a para si, murmurando-lhe algo ao ouvido. Com uma expresso de repulsa, ela tentou afast-lo. Mas o homem soltou um riso de 
escrnio, segurando-a com mais fora, o que a fez soltar um grito.
    De imediato, Lee Yin comeou a avanar pelo salo. No momento em que se aproximava de Virgil, fazendo meno de apanh-lo, ouviu-se um disparo e o gigante asitico 
caiu para trs, atingido.
    Jade tornou a gritar, horrorizada, at que Virgil tampou-lhe a boca, silenciando-a.
    A maioria dos homens do salo portava armas. Mas enquanto cada um levava a mo ao coldre, Virgil apontou sua arma para a tmpora dela.
    - Levantem as mos para o alto onde eu possa v-las - ordenou. - Qualquer um que sacar sua arma ter o sangue desta dama nas prprias mos.
    Como os homens no obedecessem com rapidez o bastante, ele apontou para um lustre de cristal e atirou. Estilhaos de vidro caram sobre as pessoas, enquanto 
as mulheres gritavam, apavoradas, e os homens erguiam as mos no ar.
    - Todos no cho! - gritou Virgil.
    Soluando, as mulheres deitaram-se no cho, todas cobrindo a cabea para se proteger. Diversos improprios soaram pelo salo, enquanto os homens se colocaram 
de joelhos. Um sbito silncio tomou conta do lugar.
    - Assim  melhor - disse Virgil. - Agora, fiquem onde esto at que eu saia. Estou com pressa para levar a dama daqui.
    - Para onde a est levando? - indagou Lily, preocupada.
    - Vamos para algum lugar onde possamos ficar sozinhos. - Ele soltou uma gargalhada sonora e zombeteira que acabou acentuando ainda mais o nervosismo coletivo. 
Olhou ao redor em triunfo. - No fiquem to cabisbaixos senhoras e senhores. Afinal, esta  uma casa de prazeres. S que no quero prostitutas baratas. Prefiro a 
prpria dona do estabelecimento. E vou me divertir sem ter que pagar.
    -  onde voc se engana. - A voz de Nevada soou calma e inalterada ao surgir de uma passagem em arco diretamente em frente ao malfeitor, bloqueando-lhe a sada. 
Apontava-lhe a arma. - Este incidente vai acabar lhe custando muito, Trent.
    Por um momento, Virgil geleou, vendo a arma apontada para seu peito. Mas foi a expresso nos olhos de Nevada que o fez suar frio. Era o olhar letal de um pistoleiro 
experiente.
    Ele segurou Jade com mais fora de encontro a si, o revlver firme em sua tmpora.
    - Talvez no tenha ouvido. Eu disse que iria mat-la se algum sacasse uma arma.
    - Oh, eu ouvi, sim. Mas cheguei  concluso de que est blefando. - Nevada deu um passo  frente. Obrigou-se a no olhar para Jade. Se o fizesse, estaria lembrando 
a si mesmo de tudo o que arriscava no momento. No podia vacilar agora. Assim, olhou diretamente para o bandido, at que lhe identificou o medo.
    Era tudo o que precisava.
    - Sabe, Trent - prossegui calmamente - minha pacincia esgotou. Ou voc larga sua arma e liberta a dama, ou nunca mais ver outro dia amanhecer. Nem dormir 
mais com uma mulher.
    - Est blefando. - Gotculas de suor banhavam a fronte de Virgil.
    - H uma maneira de descobrir.
    O malfeitor olhou ao redor, procurando um meio de escapar. Mas o homem  sua frente bloqueava-lhe a nica sada. Sua voz elevou-se, soando um tanto histrica.
    - Se eu no puder t-la, ningum mais a ter.
    O que aconteceu em seguida deixou a todos boquiabertos. Virgil comeou a apertar o gatilho, alertando Nevada para o fato de que estava preparado para cumprir 
a ameaa. Numa frao de segundo, antes que pudesse atirar, Nevada estendeu a mo, libertando Jade e atirando-a no cho, fora do alcance da arma. Houve uma tremenda 
exploso sonora enquanto ambos os revlveres dispararam simultaneamente.
    Pelo que pareceu uma eternidade, os dois homens se entreolharam, seus rostos retorcidos em mscaras de fria. Ento, a arma caiu da mo relaxada de Virgil. Seus 
olhos se arregalaram em aturdimento enquanto caa de joelhos e, ento, de bruos, inerte.
    Um caos se formou no salo quando a multido se levantou, avanando. Mas, de repente, todos pararam, enquanto Nevada se virava. Sangue se esvaa de seu peito, 
banhando-lhe a frente da camisa. A mo que segurava a arma escorregou ao longo do corpo. Seu rosto estava lvido, os traos contorcidos pela dor.
    - Como eu disse - conseguiu murmurar entre dentes - esta  minha noite de vitria.
    Era evidente que estava gravemente ferido. Somente um esforo sobre-humano ainda o mantinha em p.
    
    
    Captulo 13
    
    - Ajude-me! - gritou Jade, aflita, segurando Nevada pelo brao antes que casse ao cho.
    Vrios homens aproximaram-se depressa e o levaram at um sof.
    Fraco demais para protestar, ele cerrou os dentes, tomado pela dor lancinante. Fechou os olhos, enquanto sentia seu sangue vital se esvaindo lentamente.
    - Deixe-me v-lo. Sou mdico - disse uma voz por perto.
    Embora Nevada pudesse sentir mos examinando-o e outra vozes distantes penetrando em sua conscincia, no parecia conseguir manter-se lcido o bastante para 
abrir os olhos.
    - No se importe comigo - sussurrou. - Cuide de Lee Yin.
    - O oriental vai viver - garantiu-lhe a mesma voz firme. - Foi apenas um ferimento superficial. O homem em quem voc atirou, no entanto, est morto. E voc ir 
se juntar a ele, meu amigo, se no lutar por sua vida.
    Nevada fora carregado para os aposentos de Jade. A multido havia sido dispersada. Apenas ela, Lily e o mdico haviam permanecido.
    A luz bruxuleante dos candeeiros projetava sombras assustadoras nas paredes e no teto, enquanto as mos do mdico se moviam numa intrincada dana, examinando, 
extraindo, costurando, limpando.
    Podiam ter se passado horas, ou meros minutos. Jade perdera completamente a noo do tempo. Sabia apenas que esse homem no hesitara em pr a prpria vida em 
risco para salvar a sua.
    Enquanto auxiliava calmamente o mdico, passando-lhe os instrumentos, rasgando tiras de linho, sua mente estava um turbilho. Fora forada a aceitara a morte 
de seus adorados pais. Teria agora de enfrentar a do nico homem a quem j amara?
    Amava-o... Estava to aturdida com tal pensamento que o ar quase chegava a lhe faltar. Como podia amar um pistoleiro? Especialmente um que mentira tanto para 
ela?
    Ainda assim, por mais que quisesse negar, sabia que era verdade. Embora fosse algo totalmente ilgico, amava esse homem que estava entre a vida e a morte. Amava-o 
como jamais amaria nenhum outro. Ele vencera todas as suas barreiras. Penetrara o escudo em torno de seu corao e cativara-o. E apesar de ter lutado para ignor-lo, 
para nunca mais v-lo, nada pudera resguard-la.
    A voz de Lily despertou-a dos pensamentos. Dirigia ao mdico a pergunta estar no corao da amiga:
    - Ele vai... viver, doutor?
    - Isso vai depender de um poder maior do que o meu - respondeu ele, num tom casual. - Fiz tudo o que pude. - Virou-se para Jade. - Recomendo que pea a algum 
que fique ao lado dele durante a noite. - Comeou a guardar os instrumentos de volta a valise. - O clorofrmio ainda o manter imvel por mais algum tempo. Mas, 
depois disso, a dor ir acord-lo.
    - H algo que eu possa lhe dar para a dor? 
    O mdico entregou-lhe um pequeno pacote.
    - Este preparado em p deve ajudar um pouco. Mas receio no haver meio de atenuar muito o sofrimento. Isto , se ele sobreviver  noite. - Notando-lhe o cenho 
franzido em preocupao, tocou-lhe o ombro com gentileza, - Ele tem a juventude e a fora do seu lado. Isso deve contar algo. E se a vontade de viver for grande 
o bastante... Bem, as prximas vinte e quatro horas vo lhe dizer.
    Lily acompanhou-o at a porta. Quando voltou, Jade estava sentada numa cadeira ao lado da cama, seu olhar fixo no homem inconsciente sob as cobertas, as mo 
segurando a dele com firmeza.
    - Voc precisa descansar. Vou pedir a uma das mulheres que fique com Nevada.
    - No. Eu no poderia mesmo dormir. - Ela ergueu os olhos repletos de angstia para fit-la. - Voc no v? Ele  minha responsabilidade. Se no fosse por mim, 
no estaria deitado a, lutando pela prpria vida.
    - Voc acabar adoecendo desse jeito. Ao menos, tire essas roupas sujas de sangue e descanse um pouco.
    - Deixe-me aqui, sim? Eu chamarei voc se precisar.
    Lily foi obrigada a admitir a derrota. Vira aquela expresso de teimosia em Jade desde pequena. Estava decidida. No haveria nada que a fizesse mudar de idia.
    
    Essa era a pior parte, pensou Jade: ficar aguardando, nutrindo esperanas, rezando. As longas horas da noite pareciam interminveis.
    A cada vez que o peito de Nevada se expandia e, ento abaixava, via-se suplicando aos cus para que ele respirasse mais uma vez, para que tivesse mais um momento 
de vida. s vezes, a respirao ficava to fraca que parecia ter cessado. Em outras, tornava-se ofegante, como se ele tivesse subindo ao topo de uma montanha.
    Seu rosto estava plido e inexpressivo, no dando a menor indicao de que estivesse ciente de sua presena. Havia mergulhado em algum outro mundo, para alm 
de seu alcance.
    - Oh, Nevada - murmurou ela. - Voc foi to corajoso. Por favor, no desista agora. Fique comigo. - Lgrimas inundaram-lhe os olhos, rolando, copiosas, por suas 
faces, mas ignorou-as ao se inclinar para sussurrar-lhe ao ouvido. - No me deixe. Eu no suportaria perder voc tambm. Preciso de voc aqui comigo.
    Teve a impresso de sentir-lhe a mo fria movendo-se entre as suas por um instante. De imediato, ergueu-se para fit-lo no rosto. Mas o semblante no havia se 
alterado. Mas o corao continuava batendo. E a respirao, ainda que fraca, era uma indicao de que continuava lutando para viver.
    - No deixarei que se v - disse, obstinada, entrelaando as mos de ambos. - No sem lutar por voc.
    
    A cabea de Jade pendeu para a frente, fazendo-a despertar abruptamente. Massageando o pescoo dolorido, endireitou-se na cadeira.
    Algum colocara um cobertor em torno de seus ombros. A lenha fora renovada na lareira, o fogo crepitando vividamente.
    Seu olhar foi atrado de imediato para o homem deitado na cama. Foi tomada por uma repentina onda de pnico. Ele estava to imvel...
    Inclinando-se para a frente, tocou-lhe o pescoo. Havia pulsao. Estava fraca, quase imperceptvel, mas ao menos Nevada vivia.
    Pegando-lhe a mo, levou-a aos lbios.
    - O mdico se enganou - murmurou, desolada. - Disse que a dor iria acordar voc. Em vez disso, sinto que est partindo. Por que no pode me ouvir?
    Fechou os olhos com fora, tentando lidar com a profunda dor no corao. Lgrimas quentes escorreram pelos cantos de seus olhos.
    De repente, sentiu o toque de um dedo, to gentil quanto o de uma pluma, Abriu os olhos depressa, deparando com os olhos mbar dele.
    - Por que... voc... est... chorando? - Nevada no podia crer no quanto estava sendo difcil falar. Cada simples palavra era como uma punhalada em seu peito.
    - Nevada... Oh, voc est vivo!
    Uma onda de dor atingiu-o com sbito impacto, e ele teve que lutar contra a sensao de vertigem. Mas, apesar da dor, sentia o calor dos braos dela envolvendo-o 
e a doura de seu hlito ao sussurrar-lhe:
    - Eu estava chorando por sua causa. Eu achei que iria perd-lo. Mas voc no est morto. Oh! - Com um suspiro, beijou-lhe os lbios, as faces, a fronte. - Voc 
no est morto - repetiu, emocionada.
    - No... no estou. - No se a dor dele fosse alguma indicao. Ainda assim, achou que, nesse momento, poderia suportar qualquer coisa apenas para t-la a seu 
lado, continuando a abra-lo e beij-lo.
    - Eu sabia que voc voltaria para mim. - Jade no podia reprimir as lgrimas. Fluam livremente enquanto o beijava nos lbios.
    Nevada soltou um riso trmulo. Conteve a respirao ao ser tomado por uma terrvel onda de dor.
    - O que foi? - perguntou ela, aflita, notando-lhe a palidez, a agonia que no podia esconder.
    Imediatamente, abriu o pequeno pacote deixado pelo doutor, adicionando o preparado medicina a um copo de gua. Segurando-lhe a cabea, ajudou-o a beber.
    - Tem que beber tudo - insistiu, quando ele tentou afastar o lquido amargo. - O mdico disse que isto ajudar a aliviar a dor.
    Depois que o copo foi esvaziado, tornou a deitar-lhe a cabea no travesseiro com gentileza.
    - S mais um favor - sussurrou Nevada.
    - Pea qualquer coisa.
    - Voc poderia... me beijar?
    Jade tomou-lhe o rosto entre as mos com ternura e roou-lhe com os seus num beijo meigo, suave.
    - Diga-me que... eu no estou sonhando.
    - No est. Eu sou real. E meu beijo tambm .
    Ela ergueu a mo para afastar as lagrimas dos olhos. Quando tornou a fit-lo, viu que ele mergulhara num sono balsmico.
    
    Foi a dor que o despertou. Era uma dor aguda que se originava em seu peito e se expandia por todo o corpo.
    Fora rpido o bastante para ter salvo Jade? Ou, enfim, jogara e perdera?
    Houvera um tempo em sua vida quando fora totalmente destemido. Mas isso fora antes de t-la conhecido. Antes dela, no tivera razo para se importar. Sua vida 
no tivera sentido, nem propsito. Embora ela no soubesse, aquele encontro ao caso, trs anos antes, mudara-o para sempre.
    Quem teria pensado que Jade voltaria a surgir em sua vida, apenas para mud-lo mais uma vez?
    Cerrou os dentes tentando suportar nova onda de dor. Quando passou, retomou os pensamentos. O fato de ter visto outro homem colocando as mos dela, ameaando 
macul-la, feri-la, causara-lhe terror absoluto. Fora tomado por uma fria cega. E abordara o bandido sem nenhum plano, nenhuma estratgia exceto o anseio de salv-la. 
Mas teria conseguido?
    Achou lembrar-se de t-la visto num dos momentos de pior agonia. E de ter recebido seus beijos. Ela estivera chorando, oferecendo-lhe consolo. Mas talvez tivesse 
sido apenas um sonho. Afinal, Jade Jewel no era do tipo que se desmanchava em prantos. E nem concedia seus beijos facilmente.
    Abriu os olhos, at mesmo aquele pequeno esforo lhe custando. Quando os acostumou  luz fraca, percebeu que estava numa cama. Era uma cama macia, com colcho 
de plumas de ganso e lenis de cetim. Acima, havia um dossel adornado com delicadas rendas; o ar era fragrante com perfume e incenso.
    Virou a cabea ligeiramente para observar a lareira do outro lado do quarto. Um fogo brando crepitava, as chamas lanando sombras repousantes nas paredes.
    Os aposentos eram luxuosos, adornados com veludos, rendas e sedas. Seda... A seda sempre o lembraria de Jade. Ela era como uma de suas sensuais tnicas de muitas 
cores. Tmida e doce. Ousada e obstinada. Uma mulher de tantas contradies estimulantes...
    Um leve som do outro lado da cama atraiu sua ateno. O que viu compensou toda a dor.
    Jade estava aninhada num sof ao lado da cama. Os cabelos sedosos espalhavam-se em torno de seu rosto adorvel. Observou o gentil ondular de seu peito com a 
respirao serena e regular e o prprio corao dele comeou a bater novamente. Ela estava a salvo. Era a nica coisa que importava.
    Como sentindo que Nevada a observava, Jade acordou de repente. Enquanto se endireitou no sof, o cobertor escorregou-lhe do corpo, revelando a tnica manchada 
de sangue.
    Nevada ergueu-se do travesseiro, sua expresso alarmada.
    - Voc... se feriu.
    De imediato, Jade estava  cabeceira da cama, suas mos tocando, confortando, enquanto o estudava, preocupada.
    - No, no. Eu teria sido ferida se no fosse por sua bravura. Mas voc me salvou.
    - E todo esse sangue.
    -  seu. Segurei voc antes que casse ao cho. Mas o seu ferimento era... grave. - Ela sacudiu a cabea emocionada demais no momento para encontrar as palavras. 
Enfim, sussurrou: - O que voc fez foi a coisa mais corajosa que j vi. Voc arriscou a sua vida para salvar a minha.
    - A minha no... valia tanto... assim.
    - Como pode dizer isso? Enquanto o resto de ns entrou em pnico sob a arma de Virgil Trent, voc o enfrentou calmamente.
    - E Trent? Escapou?
    - Est morto.
    - Lee Yin?
    - Est bem. O mdico disse que ele estar novo em folha em poucos dias.
    - E voc? - perguntou Nevada, ainda ansioso, tentando ignorar as pontadas de dor.
    - Eu j lhe disse. Estou bem. Procure descansar agora. Guarde suas foras. Quando voc estiver se recuperando, eu encontrei um meio de agradecer-lhe adequadamente.
    Ele fez um gesto em torno do quarto.
    - De quem ?
    - Meu. Providenciei para voc fosse trazido para c.  aqui que ficar at que se recupere.
    Havia muito mais que Nevada queria perguntar. E queria dizer muitas coisas a ela. Mas o esforo parecia grande demais. Lentamente, seus olhos se fecharam.
    Enquanto ia mergulhando num sono profundo, pensou vagamente que nunca mais precisaria fazer nenhuma aposta nas cartas. Acabara de fazer a aposta mais alta de 
sua vida. E vencera.
    
    
    Captulo 14
    
    Os membros do Drago Dourado haviam retomado sua rotina, enquanto Jade permanecia confinada a seus aposentos, recusando-se a sair do lado de Nevada. O mdico 
retornara pela manh para examin-lo e trocara os curativos. Deixara mais pacotes de preparado medicinal, recomendando que o mantivesse sedado nos dias que se seguiriam, 
pois a dor seria forte.
    Como ela tivesse recusado o caf da manh e o almoo naquele dia, Lily surgiu com uma bandeja de comida no final do dia, insistindo para que se alimentasse. 
Jade obedeceu, embora fosse evidente que comia apenas para agradar Lily, seu olhar nunca deixando Nevada. Depois de ignorar-lhe os protestos, a amiga mandou que 
as criadas lhe preparassem um banho. Jade estava cansada demais para continuar argumentando. Alm do mais, ao ver a banheira repleta de gua fumegante e o sabonete 
perfumado, acabou sucumbindo. Sem uma palavra, despiu-se e entrou na banheira. Algum tempo depois, quando os cabelos tinham sido lavados e enxaguados e o corpo envolto 
por um roupo aveludado, soltou um suspiro de contentamento.
    - Obrigado, tia Lily. Como de costume, sabe o que  melhor para mim. Isto era exatamente o que eu precisava.
    - Mas ainda no  tudo - disse a mulher mais velha. - Agora, voc precisa dormir.
    - Duvido que eu conseguiria fechar os olhos. Mas eu descansarei aqui no sof ao lado da cama.
    Lily pareceu prestes a protestar, mas deteve-se, soltando um suspiro.
    - Est bem. Mas descanse. - Inclinando-se, beijou-a na face e, ento, retirou-se do quarto com as criadas.
    Assim que se viu a ss, Jade sentou-se na beirada da cama e tocou a fronte de Nevada. Suspirou, aliviada. A pele estava fria ao toque. A febre cedera.
    Por longos momentos, permaneceu sentada ali, em meio ao silncio que era apenas ocasionalmente rompido pelo crepitar suave da lareira.
    - Eu morri?
    Ao som da voz de Nevada, ela sobressaltou-se.
    - Voc me assustou. Pensei que estivesse dormindo.
    - E eu pensei que havia morrido e ido parar no Paraso.
    - O que quer dizer?
    - Eu tive uma viso. A mulher mais linda do mundo saiu de um banheira, nua, a pele cintilando, os cabelos negros deslizando por suas costas como um vu.
    Jade no pde ocultar o choque.
    - Voc me viu?
    Um sorriso suave curvou os lbios cheios dele.
    - Ora, srta. Jewel. Era voc? Pensei que fosse um anjo.
    Ela fez meno de deixar a cama.
    - E todo esse tempo eu pensando que voc estava gravemente ferido e lutando por sua vida.
    Nevada segurou-lhe a mo impedindo-a de se afastar.
    - Se eu estava, foi o toque de um anjo que me salvou e me trouxe de volta.
    Ela se permitiu relaxar.
    - Oh, voc est mesmo se sentindo mais forte?
    Nevada cerrou os dentes. At o menor movimento de sua mo desencadeava mais uma vez a dor lancinante no peito.
    - Eu me sinto como se tivesse estado num tiroteio... e perdido.
    - Voc no perdeu. Foi o vencedor. Quem perdeu foi o seu oponente.
    Curiosamente, ele no sentia como um vencedor. No Momento, a dor que o envolvia era insuportvel. Lutou para se concentrar na viso da beldade extica que vira 
emergindo da banheira. Mas mesmo essa imagem comeou a se dissipar.
    Respirou devagar, esperando que a onda de dor passasse.
    - Enquanto voc estiver comigo, eu saberei que venci.
    - Estou aqui. No tenho inteno de sair.
    - Quer se deitar aqui do meu lado? - Ao v-la franzindo o cenho, ele acrescentou depressa: - No meu estado, acho que no tem muito com o que se preocupar. Eu 
s quero que voc repouse como est precisando.
    Oh, a oferta era tentadora demais. Porm, Jade preferiu descer da cama e deitar-se no sof, aliviada em colocar alguma distncia entre ambos.
    Mas, enquanto Nevada adormecia, ela prestou ateno ao ritmo de sua respirao e perguntou-se como teria sido aceitar a sugesto, deitar-se ao lado dele, adormecer 
junto a seu corpo quente...
    Aborrecida com os prprios pensamentos, puxou seu cobertor at o queixo. Exausta, mergulhou num sono profundo.
    
    Durante a semana que se seguiu, Jade viu seus dias ocupados por uma atividade frentica e as noites dominadas por horas longas e solitrias. Como se recusasse 
a sair do lado de Nevada, todos os seus negcios tinham que ser conduzidos em sus aposentos. Por sua sala ntima, passavam inmeros advogados e compradores em potencial 
para o Drago Dourado. Alguns viam o elegante prdio simplesmente como um hotel e restaurante. Outros pretendiam convert-lo num clube exclusivo para homens. E apenas 
um, Chang Lu, um cavalheiro oriental que fora amigo da me dela muito anos antes, estava disposto a pagar uma fortuna para continuar mantendo-o como um palcio de 
prazeres. Como nica condio, queria que tudo permanecesse como estava, desde as pinturas nas paredes at as tapearias. Jade lembrou-o que valiam muito, algumas 
obras de arte e peas de moblia sendo provenientes da China e a maioria da Europa. Argumentou que eram insubstituveis. Ele mostrou-se disposto a pagar o preo, 
uma vez que seu objetivo era o de manter a tradio estabelecida pela honorvel Ahn Lin.
    Jade ponderou a respeito. Depois que decidira vender o estabelecimento em San Francisco, planejara levar boa parte daquele inestimvel acervo consigo, para seu 
novo empreendimento no Texas. Mas, por outro lado, aquela tambm era uma chance de simplificar as coisas. No teria que lidar com os trabalhosos preparativos para 
o transporte de todos aqueles itens, sem mencionar que alguns poderiam ficar danificados com a viagem.
    - Acho que poderemos chegar a um acordo favorvel para ambas as partes - declarou, enfim, alternando o olhar entre Chang Lu e seu advogado, enquanto tomavam 
ch em sua sala. Indicou um quadro numa parede, retratando sua me quando menina na China. - H, porm, alguns itens dos quais no posso me desfazer.
    O sorriso do negociante chins alargou-se.
    -  claro. Se providenciar um inventrio de tudo, meu advogado e eu excluiremos os itens que forem de natureza pessoal.
    Jade estudou a proposta que lhe foi apresentada. Era-lhe oferecia uma quantia maior que havia esperado conseguir. Como poderia hesitar? Mas, ainda assim, preferiu 
adiar sua resposta.
    - Vou considerar a sua oferta. Mas as mulheres que trabalham aqui no fazem parte do negcio.
    Ele franziu o cenho, confuso.
    - As mulheres do Drago Dourado so as melhores de San Francisco. Meus futuros clientes exigiro o mesmo padro. Por que elas no podero continuar aqui, trabalhando 
para mim?
    - A deciso ter que ser delas - disse Jade, com firmeza. - Devem ser livres para ir ou ficar. - E esperava, do fundo de seu corao, que preferissem acompanh-la. 
Para um recomeo no Texas.
    
    Enquanto o ferimento a bala ia melhorando e suas foras retornando, Nevada via Jade sob uma nova luz. Antes, presumira que ela tivesse apenas desfrutado uma 
vida de privilgios, cercada de luxo e riqueza. Agora, encarava-a tambm como uma mulher de negcios, que trabalhava arduamente para manter um alto padro de vida, 
no apenas para si mesma, mas para todos que trabalhavam no Drago Dourado.
    Atravs da porta fechada do quarto, ouvia tudo. As reunies de negcios. A reprimenda ocasional quando um dos funcionrios desobedecia alguma regra da casa. 
E os conselhos de Lily, sempre dados com imparcialidade.
    Observava tambm as longas horas, quando os demais estavam dormindo, que Jade passava examinando lucros e despesas, fazendo clculos, anotando tudo em seus livros.
    Apesar de ter sido educada na proteo de casa, tinha um surpreendente mbito de conhecimento e um grande tino para os negcios. Mas em um aspecto de sua vida 
era totalmente inexperiente. Embora dirigisse um verdadeiro exrcito de mulheres treinadas para agradar os homens, ela continuava inocente naqueles assuntos.
    Um sorriso terno curvou os lbios de Nevada ao ouvir-lhe a voz melodiosa na sala ao lado. To logo suas foras voltassem, prometeu a si mesmo, seria aquele que 
a ensinaria.
    
    Ao final de mais um dia cansativo, Jade entrou no quarto, afundando no sof ao lado da cama.
    - Voc deveria estar aqui - disse Nevada, dando um tapinha a seu lado da cama - onde poderia descansar adequadamente.
    Ao som daquela voz possante, ela endireitou as costas.
    - Est acordado. Precisa de algo?
    - No, obrigado.
    Antes que ele pudesse protestar, Jade j sara. Retornando dez minutos depois, acompanhada de uma criada que, carregava uma bandeja de comida, depositou-a no 
criado-mudo. Ambas ajudaram-no a sentar-se na cama, apoiando-o numa pilha de travesseiros. Quando a criada se retirou, Jade apanhou um garfo e comeou a aliment-lo.
    -  melhor ter cuidado - murmurou Nevada. - Eu posso aprender a gostar deste tipo de tratamento.
    Ela evitou fit-lo nos olhos, ocupando-se com a comida. Mas quando, enfim, ergueu o olhar, sentiu o impacto daqueles olhos castanho-claros que a estudavam com 
perturbadora intensidade.
    Para encobrir seu embarao, ordenou:
    - Abra a boca.
    Nevada obedeceu, aceitando uma pequena fatia de fruta. Quando seus dedos lhe roaram os lbios, Jade sentiu uma seqncia de arrepios pela espinha, aquele toque 
parecendo-lhe dos mais sensuais. O ato de aliment-lo era to ntimo que se deu conta de que estava trmula.
    Tentou virar-se, ocultar o rubor que se espalhou por suas faces. Nevada segurou-lhe o queixo. Tocou-lhe o ombro com a outra mo, puxando-a mais para perto, o 
tempo todo fitando-a nos olhos.
    - Em breve, minhas foras retornaro. - Sua voz mscula soou baixa, mas veemente e com um qu de zanga, enquanto lhe traava o contorno dos lbios com o polegar. 
- Nesse dia, voc poder para de exigir tanto de si mesma. Serei forte o bastante por ns dois, para que voc possa descansar como precisa.
    Aquele toque era to sedutor quanto um beijo. Poupando a mo no ombro dele, Jade resistiu a ser atrada para a teia de seu charme irresistvel.
    - Nunca deixarei que ningum seja forte por mim. Fui ensinada a depender apenas de mim mesma.
    Nevada puxou-a mais para si e beijou-a com uma paixo que surpreendeu a ambos com sua intensidade. Jade, ento, tentou se afastar, at que ele deteve-a, segurando-a 
pelo ombro. Mas mesmo esse gesto simples custou-lhe, fazendo-o recostar-se de volta nos travesseiros.
    - Como v, suas foras ainda no voltaram - declarou ela, com toda a firmeza que pde reunir. - Conhece as regras. Precisa se alimentar se quer se levantar dessa 
cama.
    - Em breve. Muito em breve. E, ento, ns vamos ignorara todas as regras. E criar novas. - Ele estudou-a longamente, experimentando grande satisfao em ser 
capaz de exercer-lhe tamanho efeito. Pretendia afet-la muito mais, prometeu a si mesmo. Testaria a fora de Jade ao limite. E a sua prpria.
    
    
    Captulo 15
    
    Jade descobriu que, enquanto os dias passavam e Nevada comeava a se recuperar, o sono se tornava algo incrivelmente difcil. Para sua consternao, passava 
a maior parte da noite pensando no homem que desfrutava o conforto de sua cama... e em como seria juntar-se a ele ali.
    Tais pensamentos se opunham a tudo que lhe haviam ensinado. Era quase como se ainda ouvisse a voz de sua velha tutora aconselhando-a:
    - Lembre-se, criana, que a luxuria  como o pio.  algo que enfraquece, mesmo enquanto d a iluso de fortalecer. E saiba que o fraco  sempre dominado pelo 
forte. Assim, nunca dever demonstrar fraqueza ao inimigo. Mostre apenas fora.
    - Os homens so nossos inimigos? - perguntara Jade.
    - Eu os encaro - dissera a velha professora com um sorriso - como um mal necessrio.
    Com tais palavras antigas ecoando em sua mente, Jade estudou Nevada adormecido. Era verdade que um homem havia tentado feri-la. Mas houvera outro que arriscara 
a prpria vida para salvar a sua. Certamente, essa no fora atitude de um inimigo.
    Oh, se ao menos seu honorvel pai estivesse vivo... No duvidara de que teria tido respostas para todas as suas perguntas. E a teria ajudado a traar um caminho 
em meio  toda aquela confuso.
    Afastou-se abruptamente do quarto, lutando contra  profunda frustao que tomou conta de seu corao.
    
    Jade subiu as escadarias, a mente rodopiando por causa dos documentos que acabara de assinar. Ao entrar em seu quarto, parou de repente  porta. Nevada estava 
de p junto a uma bacia de gua sobre o aparador. Tudo o que usava era uma toalha em torno da cintura.
    - O que est fazendo fora da cama?
    - Bem, nunca pensei que diria isso, mas estou cansado de ser paparicado. Estou farto de camas de plumas e lenis de cetim. E de ser alimentado por um anjo.
    - Mas o mdico disse que voc precisaria de mais tempo para sarar. - Ela comeou a avanar pelo quarto, mas deteve-se a um dado momento.
    Era uma coisa v-lo ferido e debilitado, lutando pela vida. Mas agora, parado ali quase despido, irradiava fora a virilidade.
    A toalha estava abaixo do umbigo, revelando o abdome rijo e musculosos, tinha o torso nu, os ps descalos. Gotculas de gua ainda lhe escorriam dos cabelos, 
cintilando nos ombros largos e nos plos que lhe cobriam o peito. Lanou-lhe um sorriso perigoso.
    - Acho que eu me excedi um pouco. Voc se importaria em me ajudar a voltar  cama?
    Jade adiantou-se mais pelo quarto, deixando-o passar o brao em torno de seus ombros. Aquela proximidade era perturbadora, ameaando tirar-lhe o flego.
    - Consegue se deitar? - perguntou-lhe quando pararam diante da cama.
    - Talvez tenha que me ajudar um pouco - sussurrou-lhe ao ouvido.
    - Est b-bem - balbuciou ela, sem poder ocultar o tremor da voz. Aquilo s o fez agir com mais ousadia.
    - Estou perdendo o equilbrio.  melhor me segurar.
    Apreensiva, Jade abraou-o pela cintura, no instante em que o viu caindo para trs. Nevada deitou-se de costa na cama, puxando-a consigo. Soltou um gemido quando 
ela fez um esforo para se libertar.
    - Oh, cus, eu machuquei voc.
    - Sim. - Nevada abraou-a, aprisionando ao longo de seu corpo. - Mas de um modo bom.
    - Bom? - Ela ergueu a cabea e lanou-lhe um olhar incrdulo.
    Mas, ao mesmo momento, ele afundou as mos em seus cabelos negros, baixando-lhe a cabea at que seus lbios estivessem quase se roando.
    - Acho que, se me der um beijo, a dor passar. - O brilho maroto naqueles olhos castanho-claros dissipou-se dando lugar a um ardor que a deixou com o corao 
descompassado.
    - No. No devemos...
    - Voc no quer me beijar?
    - N-No, eu...
    - mentirosa.
    - No sou...
    Nevada beijou-a, silenciando-lhe o protesto. Na ltima vez que a beijara, convencera a si mesmo de que tudo no passara de um sonho. Achara que o fogo que percorrera 
suas veias fora um mero resultados da febre. Mas, dessa vez, no havia dvida. O beijo era real. E a mulher em seus braos tambm. O calor que se irradiava entre 
ambos era resultante de emoes fortes demais para conter.
    Apossava-se daqueles doces lbios com um beijo faminto. Mas no era o bastante. Tomado pelo desejo, rolou para o lado, mantendo-a em seus braos. Queria-a por 
inteiro.
    Ela suspirou enquanto o beijo voluptuoso prosseguia, retribuindo com idntico ardor. No demorou, porm, para que a frente de sua tnica fosse parcialmente aberta, 
e Nevada depositasse beijos midos em seu pescoo, nos ombros, no colo. Mas nada parecia saci-lo. Era um desejo arrebatador que o consumia. Que, na verdade, consumia 
a ambos.
    Aps o primeiro instante de aturdimento, Jade vira-se dominada por uma paixo que estava acima de qualquer regra. Aquilo no era o que sua tutora descrevera, 
como uma seduo cuidadosamente planejada, ou uma ertica noite de prazer. Era paixo pura. Desejo. Um desejo to incontrolvel que tomara conta de ambos e exigia 
por ser aplacado. No momento em que aqueles lbios clidos e experientes tinham se apossado dos seus, ela no tivera mais escapatria.
    Enquanto um beijo ardente se confundia com outros e suas mos ansiosas percorriam-lhe as formas perfeitas do corpo por sobre a seda macia da tnica, Nevada soube 
que estava indo depressa demais, que se no parasse agora, no haveria mais volta.
    Esforando-se para recobrar o flego, ergueu a cabea e segurou-a com gentileza pelos ombros.
    - Acho que no estou to forte quanto pensei. - Beijou-lhe a ponta do nariz delicado e afundou nos travesseiros.
    Jade esperou alguns momentos at que sua respirao se abrandasse e o pulso voltasse quase ao normal, Enfim, conseguiu sussurrar:
    - Por que diz isso?
    - No sabe quanto  bonita? Quanto fico tentado a cada vez que olho para voc? Se eu tivesse totalmente curado, no estaramos conversando neste minuto. Estaramos 
terminando o que comeamos.
    Jade observou-o cobrindo os olhos fechados com as costas da mo e lutando para readquirir o controle. Deixou a cama lentamente, fechando a frente da tnica, 
distrada, enquanto tentava lidar com o turbilho de emoes em seu ntimo. Quando tornou a lhe lanar um olhar ele j se virara para o outro da cama, a respirao 
serena como se tivesse adormecido.
    Mas Nevada a achava bonita! E a queria. Sentia-se tentado por ela. Seu corao estava to exultante que mal cabia em si de alegria.
    
    - Vejo que conseguiu dormir - disse Lily, na manh seguinte, entrando no quarto para verificar se j poderia mandar servir o desjejum.
    - Feito um beb.
    - E Nevada?
    Levantando-se do sof, Jade pousou o dedo nos lbios e conduzia a amida  sua sala ntima.
    - A febre cessou definitivamente e o ferimento est sarado. Mas ele ainda sente muita dor. No se queixa, mas posso ver em seus olhos.
    - Entendo. Mas, diga-me uma coisa. Agora que Nevada est sarando, por que no deixa que as criadas cuidem dele? Sei que no comeo voc se sentia grata e ansiava 
por sua recuperao, mas acho que j pode ficar tranqila quanto a isso. - Lily percebera o que estava se desenvolvendo entre o jogador e a sua jovem amiga. E isso 
a preocupava mais do que queria admitir.
    - No  apenas gratido. - Jade adiantou-se at uma janela, tentando encontrar as palavras. - Nos dois estamos ligados agora.  graas a ele que estou viva. 
Eu acredito que Virgil Trent teria me matado depois que tivesse se cansado das... das outras coisas que planejara. Assim, como v,  realmente muito mais do que 
gratido. Compreendo agora que minha vida est ligada para sempre a de Nevada, como nos costumes antigos do povo da minha me.
    A amiga comprimia os lbios em reprovao enquanto a estudava.
    - Acho que est apenas cansada e emotiva demais - disse com o mximo de controle que pde reunir. -  de esperar que esteja confusa depois de tudo o que aconteceu. 
No curto espao de tempo desde que voltou para casa, foi atacada, teve que lidar com um homem gravemente ferido e assumiu a responsabilidade de vender o estabelecimento 
de sua me. No  de admirar que esteja se deixando se levar pelas emoes.
    - No falo apenas pela emoo. Tive muitas horas para refletir a respeito.
    - E sobre o que esteve refletindo?
    - Acho que j  tempo de eu aprender em primeira mo sobre o que acontece por trs das portas fechadas numa casa de prazeres.
    Lily desabou na poltrona mais prxima. Embora tentasse manter seu tom casual, no pde ocultar a preocupao da voz:
    - E Nevada ser o seu professor?
    Jade abriu um sorriso.
    - Consegue pensar em algum melhor?
    Por trs da fachada de coragem da jovem amiga, Lily teve a impresso de detectar nervosismo. Foi tudo o que precisou para chegar ao ponto que queria:
    - O que se oferece no Drago Dourado  um servio. Aquilo que voc est pensando  algo bastante diferente.
    - Como assim?
    - O que est pensando vem do seu corao. E coraes so frgeis, minha querida. Podem ser partidos.
    - Mas quero aprender sobre o amor, tia Lily. E quem melhor para me ensinar do que o homem que arriscou a vida para salvar a minha?
    - No se pode exatamente aprender sobre o amor. No h escolas para esse tipo de coisa. Nem tutores.
    - Ento, como as pessoas se apaixonam? E como d certo?
    - Bem, apaixonam-se naturalmente,  claro. Alguns acabam sendo muito felizes. Mas no  sempre que d certo. Veja o exemplo de seu pai e sua me. Jamais vi duas 
pessoas mais apaixonadas. Mas a despeito do que sentiam, nunca conseguiram viver juntos. Exceto por poas noites felizes, mantiveram vidas totalmente separadas. 
Nem mesmo o amor mtuo por voc pde mant-los juntos. - Lily levantou-se, aproximando-se da jovem amiga. - Est disposta a se contentar com algo semelhante ao que 
os seus pais tiveram?
    - No, mas... Oh, eu s sei que tenho sentimentos por Nevada como nunca tive por homem algum. E quero que ele sinta o mesmo por mim.
    - O que queremos nesta vida e o que conseguimos costuma ser diferente. Tem que decidir se vai entregar o corao ou simplesmente seu corpo a esse homem.
    - Por que no posso entregar ambos?
    Lily abriu-lhe um sorriso triste.
    -  o que muitas pessoas fazem. E chamam isso de amor e casamento. Mas no  para mulheres como ns.
    Mulheres como ns.
    As palavras machucavam.
    - O que se faz no Drago Dourado nunca deve ser confundido com amor. E o que vejo diante de mim no momento  uma jovem confusa, incerta. Mas voc sabe o que 
se passa no seu corao. S voc  capaz de julgar quais sos os seus verdadeiros motivos. Agora, vou deix-la a ss para buscar as respostas em seu ntimo. E fao 
uma prece para que tome as decises certas. Pois afetaro o resto de sua vida.
    Depois que a amiga se retirou, Jade comeou a andar pela sala ntima, aquelas palavras ainda ecoando em sua mente. Poderia entregar-se a Nevada e ainda manter 
o domnio sobre seu prprio corao? Ou estaria entrando num jogo perigosos que poderia acabar sendo sua perdio?
    De repente, parou de caminhar, ficando muito quieta. No importava. Na verdade, nada importava exceto Nevada. Queria-o. No por gratido. Simplesmente o queria. 
Ansiava por deitar-se ao seu lado no grande colcho de ganso e sentir seus braos fortes envolvendo-a, enquanto seus beijos a inebriassem. Queria que ele lhe ensinasse 
tudo sobre a unio entre um homem e uma mulher. O que aprendera atravs dos livros estudados com sua tutora e das confidncias das garotas da casa a respeito de 
como satisfazer os homens no bastava mais. Desejava que Nevada a conduzisse em primeira mo quele mgico e maravilhoso patamar da paixo que fazia duas pessoas 
perfeitamente sensatas como haviam sido seus pais enlouquecerem uma pela outra.
    Tomada por sbita expectativa, deixou a sala ntima rapidamente e encaminhou-se aos aposentos de Lily,  sua procura. Apesar das dvidas da amiga, Jade sabia 
que podia contar com sua ajuda para prepar-la para o que seria a noite mais importante de sua vida.
    
    Nevada ficou com a respirao em suspenso. Se ele prprio no tivesse escutado Lily e Jade conversando na sala ntima ao lado, no teria acreditado.
    Ela seria sua...
    Desde a primeira vez que a vira, sonhara com uma centena de maneiras para seduzi-la. Jade era tudo o que queria. Tudo o que j desejara. A simples idia de que 
viria para sua cama, espontaneamente, como uma noiva, j fazia o fogo da paixo se alastrar por suas veias numa combusto instantnea.
    E ainda assim, apesar de sua empolgao, no conseguia esquecer dos receios de Lily. Seria amor que Jade estaria sentindo? Ou era mera gratido? Quanto  sua 
curiosidade em relao ao que acontecia entre um homem e uma mulher, ele sabia que dera alguma contribuio para o despertar sensual dela. Mas o que de fato sentiria 
a seu respeito?
    Bem, a nica coisa que sabia ao certo era o que se passava no seu prprio corao. Desde a primeira vez que a vira, quisera-a. E de algum modo, sem que tivesse 
escolhido, suas emoes haviam-se transformado em amor. Sempre que estava com Jade, descobria-se pensando em amor, casamento e num futuro comum.
    Um futuro em comum... Eram meros sonhos; sonhos tolos... Era o homem errado para uma mulher como Jade Jewel. SE soubesse da verdade a seu respeito, ela lhe fecharia 
seu corao definitivamente. No era muito reconfortante, mas, sim, a realidade tinha que ser enfrentada. E teria que ser antes que ele fizesse algo que ambos lamentariam.
    Descendo da cama, adiantou-se at a janela, observando o movimento da rua abaixo. Jade no fora a nica que andara mergulhada em reflexes. Todo aquele tempo 
de descanso forados ajudara-o a desanuviar sua mente. Era o momento de enfrentar alguns fatos duros.
    Voltara a San Francisco para descobrir se sua antiga vida ainda o atraa. Constatara que no mais. Finalmente, fartara-se dessa cidade e da vida de jogador e 
andarilho.
    O refgio que construra para si mesmo em Hanging Tree podia ter sido baseado numa mentira, mas proporcionara-lhe grande satisfao pessoal. O problema era que, 
uma vez que os cidados soubessem da verdade, no iriam quer-lo mais por l. De qualquer modo, devia-lhe ao menos isso. Qualquer que pudesse ser o resultado tinha 
que voltar l e enfrent-los. E revelar todos os seus segredos obscuros.
    Adiantou-se pelo quarto para apanhar suas roupas e botas que tinham sido meticulosamente guardadas por criadas numa parte do armrio. Quando conseguiu se vestir 
e colocar o cinturo da arma, a fronte e o lbio superior continham gotculas de transpirao pelo esforo.
    Detestava essa sensao de fraqueza. Mas sabia que suas foras voltariam se tivesse pacincia. No conseguiria viajar mais do que uns poucos quilmetros por 
dia. Mas ao menos deixaria a tentao para trs. E talvez em alguma noite, se vivesse o bastante para isso, pudesse ser capaz de fechar os olhos sem ver o belo rosto 
de Jade em seus sonhos.
    At l, consideraria isso o preo que tinha a pagar para compensar um passado manchado pela vergonha.
    
    
    Captulo 16
    
    - Oh, tia Lily, fique feliz por mim!
    Dando-lhe um rpido abrao, Jade deixou o quarto da velha amiga, seguindo pelo corredor em direo a seus aposentos. Chegando  porta, deteve-se e respirou fundo, 
tentando vencer a onda de nervossmo.
    Aps seus protestos iniciais, Lily ouvira-lhe os argumentos em silncio. Ento, compreendendo que no poderia faz-la mudar de idia, comportara-se da exata 
maneira que Jade esperara. Assumira o controle da situao ao longo daquele dia, cuidando no apenas a aparncia fsica dela, mas de seu estado emocional... acalmando-a, 
incutindo-lhe confiana.
    Um verdadeiro exrcito de criadas fora chamado para preparar um banho. Depois, os cabelos e a pele de Jade tinham sido perfumados. Usando sua melhor tnica de 
seda verde-escura, ela aguardara em crescente impacincia enquanto uma criada arrumara seus cabelos, prendendo-os com pentes de um dos lados e deixando que cascateassem 
sobre um dos seios.
    - O que vou dizer? - perguntara, erguendo um olhar suplicante para Lily.
    - Palavras no sero necessrias. Quando Nevada vir voc, saber.
    - Eu no entendo.
    - Oh, minha querida. - A amiga virara-a na direo do espelho. - Observe a expresso em seus olhos. O amor que voc sente est estampado em seus olhar. Acredite-me, 
bastar fit-la e ele saber.
    Agora,  porta de seus aposentos, antecipando todos os prazeres que a aguardavam do outro lado, tocou seu colar e uma prece ecoou em sua mente:
    Honorvel pai, sei que voc entende todo o medo e confuso, alm da expectativa e do amor que esto no meu corao no momento. Por favor, d-me sua bno no 
que estou prestes a fazer.
    Ela entrou no quarto e, ento, parou de repente, aturdida.
    A nica iluminao era proveniente da lareira e, to logo seus olhos se ajustaram  penumbra, viu que a cama estava vazia.
    - Estive  sua espera.
    O som da voz possante de Nevada, ela se virou bruscamente. Estava sentado numa cadeira a um canto.
    - Quando vi... a cama vazia eu... tive receio de que voc tivesse sado.
    - Pensei nisso. Mas eu no pude sair sem ver voc.
    O sorriso dela retornou.
    - Isso  bom. - Ento, lembrou-se do conselho de Lily: Aproxime-se dele devagar, sedutoramente, como uma tigresa. Deixe que seu corpo diga todas as coisas que 
sua mente est pensando.
    Adiantou-se pelo quarto, seus quadris ondulados graciosamente. Notou a expresso ardorosa no rosto de Nevada. Um bom sinal. Continuou se aproximando ainda mais 
devagar.
    Ele estava hipnotizado. A cada passo de Jade, o ar ia lhe faltando, at que estivesse quase sem flego. Ela era uma viso irresistvel, envolta em seda verde. 
A tnica moldava-lhe o corpo como uma segunda pele, um corpo feminino que era perfeito como nenhum outro... esguio, delicado, escultural. E exalava uma deliciosa 
e extica fragrncia de flores, inebriando-lhe os sentidos.
    - Estou contente em v-lo fora da cama. Deve significar que j est se sentindo mais forte.
    Ele se levantou da cadeira sem deixar de fit-la.
    - Ainda no o bastante. - Especialmente agora que ela estava ali  sua frente, parecendo sada de um sonho.
    - Tenho uma surpresa para voc.
    - Antes que me conte o que , acho melhor eu lhe dar uma notcia.
    Jade parou, franzindo o cenho de leve. Aquilo no fazia parte de seu plano.
    - Notcia?
    Nevada tivera horas para refletir sobre tudo, mas o ar confuso naquele rosto adorvel era como um pinhal em seu corao. Se no estivesse to convencido de que 
era para o prprio bem dela, voltaria atrs agora mesmo e aceitaria os prazeres indescritveis que lhe estavam sendo oferecidos. Em vez disso, prosseguiu, determinado:
    - Estou partindo de San Francisco.
    - Partindo! Quando?
    - Agora. Nesta noite. - Ele a viu cambaleando de leve, como se tivesse recebido um golpe e obrigou-se a continuar: - S estava esperando que voc voltasse para 
poder lhe dizer adeus.
    - Adeus... - Jade segurou-se ao encosto de uma cadeira em busca de apoio. - Para onde vai?
    - H um emprego  minha espera. Em Nevada.
    - Nevada. - Ela estava repetindo tudo feito uma tola, mas no conseguia evitar. Havia uma dor lancinante em seu corao, e mal podia enxergar por entre as lgrimas 
que lhe anuviavam os olhos. - Foi onde conseguiu o seu nome, no foi?
    - Quanto a esse nome... - A cada palavra, ele odiava a si mesmo por est-la magoando tanto. Mas aquilo tinha que ser feito. De maneira rpida, certeira, como 
a lmina afiada de uma faca. E sabia tudo sobre facas. Sobre armas. E crueldade. - O nome Nevada  uma mentira. Eu o inventei, como a tudo mais em minha vida.
    - Tudo mais? Quer dizer que tudo que me disse no passou de mentira tambm?
    - No - respondeu ele, fitando-a com intensidade. - Essa talvez seja a nica verdade que eu j tenha dito. Voc  muito especial. 
    -To especial que voc tem que me deixar. - No havia mais lgrimas agora. Havia uma expresso dura nos olhos de Jade, a voz soando glacial: - Ao menos diga-me 
o seu verdadeiro nome antes que se v.
    Era algo tentador. Ela era tentadora. O que ele queria era estreit-la em seus braos e implorar-lhe que esquecesse tudo o que acabara de dizer. Queria aceitar 
o que lhe oferecia e no pensar em mais nada. Mas, em vez disso, adiantou-se at a porta.
    - No h razo para saber meu verdadeiro nome.  melhor que pense em mim apenas como Nevada.
    Junto  porta, deteve-se, mas no se virou. No podia fit-la agora, no se quisesse sair dali. Com toda a fora de vontade que pde reunir, disse-lhe em tom 
definitivo.
    - Jamais vou esquec-la. Desejo-lhe apenas coisas boas pelo resto de sua vida.
    Jade sentiu-o afastando-se de si devagar, at que, de repente, havia partido num piscar de olhos.
    Muito tempo depois, ainda podia ouvir-lhe o som dos passos se afastando. Deixando-a sozinha com o silncio. O terrvel e insuportvel silncio...
    
    - Ela comeu? - Lily encontrou a criada no corredor que dava para os aposentos de Jade.
    A mulher sacudiu a cabea e ergueu a pequena toalha de linho para mostrar o contedo intacto da bandeja.
    - No tomou nem sequer um gole de ch.
    - Quatro dias, e ela ainda sofre. - Lily endireitou os ombros e entrou nos aposentos.
    Encontrou a sala ntima vazia. No quarto, o ar estava impregnado de incenso, e Jade achava-se diante de um altar que fora montado s pressas.
    - Preciso lhe falar.
    Ao ouvi-la entrando, ela ergueu a cabea e virou-se em sua direo. Lily ficou surpresa em notar que, apesar da evidente perda de peso, sua jovem amiga parecia 
calma e controlada.
    - Tambm preciso falar como voc. Estive meditando e consultando meus honorveis pais. Eles me aconselharam a prosseguir com minha vida.
    - Sbio conselho. Conseguir segui-lo?
    Jade soltou um profundo suspiro e chegou a esboar um sorriso.
    - Voc me disse que os coraes so frgeis. Estava enganada. Agora sei que um corao pode ser dilacerado irremediavelmente e ainda continuar batendo. - Seguiu 
na frente at a sala ntima e sentou-se  escrivaninha. - Chang Lu mandou-me avisar que deseja tomar posse do Drago Dourado imediatamente. - Ela distribuiu uma 
variedade de documentos diante de si e molhou a pena da caneta-tinteiro. - Providenciarei para que todos meus pertences pessoais sejam enviados ao Texas na frente. 
E alugarei vrias carruagens para nos transportar para nosso novo negcio em Hanging Tree.
    Sentada numa poltrona prxima, Lily pousou as mos sobre o colo.
    - Fico aliviada que tenha... se recuperado o bastante para assumir o controle de sua vida novamente. Agora posso apenas esperar que seja forte o suficiente para 
ouvir o que devo lhe dizer.
    Jade parou com a caneta-tinteiro no ar.
    Lily desviou o olhar, evitando fit-la.
    - Como deve ter notado, por vrios anos o senador Hammond tem sido... um amigo muito prximo a mim. E ele me pediu para... ficar aqui em San Francisco, para 
que possamos continuar o nosso... relacionamento.
    - E o que faria aqui? Vai trabalhar para Chang Lu?
    - No. O senador quer me instalar numa casa adorvel em Nob Hill. Terei criados, um cocheiro para minha carruagem e uma vida de privilgios.
    - Mas o senador  casado.
    - Estou bem ciente desse fato. Ele e eu jamais poderemos ser mais do que... amigos. Mas  o bastante para mim. O senador gosta de mim. E me respeita. E isso 
 mais do que uma mulher como eu pode esperar.
    Uma mulher como eu. Mais uma vez, as palavras atingiram o corao j partido de Jade.
    Seus olhos se encheram de lgrimas ao pensar em perder sua mais velha e querida amiga.
    Lgrimas tambm afloraram nos olhos de Lily ao perguntar-lhe:
    - Pode me perdoar por desert-la?
    - Bobagem. - Jade saiu detrs da escrivaninha, abrindo os braos para a amiga. Envolveu-a num abrao apertado.
    - Lamento muito, minha querida. Eu queria tanto amenizar o seu sofrimento, em vez de estar lhe dando mais este desgosto.
    - Desgosto? Jamais. Voc tem sido minha amiga, conselheira e leal protetora. Tudo o que desejo  a sua felicidade. Tem certeza de que est feliz com esse arranjo.
    - Sim, estou. Eu gosto muito do senador Hammond.
    - S lhe peo um favor.
    - Qualquer coisa.
    - Se por alguma razo algo acontecer entre vocs, se algum dia se ver sozinha nesta cidade, prometa que ir me procurar em Haging Tree. Meu lar estar sempre 
aberto para voc.
    - Oh, querida. - Lily desmanchou-se num novo acesso de lgrimas. - Voc merece muito mais. Amigas que jamais a desertem. Um homem que a ame, que a respeite e 
se case com voc. Uma chance de ser parte de uma famlia de verdade.
    - Voc e as outras mulheres daqui do Drago Dourado so toda a famlia que preciso.
    O semblante de Lily ficou tenso.
    - H algo mais a lhe dizer. E  igualmente doloroso. Mas no suportei ter que desapont-la ainda mais.
    - Conte-me, sim?
    - Bem, as mulheres que trabalham aqui esto com medo de partir. O Texas  to vasto, to... primitivo. J ouviram tantas histrias assustadoras sobre o que pode 
acontecer l. Assim, decidiram ficar e trabalhar para Chang Lu.
    Ela imaginara que Jade choraria, ou se abalaria com mais aquele golpe, mas apenas encarou-a com um olhar incrdulo.
    - Quantas vo ficar?
    - Todas.
    - E como voc sabe?
    - Elas tm conversado entre si. Sentem imensa afeio por voc. Mas esto realmente com medo de uma mudana.
    - Entendo. - Jade tornou a sentar-se atrs de escrivaninha. Por longos momentos, apenas olhou para a papelada. Depois, ergueu a cabea, dizendo: - Obrigada, 
Lily. Deixe-me agora. Tenho muito trabalho a fazer.
    - Eu poderia ajudar...
    - Obrigada, mas devo fazer isto sozinha.
    Sozinha... A palavra pareceu ecoar na mente dela. Mas teria que ser assim naquela ltima pgina que escreveria da vida que sempre conhecera ali em San Francisco.
    Tendo enviado toda a sua bagagem para o Texas com alguma antecedncia, Jade acomodou seus pertences restantes numa nica valise de tapearia. Entregou-a a uma 
criada para que fosse colocada na carruagem de aluguel.
    Sozinha em seus luxuosos aposentos correu os olhos longamente ao redor. Enfim, desceu as escadarias, detendo-se mais um pouco para estudar os lustres reluzentes, 
os tapetes ornamentais, as pinturas nas paredes.
    Lar sussurrava-lhe o corao. E, ainda assim, no era mais seu lar. Sentiu-se dividida entre a opulncia do lugar que estava deixando e a simplicidade que a 
aguardava ao final de sua jornada.
    Se seu pai e me ainda estivessem vivos, no teria sido necessrio optar. Esse lugar de seu nascimento estava repleto de boas lembranas, de significado. Mas 
sem eles era apenas como uma concha bela e vazia.
    Alm do mais, embora ainda parecesse estranho admitir, seu corao estava agora na cidadezinha poeirenta de Hanging Tree, Texas. No por causa de Nevada, reverendo 
Wade Weston, ou o que quer se chamasse agora, disse a si mesma, com severidade. Mas por causa de trs estranhas que haviam se tornado sua famlia. Talvez, compreendeu, 
elas seriam as nicas amigas de verdade que teria. Partilhavam de algo indestrutvel com Esmeralda, Prola e Rubi. O sangue de seu honorvel pai corria nas veias 
de cada uma. Eram uma famlia agora. A sua nica e verdadeira famlia.
    Sem lgrimas nos olhos, abraou Lily e as outras mulheres, oferecendo a cada uma sua palavra de agradecimento e o desejo de felicidade futura.
    Enfim, entrou na carruagem  espera. Sem olhar para trs, partiu em sua longa jornada para seu lar.
    Lar sussurrou seu corao. No o estava deixando. Estava retornando para ele.
    
    
    Captulo 17
    
    - Jade conteve um bocejo. Essa ltima etapa da jornada seria a mais longa. E a mais solitria. O restante dos passageiros havia descido da carruagem na misso 
espanhola de Standing Rock. Ela era a nica com destino a Hanging Tree. Em menos de dois dias, estaria em casa.
    Quem teria acreditado que poderia aprender a amar essa terra selvagem? Perguntou-se, olhando para a vastido alm da janela. Mas o fato era que cada quilmetro 
que a aproximava da Fazenda Jewel ia deixando seu corao mais leve.
    Recostou-se no assento e fechou os olhos. Minutos depois, o som estrondoso de cascos de cavalos a fez endireitar-se abruptamente. Espiando pela janela, avistou 
quatro cavaleiros avanando a pleno galope na direo da carruagem. Pela outra janela, pde ver mais cavaleiros aproximando-se dos primeiros. Eram seis ao todo, 
disparando rifles e gritando para o cocheiro parar.
    Por alguns minutos aterradores, o cocheiro chegou a tentar escapar dos bandidos. A carruagem ia sacolejando violentamente, e Jade mal conseguia se segurar em 
seu interior. Mas quando um tiro atingiu o ombro do homem, ele se esforou para controlar as rdeas dos cavalos. Enfim, pararam abruptamente.
    Jade, que fora atirada no cho, ergueu-se depressa, espiando pela janela. Os pistoleiros, com rostos cobertos por lenos, haviam rodeado a carruagem e ordenavam 
ao cocheiro que descesse.
    Algum abriu a porta bruscamente. Ela se encolheu no assento quando um homem gritou:
    - Ora, vejam o que encontrei! - Apanhou-a pelo brao, fazendo-a descer  fora.
    O lder, que ainda estava montado no cavalo, no podia ocultar a surpresa, nem a satisfao. Assim que a viu, levou a mo ao ombro, que ainda carregava a dor 
do punhal dela.
    - Ora, ora. Ento, nos encontramos outra vez.
    Antes que Jade pudesse apanhar o punhal que levava  cintura, ele ordenou:
    - Amarrem-na. E tratem de revist-la. Ela no ter uma segunda chance de me atacar.
    - Com prazer. - Um dos homens puxou os braos de Jade para trs bruscamente, amarrando-lhe os pulsos, enquanto um outro arrancava-lhe o punhal da cintura e jogava-o 
ao lder. Isso feito, revistou-a, correndo as mos vagarosamente pela tnica dela, um sorriso malicioso em seus lbios ao v-la estremecendo em repulsa.
    - Essa  a sua nica passageira? - perguntou o lder ao cocheiro, enquanto colocava o punhal  cinta.
    - Sim. - O velho apertava a mo sobre o ferimento, tentando em vo conter o sangue que se esvaa. - Mas fique avisado. Essa  a srta. Jade Jewel, dona de uma 
das maiores fazendas do Texas. Seus vaqueiros no iro descansar at acertarem as contas com quem tentar maltrat-la.
    -  mesmo? - O lder estudou-a por um minuto. Em seguida, estendeu a mo calmamente, apontando para o cocheiro. O gesto revelou um pequeno revlver oculto na 
manga.
    Ao ouvir a exploso, Jade soltou um grito e foi obrigada a observar em horror, enquanto o cocheiro caa de joelhos, sangue esvaindo-se de seu peito. Ele desabou 
no cho, gemendo e retorcendo-se, quase alucinado pela dor, mas ningum foi socorr-lo.
    - Malditas balas pequenas - disse um dos homens casualmente. - Quanto tempo acha que vai demorar para que ele morra, Ned?
    - No sei. Mas no temos tempo para esperar. - O lder estendeu a mo pela segunda vez e atirou no cocheiro que, soltava um gemido agonizante, ficou imvel de 
repente.
    Jade observava em estado de choque. Antes que pudesse se recobrar, o lder j dava instrues aos demais:
    - Desatrelem aqueles cavalos. E tragam a mulher conosco. Ela vai pagar pelo que me fez. E quando eu terminar de lhe ensinar uma lio, o resto de vocs tambm 
podero se divertir.
    Com as mos ainda amarradas para trs, ela foi erguida at um dos cavalos, o controle das rdeas passado para um dos homens.
    Sem um nico olhar para o velho que haviam matado impiedosamente, o bando de foras-da-lei partiu a galope.
    Jade sentiu a onda de pnico dominando-a, ameaando sufoc-la. Estava nas garras de assassinos. E eles no deixariam nenhuma testemunha viva para denunciar sua 
crueldade.
    
    Nevada parou seu cavalo no alto de uma colina. Olhou, surpreso, para a carruagem abandonada. Foi, ento, que avistou o corpo cado no cho. Praguejando entre 
os dentes, aproximou-se depressa.
    Soube, antes mesmo de verificar o pulso do homem, que ele estava morto. Mas pelo aspecto do sangue, concluiu que o assassinato fora recente.
    Examinou, em seguida, as marcas das patas dos cavalos deixados em torno da carruagem. Algumas ferraduras tinham o distinto sinal de uma meia lua. Nevada estreitou 
os olhos em reconhecimento. Ned Garland. Ningum melhor do que ele para saber que Garland no tinha a menor conscincia. Na verdade, era provvel que tivesse gostado 
de matar o cocheiro indefeso.
    To logo retornasse a Hanging Tree, teria que relatar o ocorrido ao xerife.
    J se preparava para montar no cavalo quando avistou uma valise de tapearia, meio escondida sob o assento do passageiro. Os provveis sacolejos da carruagem 
deviam t-la soltado de seu esconderijo. Quando a abriu, seu corao quase parou.
    Continha alguns itens simples: um sabonete perfumado, um pente e uma escova, um xale. E no fundo, havia uma tnica de seda verde...
    Com um gemido torturado, ergueu o traje contra o rosto, inalando o perfume extico.
    Jade... Pelos cus, ela estava  merc de Ned Garland.
    Nevada segurou a valise junto ao corao como um talism e comeou a seguir o rastro dos cavaleiros.
    
    Estavam cavalgando havia horas. Embora os pistoleiros parecessem saber para onde iam, Jade perdera por completo o senso de direo naquele vasto territrio. 
O bando parou diversas vezes, detendo-se  beira dos riachos para beber e preencher os cantis, mas em nenhum momento ofereceu gua  prisioneira.
    Quando o sol comeou a se pr, Jade sentiu o pnico se renovando. Sabia que to logo escurecesse, teriam que parar para passar a noite. E ento, para ela, o 
verdadeiro terror iria comear.
    
    A Choupana fora erguida ao p de uma colina que ficava camuflada por alguns arvoredos. Para algum que no soubesse de sua existncia, teria sido impossvel 
de avista. Era o esconderijo perfeito para um bando de foras-da-lei. Mesmo sem o luar para gui-los, os pistoleiros seguiram, certeiros, naquela direo.
    - Tragam a mulher - ordenou o lder, enquanto desmontava e se adiantava at a choupana.
    Um dos homens tirou Jade do cavalo e puxou-a bruscamente consigo pelo brao.
    - Estou com fome - disse algum. - Ser que a mulher sabe cozinhar?
    - Eu No a trouxe aqui para cozinhar - resmungou o lder. - Se quer comer, faa voc mesmo. Quanto a mim, vou terminar este usque. Depois, nossa prisioneira 
vai me dar um bocado de diverso.
    Havia horas que as mos de Jade tinham ficado dormentes. Ao ser empurrada para um canto da choupana imunda, tropeou e caiu. Ningum a ajudou. Os homens simplesmente 
soltaram gargalhadas ante seus esforos para se sentar.
    Encolhendo-se naquele canto, ela apoiou as costas na parede. Estava com frio, com fome e exausta. E a sensao de terror ameaava paralis-la. Mas sabia que 
ao menos que permanecesse alerta e acordada, estaria definitivamente perdida.
    Se houvesse a mais remota chance de escapar daquele pesadelo, estava determinada a arrisc-la.
    Os foras-da-lei esparramavam-se no cho num semi-crculo em torno da lareira rstica de pedra. Por mais de uma hora, haviam passado uma garrafa de usque entre 
os seis, suas gargalhadas ruidosas aumentando.
    O lder virou a cabea e fixou em Jade um olhar de puro dio.
    - Venha aqui, mulher - disse-lhe, com a voz um tanto pastosa.
    Como ela no se moveu, ele se levantou e atravessou a choupana, seu tom era ameaador:
    - Quando dou uma ordem, espero ser obedecido. Levante-se!
    Com um olhar de desafio, Jade permaneceu no lugar.
    Praguejando, o lder agarrou-a pelo brao, obrigando-a a levantar-se.
    - Parece que vou ter que lhe ensinar algumas boas maneiras - anunciou, triunfante. Virou-se para um dos comparsas: - Traga-me essa tocha.
    O homem apanhou um graveto longo e grosso em cuja ponta fora amarrado um tecido breado. Colocou-o nas chamas. Quando pegou fogo, entregou-o ao chefe, que o aproximou 
do rosto de Jade, fazendo-a empalidecer.
    - Voc viu o que fiz quele cocheiro. A dele foi uma morte fcil se comparada a que tenho preparada para voc, a menos que obedea. Entendeu?
    Jade engoliu em seco, mas recusou-se a tomar conhecimento das palavras.
    Ele agarrou-lhe o cabelo com fora e puxou-lhe a cabea para trs at que as lgrimas lhe brotassem dos olhos. A outra mo segurava a tocha flamejante a milmetros 
de seu rosto. Mas ela ainda se recusava a manifestar o seu medo.
    - Parece que a mulher ainda precisa de mais algumas lies, Ned - sugeriu um dos homens. Os demais explodiram em novas gargalhadas.
    - Sim, e est prestes a receber a primeira. - Ned aproximou a chama perigosamente dos cabelos dela.
    Nesse momento, a porta da choupana foi aberta com um pontap, e uma saraivada de balas fez os homens mergulharem no cho para se protegerem. Alguns tinham a 
expresso de quem vira um fantasma. Outros apanharam as armas, mas os novos disparos fizeram larg-las de imediato. Todos tentavam se abrigar como podiam na choupana.
    A caos era total, com armas disparando feito troves e corpos caindo e se retorcendo de dor. Apesar do fato de que um pistoleiro estava enfrentando sozinho meia 
dzia de oponentes, ele no recuava nem tentava se proteger. Apenas continuou atirando at que no restasse ningum mais para revidar.
    To subitamente como comeara, o tiroteio cessou. Um silncio mortal pairou na pequena choupana enquanto Ned arrastava Jade detrs de um banco virado onde haviam 
se protegido.
    Ela ouviu a voz de Nevada:
    -  melhor solt-la, Ned, ou terei que acabar com voc tambm. E voc sabe que sou exatamente aquele que pode.
    Embora Jade j o tivesse visto enfrentar pistoleiros antes, jamais ouvira tamanha fria em seu tom, nem vira tanto dio em seu semblante. Eram um rosto e uma 
voz que no reconhecia.
    O lder olhou em torno da chacina e, ento, estupefato, encarou o homem  porta.
    - Danny! Mas que diabos...
    - Eu o avisei para olhar sempre para trs, Ned, porque um dia eu iria voltar.
    - Est bem. Voc teve a sua vingana. Mas se acha que vai atirar em mim tambm,  melhor pensar nisto.
    To casualmente como se estivesse acendendo um charuto, Ned atirou a tocha na pilha de corpos. Numa questo de segundos, as roupas dos malfeitores mortos incendiaram-se.
    -  melhor sair, Danny. A menos que queira morrer queimado.
    - No vou sair at que liberte a mulher.
    Uma expresso maliciosa surgiu no rosto de Ned.
    - Quer dizer que essa  a razo? Pensei que tratasse de uma vingana pelo que fizemos a voc. Mas no , certo? Est aqui por causa da mulher. - Ele estudou-a 
com novo respeito e, ento, segurou-lhe o brao com mais fora antes de se virar para Nevada. - Ela  sua?
    - Exatamente.
    O fogo comeara a se alastrar, o cheiro carregado pela fumaa deixando Jade nauseada. Mas nenhum dos dois homens fez meno de ceder.
    - Ento, por que no partilhar? - perguntou Ned. - No costumvamos partilhar tudo?
    - Era o que eu pensava. Mas, enfim, aprendi do jeito mais difcil que o nico que partilhava era eu. Foi quando meus supostos amigos desapareceram, dispostos 
a me deixarem pender de uma corda por crimes que nem sequer cometi. Voc queria que eu pagasse com a minha vida pelos seus crimes.
    - Ora, Danny. Voc no foi enforcado. Apenas ficou na priso por alguns anos. Mas isso no pareceu prejudic-lo tanto assim. Pelo que eu soube, voc andou estudando 
muitos livros e at encontrou uma religio. Ora, voc est muito bem... mais destemido do que nunca. Agora que voltou, as coisas podero ser como antes. Vamos nos 
divertir a valer. A comear pela mulher. Vou lhe dizer uma coisa, poder t-la primeiro.
    Nevada fitou os olhos de Jade por um momento, arregalados pelo medo e o choque. Vendo que fora pressionada ao limite, ele sentiu o resto de seu controle se dissipando. 
Sua voz endureceu:
    - Como eu disse, Ned, no estou interessado em partilhar nada com voc. Tem uma chance de viver. Solte-a. Se no o fizer, terei que mat-lo.  simples assim.
    O fora-da-lei ficou muito quieto, avaliando suas chances. Sabia que restava pouco tempo antes que as labaredas alcanassem as vigas toscas do teto. Quando isso 
acontecesse, a estrutura cairia sobre si mesma, e todos ficariam aprisionados ali dentro. Mas sabia que tinha ao menos uma chance de derrotar o homem que o desafiava. 
Ele no teria meio de saber que escondia seu pequeno revlver na manga. Bastaria escolher o melhor momento para mirar e atirar.
    - Voc sempre foi melhor com uma arma do que eu, Danny. Mas eu era mais cruel. Acho que isso tinha a ver com aquela conscincia pesada. Ora, eu nunca tive conscincia. 
Assim, digo que est blefando. No acredito que possa atirar em mim. E para provar isso, nem sequer vou sacar minha arma. Se atirar em mim, estar matando um homem 
desarmado.
    Observou, satisfeito, enquanto Nevada baixava a arma.
    As labaredas j estavam muito prximas s botas de Ned. Sabia que no restava mais tempo. Segurou Jade  sua frente como um escudo e comeou a esticar o brao.
    - Cuidado! - gritou ela, antes que ele lhe tapasse a boca, silenciando-lhe as palavras de aviso.
    Jade sentiu o pnico tomando-a. Nevada acabaria sendo baleado diante de seus olhos. Desesperada, conseguira livrar os pulsos diante de seus olhos. Inesperadamente, 
virou-se para encarar seu agressor e arrancou seu punhal da cintura dele.
    Perplexo, Ned reagiu de imediato, desviando a lmina bruscamente, o que produziu um corte profundo na mo dela.
    Jade soltou um grito ao lutar com o malfeitor, tornando a virar o punhal e enterrando-o no peito dele com toda a sua fora.
    Ned soltou uma exclamao surpresa antes de cair de joelhos.
    - Sua...
    Ergueu o brao, mas antes que pudesse usar a pequena arma, um disparo reverberou pela choupana, e ele caiu. Seu corpo foi imediatamente envolto palas chamas.
    - Escolha errada Ned - disse Nevada. - Parece que ter que ir ao encontro dos seus amigos no inferno.
    As pernas de Jade fraquejaram. Em seu estado de choque, pareceu prestes a desmoronar. Mas antes que pudesse cair no cho, Nevada ergueu-a em seus braos. Detendo-se 
apenas um segundo para recuperar o punhal, ele correu pela cortina de fumaa e fogo.
    Uma vez l fora, continuou correndo at estar longe o bastante para escapar do cheiro de morte. Enfim, ajoelhou-se e depositou Jade na relva.
    Vendo o sangue que se esvaa do corte da pequena mo dela, enrolou-a com seu leno.
    - Sinto muito por tudo isto - disse-lhe ele, veemente. - Mas acabou agora. Graas a voc. Salvou a minha vida, embora a essa altura deva me odiar. Eu lhe dou 
minha palavra de que farei tudo que estiver ao meu alcance para lev-la para casa a salvo.
    Quando lhe afastou os cabelos dos olhos, percebeu que suas promessas eram em vo. Jade fora forada a lidar com mais do que seu esprito inocente podia aceitar. 
A dor do ferimento do punhal na mo e o choque por tudo o que passara tinha-na feito mergulhar na escurido.
    
    
    Captulo 18
    
    Jade ateve-se aos ltimos vestgios de sono. Com os olhos ainda fechados, podia sentir o calor do sol da manh acariciando-lhe a face. De algum lugar prximo, 
ouvia o murmurinho de gua por entre as rochas. Um coro de pssaros pairava com a brisa.
    A sensao de paz produzia tamanho contraste com a violncia que testemunhara que temia tratar-se de apenas um sonho.
    Abriu os olhos e correu-os ao redor em surpresa. No era um sonho. Estava deitada entre dois cobertores sob o abrigo de um pequeno arvoredo. Havia um bule de 
caf no fogo, preenchendo o ar com seu delicioso aroma.
    Viu, ento, Nevada. Caminhava do riacho em sua direo, ainda abotoando a camisa. Tinha os cabelos molhados e parecia to disposto e inocente quanto o pastor 
que antes ela julgara que fosse. Ajoelhou-se a seu lado.
    - Enfim, voc acordou.
    Nevada viu-a estremecendo com sua proximidade e censurou-se por sua falta de tato. Ela no mais lhe depositava sua confiana. E no podia culp-la. O homem que 
vira na noite anterior era-lhe um estranho, algum to violento quanto os foras-da-lei que a haviam raptado.
    - Eles esto... - Jade engoliu em seco e tentou novamente. - Todos aqueles bandidos esto mortos?
    - Sim.
    - Conheciam voc. O lder tratou voc como se fosse um deles.
    - Eu fui.
    Nevada notou um suspiro trmulo sem poder colocar em palavras todos os temores de seu corao. Parecia to absurdo que esse homem bonito e carismtico, que levara 
a cidade inteira a acreditar que era bom, nobre e pacfico, fosse, na verdade um fora-da-lei. E agora estava  merc dele...
    Como lendo seus pensamentos, Nevada estendeu-lhe o pequeno punhal de cabo cravejado.
    - Vai querer isto para sua proteo.
    - Meu punhal. Conseguiu recuper-lo?
    - Sim, eu sabia quanto significava para voc.
    Ela segurou o punhal com firmeza.
    - Por quanto tempo estive dormindo?
    - Eu diria que estamos em torno do meio-dia.
    - Meio-dia! - Jade sentou-se e sentiu tontura com o movimento sbito.
    - V com calma. - Nevada abraou-a pelos ombros, amparando-a. Embora ela ficasse tensa, no tinha foras para se esquivar. - Voc perdeu muito sangue do corte 
de sua mo. Pelo resto do dia, acho melhor no se cansar.
    - Onde estamos?
    - Nas colinas ao p da Montanha do Homem Morto. Fica a quase um dia de viagem de Hanging Tree.
    -  melhor iniciarmos a jornada. - Jade comeou a afastar as cobertas, mas ele segurou-lhe o brao com gentileza.
    - No vamos a lugar algum antes que voc tenha a chance de se recuperar.
    - Foi s um corte. Podia ter sido pior... - Ainda enquanto falava, Jade reviveu o medo e viu mais uma vez em sua mente todo o horror que testemunhara. Empalidecendo, 
sussurrou: - Oh, Nevada, acho que nunca tive tanto medo.
    - No foi a nica. Tambm tive medo.
    - Voc? No creio que j tenha sentido medo de algo em sua vida.
    - No tive medo por mim. Minha vida no tem importncia. Temi por voc. - O tom dele suavizou-se, enquanto a ajudou a deitar-se de volta entre as cobertas que 
tirara dos alforjes. - Depois de tudo que passou, precisa de algum tempo para se recobrar.
    - Est bem. Vou esperar um pouco mais, at que eu me sinta mais forte.
    Embora Nevada soubesse que ainda era cedo para que Jade passasse a lhe depositar sua confiana novamente, ao menos aquilo era um comeo.
    - Como est sua mo?
    Ela olhou para as ataduras limpas que a envolviam.
    - Lateja um pouco. Como est o corte?
    - Foi profundo o bastante para lhe causar dor por alguns dias. Mas no foi grave, e o corte no inflamou. Vai sarar.
    Nevada soltou-lhe a mo e ocupou-se junto  fogueira, preenchendo um prato com biscoitos e colocando caf numa velha caneca.
    Jade conseguiu comer um pouco antes de deixar o prato de lado e sorver um gole de caf. Mesmo esse pequeno esforo pareceu esgot-la e tornou a se deitar, adormecendo.
    Estava quase escurecendo. Os ltimos e tnues raios de sol lanavam reflexos violceos sobre as guas lmpidas do riacho.
    Jade sentou-se, perplexa por ter dormido o dia inteiro. Mas sabia que Nevada estivera certo quanto a ficarem ali. Suas foras estavam restauradas, assim como 
o nimo.
    Ficou surpresa em ver sua valise de tapearia a seu lado. A ltima vez que a vira fora em algum lugar da carruagem.
    Ento, compreendeu o que acontecera. Fora assim que Nevada soubera sobre seu rapto. Devia ter deparado com o cocheiro morto e, de algum modo, vira a valise. 
Se ele no a tivesse reconhecido, ainda estaria nas garras daqueles homens desumanos, pensou, com um calafrio.
    Abrindo-a, retirou seus pertences e afastou as cobertas, levantou-se. Olhou ao redor, mas no havia sinal de Nevada nem de seu cavalo.
    Experimentou um momento de pnico antes de se obrigar a pensar racionalmente. Ele no a teria levado at ali para desaparecer em seguida. Onde quer que tivesse 
ido, voltaria. Nesse meio tempo, soube como pretendia usar esses preciosos instantes de privacidade.
    Adiantou-se at o riacho e, depois de se despir devagar por causa da mo ferida, entrou na gua refrescante. Lavou o corpo e os cabelos com o sabonete fragrante, 
soltando um suspiro de contentamento. Depois, nadou languidamente, sentindo a tenso se dissipar.
    Quando, enfim, deixou o riacho e vestiu a tnica limpa que levara na valise, sentia-se revigorada. Virando-se na direo da fogueira, ficou atnita em ver Nevada 
montado em seu cavalo, observando-a.
    - Perdoe-me. Eu no pretendia demorar tanto. Esperava estar de volta antes que voc tivesse acordado.
    - Acordei apenas agora h pouco. Aonde voc foi?
    Ele desmontou e apontou para um cervo abatido, atravessado no cavalo.
    - Achei que voc precisaria de algo mais do que biscoitos para redobrar suas foras para a jornada at Hangin Tree.
    Vendo-a cruzar os braos sobre o peito, retirou o casaco, colocando-o em torno dos ombros dela.
    - Voc est tremendo.
    Embora no dizendo nada, Jade sentiu-se tocada por aquele gesto. Nevada estava sendo bastante atencioso. E no momento, era exatamente o que ela precisava.
    Ao se aproximar da fogueira, ficou bastante consciente daqueles penetrantes olhos castanho-claros acompanhando-a. Apesar de aquele homem ainda ter a habilidade 
de afet-la com um simples olhar ou toque, no podia se esquecer do que descobrira a seu respeito naqueles chocantes momentos na choupana. Teria que aprender a endurecer 
o corao para no bancar a tola como fizera em San Francisco.
    Enquanto a lua surgia acima dos picos das montanhas, permaneceu sentada nas cobertas. A seu lado, Nevada tostava a carne na fogueira. 
    - Como acabou deparando com a carruagem e encontrando minha valise? - perguntou-lhe, enfim. - Este no  o caminho para Nevada.
    - Eu menti para voc. Nunca pretendi ir para Nevada. Eu estava a caminho de Hanging Tree, embora numa jornada vagarosa enquanto estive me recuperando do ferimento. 
De qualquer modo, eu tinha que partir de San Francisco. Era tempo de confrontar o meu passado.
    O silncio se prolongou antes que ela se recobrasse o bastante para perguntar:
    - Mas por que teve que mentir para mim?
    Ele ouviu-lhe a dor na voz e preferiu no fitar aqueles grandes olhos escuros, cheios de incerteza e desconfiana.
    - Achei que isso lhe pouparia alguma dor. Eu no tinha direito de aceitar... o que voc estava prestes a me oferecer.
    As faces de Jade flamejaram.
    - Voc sabia o que eu estava planejando?
    - Sim. Eu pude ouvir tudo do quarto.
    Ela baixou a cabea, envergonhada.
    Nevada tocou-lhe a face com gentileza.
    - No me entenda mal - sussurrou-lhe. - Ter voc era tudo o que eu queria. Tudo o que eu havia sonhado, desde a primeira vez que a vi. Mas eu sabia que no tinha 
direito a tamanha ddiva. Voc merece algum melhor do que eu. Compreendo agora que o que fiz foi covardia. Deveria ter-lhe contado a verdade a meu respeito antes 
de partir.
    - E qual  essa verdade?
    - No sou em absoluto o homem que voc pensa.
    - E quem  voc, afinal?
    - Sou um solitrio. Um mentiroso. Estive sozinho durante a maior parte da minha vida. A fim de sobreviver, eu tive que crescer depressa.
    - Por que ficou sozinho? O que aconteceu com seus pais?
    - Meu pai morreu quando eu tinha oito anos. Minha me era jovem, e as tragdias de sua vida abateram-na.
    - De que maneira?
    - De muitas... Eu a encontrava sentada numa cadeira de balano, com o olhar fixo no vazio. Mal conseguia se levantar de l o bastante para cuidar das crianas.
    - Voc tinha irmos?
    - Duas irms pequenas. Ainda eram bebs. Precisavam de uma me, mas ela simplesmente no conseguia fazer mais nada depois que meu pai... depois que ele morreu. 
E houve um homem... - O maxilar de Nevada ficou rijo, o rosto endureceu. - Um dia eu voltei para casa depois de ter ido caar nosso jantar e encontrei a cabana vazia. 
Fiquei sabendo atravs de um fazendeiro vizinho que ela havia partido com um caubi de fala macia.
    Jade estava boquiaberta. Embora nem sequer tivesse se dado conta, estendera a mo, tocando-lhe o brao forte.
    - Ela deixou um menino de oito anos de idade para sobreviver sozinho?
    Nevada deu de ombro.
    - Acho que a situao ficou insuportvel demais para ela poder lidar. Depois da morte de meu pai, eu deixei que a raiva e o dio preenchessem todo o vazio dentro 
de mim. - Desviou o olhar antes de acrescentar: - Cerca de um ms depois que minha me partiu levando minhas irmzinhas, Ned apareceu. Ele prprio no tinha mais 
do que quinze ou dezesseis anos, mas a mim j parecia um fora-da-lei experiente. Estava fugindo com um bando e se ofereceu para me levar junto.
    - Mas voc era apenas uma criana.
    - J lhe disse. Tive que crescer depressa. Ned me convenceu de que minha nica chance de sobreviver era me cercando de foras-da-lei dures com muitas armas, 
ou eu acabaria morrendo jovem feito meu pai. Assim, ele e seu bando tornaram-se minha famlia. Ns atravessvamos todo o Oeste, sempre um passo  frente da lei. 
E no inverno nos escondamos naquela choupana.
    - Ento, foi por isso que nos encontrou to depressa. Concluiu que me levariam para l.
    - Isso mesmo.
    Jade sentiu os olhos enchendo de lgrimas ao pensar na vida que ele acabara de descrever.
    - Deve ter sido terrvel para voc.
    Nevada tentou sorrir, mas seus lbios mal se curvaram, a expresso pensativa.
    - No foi exatamente um mar de rosas. Mas eu sobrevivi.
    - Ned chamou voc de Danny.
    - Enterrei esse nome quando tinha oito anos e passei a me chamar Nevada. Com Ned como meu professor, tornei-me um especialista com uma arma.
    - Mas voc no era como aqueles foras-da-lei - disse ela, estremecendo. - Jamais poderia ser como eles.
    Nevada virou-se para fit-la com um olhar faiscante.
    - No tente fazer de mim algo que no sou. Fiz parte de um bando. Quebrei todas as regras possveis. J lhe disse. Sou um ladro, um trapaceiro e um assassino.
    - Voc no . Eu o conheo. Voc no  um assassino.
    - Matei homens. Voc me viu matando-os sem hesitar sempre que ameaaram a mim ou a algum com quem eu me importasse.
    Ela pegou-lhe a mo nas suas.
    - Mas isso foi em legtima defesa. Voc no foi  procura deles. Ao final, era uma questo de matar ou ser morto.
    - Mas ainda assim esto mortos por minha causa. Aos olhos da lei, isso me torna um assassino.
    Nevada deixou sua mo nas dela por longos momentos. Era um gesto simples, mas terno e o tocava a fundo. Enfim, ocupou-se cortando a carne assada e preencheu 
dois pratos, entregando-lhe um. Quando seus olhares se encontraram, esboou um sorriso.
    -  uma pena que voc no tenha sido o homem da lei que finalmente me levou a julgamento. Teria sido bem mais fcil para mim.
    - Julgamento?
    - Sim. O xerife queria me fazer de exemplo e me enforcar pelos crimes cometidos pelo bando Garland. O juiz aceitou a palavra de testemunhas que contaram que 
eu havia interferido para salvar suas vidas quando Ned ficara violento demais. Exceto em defesa prpria, eu nunca matei um homem. Assim, ele me poupou da forca, 
condenando-me a cinco anos de priso.
    - Cinco anos?
    - Foi o que provavelmente salvou minha vida. Eu tive cinco anos para refletir. E compreendi que havia desperdiado metade de minha vida revoltado por causa de 
algo que j havia passado. Nada poderia trazer o meu pai de volta. Eu conclu ento que, quando sasse, poderia repetir os meus erros, ou buscar uma vida melhor 
para mim.
    - E foi quando de tornou o reverendo Wade Weston?
    - Eu tentei. Puxa, como tentei... E foi bom ter o respeito das pessoas. Mas os velhos hbitos so difceis de esquecer. As vezes eu me sentia indefeso carregando 
uma Bblia em vez de uma arma. Especialmente quando soube que Ned e o bando estavam de volta atacando as pessoas. Na primeira vez que abordaram voc, eu reagi instintivamente 
com a minha arma.
    - Era voc! - Jade arregalou os olhos. - Voc era o meu anjo da guarda.
    Nevada esboou um sorriso e observou as chamas da fogueira.
    - Que grande anjo da guarda... Eu nem sequer podia contar o que havia feito. As pessoas de Hanging Tree merecem algum melhor do que eu.  o que pretendo lhes 
dizer quando, enfim, chegar  cidade.
    Jade deixou o parto de lado e segurou-lhe o brao, a voz tremendo com indignao.
    - Est enganada quanto s pessoas da cidade. Todo tem voc em grande estima. Quando ouvirem a verdade, recebero voc de volta de braos abertos.
    - Se pensa assim,  porque deve acreditar em milagres. Os respeitveis cidados de Hanging Tree no hesitaro em me banir to logo saibam da verdade a meu respeito.
    - Ento, por que se d o trabalho de voltar l?
    - Porque eu lhes devo ao menos a verdade. Chame isso de o ltimo de meus... assuntos inacabados em Hanging Tree.
    Jade observou-o levantando-se e se afastando at desaparecer na escurido para alm da luminosidade da fogueira.
    A comida em seu prato esfriou enquanto olhava para as estrelas e pensava sobre tudo o que ele lhe dissera. Era quase muita coisa para absorver de uma s vez.
    Sentindo-se emocionalmente esgotada, deitou-se entre as cobertas. Numa questo de segundos, mergulhava num sono profundo, sem sonhos.
    
    Jade olhou para o cu estrelado. No tinha como saber por quanto tempo dormira. As palavras de Nevada ecoavam em sua mente. Voc era tudo o que eu havia sonhado, 
desde a primeira vez que a vi. Mas eu sabia que no tinha direito a tamanha ddiva. Voc merece algum melhor do que eu.
    Sentou-se, afastando as mechas de cabelo da fronte. Como pde ter sido to cega?
    De todas as coisas que soubera sobre o passado de Nevada, apenas uma importava. Sua partida de San Francisco no fora uma rejeio a ela, porm uma prova de 
que no se julgava digno de seu amor. Mas ele a queria. E a quisera desde a primeira vez que a vira.
    A despeito de tudo que descobrira sobre seu passado, ela ainda o amava. Desesperadamente.
    J era tempo de alguma sinceridade de sua parte.
    
    Nevada estava sentado perto da fogueira, as costas apoiadas no tronco de uma rvore, absorto em pensamentos. Virou-se ao ouvir os passos suaves rompendo o silncio 
da noite. Ento, conteve a respirao ao observar Jade sentando-se a seu lado. Era como uma viso que tivesse evocado de seus torturantes anseios.
    - Voc deveria estar dormindo.
    - E estava. - Jade sabia que sua voz soava um tanto ansiosa, mas no podia evitar. Queria agir depressa, antes que tivesse tempo de mudar de idia. - Algo me 
acordou... Foi uma voz em minha mente.
    - Como assim?
    Ela abriu-lhe um sorriso to adorvel que o deixou quase sem flego.
    - Voc disse que acabou ouvindo o que falei a tia Lily... quanto aos meus planos para... seduzi-lo.
    - J conversamos sobre tudo isto.
    - Voc disse que me queria, e que foi desde a primeira vez que me viu.
    Ele se levantou abruptamente e, precisando esconder seus sentimentos, deu-lhe as costas.
    -  o bastante. Volte a dormir, sim?
    - Eu fiz algo para que voc mudasse de idia?
    - No  nada que tenha feito. Sou eu. ... tudo, meu passado, meu futuro. Droga, eu no tenho futuro algum.
    - No estou interessada no seu passado, ou no seu futuro. Tudo o que me importa  este momento. - Ela tambm se levantara e pousou-lhe a mo no brao.
    Ao v-lo se esquivando de seu toque, foi tomada por sbito temor e pensou em recuar. Mas, ento, avistou-lhe o perfil msculo. Estava com o maxilar rijo, a respirao 
acelerada. Seria possvel que ele estivesse travando uma batalha consigo mesmo? Por sua causa?
    Tal percepo deu a Jade a coragem que precisava.
    - Eu amo voc, Nevada. Sei que no deveria, mas no posso evitar como me sinto a seu respeito. E acho que sente algo por mim tambm.
    Amor. Aquela simples palavra o deixou atnito, fez sua mente rodopiar. Ele estivera preparado para qualquer conversa exceto aquela. Se ela tivesse lhe dito que 
queria simplesmente aprender sobre a unio carnal entre homens e mulheres, teria encontrado a coragem para dissuadi-la.
    Mas amor... amor simples e sincero... Era a sua necessidade mais bsica, um sentimento que por tanto tempo lhe fora negado.
    Ainda assim, pelo bem de Jade, tinha que tentar neg-lo. 
    Virou-se para fit-la, seus traos deliberadamente neutros.
    - Prestou ateno quando Lily a alertou sobre os perigos do amor?
    Ela reagiu como se a tivesse esbofeteado. Nevada odiou-se por ter que mago-la, mas era para proteg-la de si mesmo.
    - Voc viu o que o amor fez com seus pais. Nem o amor que sentiam por voc pde uni-los como famlia. E se repetirmos o erro deles?  o que quer? Um filho que 
passe sua existncia inteira desejando uma vida que nunca poder ter?
    Como Jade permanecesse em silncio, ele soube, com pesar no corao, que vencera.
    - Agora procure dormir. Vai precisar. Partiremos para Hanging Tree to logo o dia amanhea.
    Dando as costas, fechou os olhos com fora e esfregou o rosto em profunda frustrao. Quando achou que j lhe dera tempo para deitar-se, virou-se. Para sua surpresa, 
porm, ela continuava prxima, observando-o em silncio.
    - Eu pensei...
    Jade cobriu-lhe os lbios com os dedos macios...
    - Voc achou que teve xito em me afastar. Era o que queria, no era? Salvar-me de mim mesma?
    - Pelo cus, deixe-me... agora, antes que seja tarde demais.
    - J  tarde demais. - Ficando na ponta dos ps, Jade beijou-o nos lbios.
    Nevada sentiu o fogo da paixo se alastrando por suas veias, seu controle se dissipando. Mas, ainda assim, tinha que tentar. Segurou-a pelos braos, afastando-a 
um pouco.
    - Voc no sabe o que est fazendo. Isto aqui no  um elegante palcio dos prazeres, com lenis perfumados e colches de plumas. No h criadas para servi-la, 
nem Lee Yin para ajud-la quando achar que est em apuros. E fique avisada. No sou um cavalheiro. Vou querer mais do que est preparada a ofertar. - Ela viu a paixo 
fulminante naqueles olhos castanho-claros antes que ele pudesse ocult-la. Vou querer tudo. Tudo, voc me entende? Agora, afasta-se de mim, antes que ambos tenhamos 
que acordar pela manh cheios de arrependimentos.
    Em vez de se afastar quando a soltou, Jade surpreendeu-o ao abra-lo pelo pescoo, erguendo os lbios para beij-lo.
    - No vou me afastar. E no pode me obrigar a isso.
    Era impossvel resistir. Nevada no tinha mais foras para afast-la de si.
    Enquanto seus lbios tomaram os dela, disse com a voz rouca:
    - Entenda, ento. Eu quero tudo.
    
    
    Captulo 19
    
    Por pouco as mos de Nevada no a machucavam ao segur-la pelos ombros e encost-la contra a rvore. Seus beijos no eram gentis. Com lbios sfregos, tomava. 
Exigia. Devorava. Seu hlito era quente contra a face dela, enquanto a respirao se acelerava com seu mpeto incontrolvel.
    Beijou-a com todo o arrebatamento, saboreando cada delicioso momento. Quando ergueu a cabea, ambos estavam ofegantes. Com impacincia, abriu-lhe o incio da 
tnica. Mordiscou-lhe o lbulo da orelha e percorreu-lhe o pescoo com lbios midos. Ao mesmo tempo, suas mos experientes exploravam, insinuando-se pelas fendas 
nas laterais da tnica, afastando-a do caminho at que comeou a acarici-la com intimidade.
    Jade reagiu aos afagos impetuosos feitos um animalzinho assustado.
    - No! Espere. - Respirando fundo para recobrar o flego, empurrou-o pelo peito.
    Nevada ergueu a cabea, um brilho perigosos em seus olhos.
    - Eu a avisei que no era um cavalheiro. Est mudando de idias?
    - No, eu... Apenas preciso de um momento para pensar.
    -  tarde demais para isso. No pense. - Ele afastou-lhe mechas sedosas do pescoo e inclinou-se, encobrindo-lhe a pele de beijos molhados. As mos fortes tornavam 
a lhe deslizar pelo corpo, sob a seda da tnica, fazendo-a estremecer por inteiro com seu toque ousado. - Apenas sinta...
    Nevada estudou-lhe os olhos escuros enquanto intensificava suas carcias, desvendando-lhe os segredos mais ntimos, at que os primeiros espasmos de prazer a 
dominaram.
    Jade no encontrava palavras. No quando os lbios e mos dele lhe despertavam reaes to surpreendentes. Seu corpo vibrava com sensaes novas e intensas, 
mas, ainda assim, Nevada no lhe dava tempo para se recobrar.
    Beijou-lhe o pescoo sensualmente, o incio do ombro. Quando a tnica se mostrou um obstculo, abriu-lhe mais a parte da frente, desnudando-lhe os seios, segurando-lhe 
os mamilos tmidos com avidez.
    Embora a reao impetuosa dele a tivesse surpreendido em principio, a verdade era que todo aquele ardor a excitava. Comeou a tentar abrir-lhe a camisa, ansiosa 
por explorar-lhe o corpo tambm. Por ministrar-lhe carcias abrasadoras.
    Com um gemido abafado. Ele livrou-se depressa das prprias roupas e acabou de retirar-lhe a tnica, at que ambos estivessem totalmente despidos e no houvesse 
nenhuma barreira impedindo o contato da pele.
    A voz de Jade soou rouca, trmula:
    - No posso acreditar no que est acontecendo. No me resta nenhum orgulho. Voc conseguiu fazer com que eu esquecesse de tudo que minha tutora havia me ensinado.
    - No ficarei satisfeito at que o nico corao que voc sinta seja o meu. - Nevada estreitou-a mais em seus braos at que lhe sentisse o pulsar descompassado 
do corao junto ao prprio peito. -  o nico gosto que sinta seja o dos meus lbios. - Beijou-a sofregamente at que ambos estivessem mais uma vez ofegantes. - 
E o nico homem que veja seja eu.
    Com um suspiro, Jade fechou os olhos devagar. Delineada pelas brumas da paixo, estava a imagem dele, gravada em sua mente. Em seu corao. Em sua alma. 
    - H apenas voc - disse num sussurro de prazer. - Oh, Nevada, apenas voc!
    - E voc  a nica mulher a quem sempre vou querer. - Ele tornou a beij-la nos lbios com toda a sua paixo, enquanto voltava a lhe cobrir o corpo de carcias 
inebriantes.
    Seu desejo era to poderoso que precisava fazer um esforo sobre-humano para no possu-la imediatamente. Havia um mpeto quase incontrolvel dentro de si, um 
fogo que o consumia de maneira impetuosa e clamava por ser aplacado. Mas aquela era a primeira vez dela, lembrou a si mesmo. Havia to pouco que podia lhe oferecer. 
Mas lhe podia dar essa noite. Podia lhe proporcionar um prazer inesquecvel. E lembranas para durar uma vida inteira.
    Momento aps momento torturante conseguiu readquirir o controle de maneira a propiciar-lhe o tempo que ela merecia.
    Pousando as mos em seus ombros delicados, afastou-a um pouco de si e respirou fundo algumas vezes para recobrar o flego.
    - O que foi? Eu fiz algo errado?
    - Oh, doura... Voc no poderia fazer algo errado nem que tentasse. Voc  to perfeita. To incrivelmente perfeita... - Beijou-lhe a fronte, as faces, a ponta 
do nariz, os lbios. - Mas eu quero que isto seja especial para voc.
    - Como poderia no ser especial se estou com voc. 
    Tais palavras tocaram-no profundamente. Ergueu-lhe as pequenas mos, uma por vez, levando-as aos lbios e beijou as palmas com ternura. Depois, baixou-a consigo 
at a relva macia, onde se ajoelharam sobre as roupas que haviam despido. 
    Foi tomado de infinita ternura ao estreit-la em seus braos e beijar-lhe os lbios longamente. Abraando-o pelo pescoo, Jade retribuiu.
    A serenidade da noite envolveu-os. Todos aqueles sons balsmicos, como o murmurinho da gua no riacho, o canto das cigarras, o sopro do vento nas rvores ajudaram-no 
a acalmar a paixo avassaladora dentro de si at que ele pudesse saborear cada instante ao mximo.
    Com todo o cuidado, deitou-a na relva e deixou uma trilha de beijos midos e sedutores pelo pescoo dela, deslizando pelo colo acetinado at um dos seios.
    Jade soltou um suspiro delicado. Aqueles eram momentos de um lnguido prazer como nunca experimentara. Permaneceu calma e imvel naqueles braos experientes, 
deixando-o descortinar-lhe aquele mundo fascinante de sensaes.
    Nevada sentiu que ela agora lhe depositava sua total confiana e ficou exultante. Era um dos maiores presentes que poderia lhe dar, considerando que fora educada 
para no confiar em ningum exceto em si mesma.
    Enquanto aqueles lbios e mo irresistveis percorriam seu corpo, Jade o arqueava, tomada pelo desejo. O ardor que a consumia era to intenso que nem mesmo a 
relva fresca podia esfriar o calor febril em sua pele. E aquelas carcias audaciosas prosseguiam como uma doce tortura que a fazia sussurrar o nome dele sem parar.
    Nevada fitava-lhe os olhos castanho-escuros, repletos de desejo, o excitamento dela estimulando ainda mais o seu.
    - Diga que me quer.
    Jade estudou-o longamente, as palavras quase lhe faltando. Havia mergulhado num mundo de sentimentos to profundos, de prazer to intenso...
    - Eu quero voc. Apenas voc. Oh, Nevada, quero ser sua. Agora.
    Sentindo os ltimos resqucios do controle se dissipando, ele deitou-se sobre o corpo macio dela, possuindo-a com um mpeto que surpreendeu a ambos. Mas quando 
tentou ir devagar, para dar-lhe tempo, ela abraou-o com fora, levando-o a um ponto de onde no haveria mais volta. Comeou a acompanh-lo instintivamente em sua 
cadncia, seus corpos ondulando num crescente, at que os dois foram arrebatados por um xtase vertiginoso. Eram as sensaes mais incrveis enquanto pareciam transportados 
s nuvens e, enfim, tocavam as estrelas numa exploso luminosa.
    
    Permaneceram abraadas por longos momentos, o corao de cada um descompassado, as respiraes ofegantes. A mente de Jade ainda rodopiava, maravilhada com tudo 
o que havia descoberto. Ento, aquela era a paixo que um homem e uma mulher experimentavam... A paixo que havia alimentado a imaginao de artistas e poetas da 
terra de sua me durante sculos.
    Sentiu as lgrimas marejando-lhe os olhos. Aquilo era o que sua me e seu pai tinham partilhado, o elo que os unira, embora tivessem levado vidas separadas.
    Para Jade, essa descoberta era surpreendente. E devastadora. Como seus pais tinham conseguido ficar separados se haviam partilhado de algo to poderoso, to 
sublime?
    Notando-lhe as lgrimas, Nevada odiou a si mesmo. Enxungando-as das faces dela com gentileza, disse entre dentes:
    - No posso acreditar que possu voc feito um selvagem, aqui mesmo no cho. Eu me sinto como o mais baixo...
    - No  por isso que estou chorando - interrompeu-o Jade, abrindo um sorriso por entre as lgrimas. - O que acabamos de partilhar foi to... maravilhoso! Neste 
momento eu s estava pensando nos meus pais. Deve ter sido terrvel ficarem separados.
    Aliviado por no ser a causa daquele pranto, Nevada sentiu o prprio corao ficando mais leve. Estreitou-a mais em seus braos, adorando a maneira como ela 
se aninhava no calor de seu corpo.
    Permaneceram em silncio longamente, cada um mergulhado em suas reflexes.
    Mas quando, enfim, Jade estremeceu, ele interrompeu o silncio, sussurrando-lhe ao ouvido:
    - A noite est esfriando.  melhor eu ir deitar voc nas cobertas.
    Enquanto fazia meno de se levantar, porm, ela segurou-lhe o brao, detendo-o.
    - No quero que me deixe. Nem por um instante sequer. Sei de um jeito melhor para nos aquecermos.
    Nevada observou-a com um misto de surpresa e divertimento.
    - Ora, srta. Jewel. E no que estaria pensando?
    - Acho que poderamos... dormir abraados?
    - E como voc saberia sobre tais coisas?
    - Bem. Um notrio fora-da-lei foi gentil o bastante em partilhar comigo sua vasta experincia em... certas reas que eu desconhecia.
    - Foi muita generosidade da parte dele.
    - Sim, trata-se de um homem bastante generoso. E agora eu gostaria de retribuir o favor. - Jade sentou-se na relva e afagou-lhe o rosto por longos momentos, 
percorrendo-lhe os contornos dos traos msculos com vagar, enquanto o fitava nos olhos. Sua mo, ento, deslizou at um dos ombros largos. - Eu queria fazer isto 
h muito tempo.
    -  melhor ter cuidado - avisou-a ele, numa voz rouca - ou talvez esse fora-da-lei que mencionou tenha ainda mais coisas que queira partilhar.
    Ela parecia intrigada.
    - Isso  possvel? Eu quero dizer... to depressa?
    - Se ele  notrio como voc diz, acho que h uma boa chance. Especialmente se continuar tocando-o desse jeito.
    Jade beijou-lhe o pescoo e ouviu-o contendo a respirao. Isso apenas a fez ousar mais. Surpreendeu-o deslizando seus lbios midos por aquele peito viril. 
Quando baixou mais os lbios, Nevada soltou um gemido abafado de prazer.
    Segurando-a pelos ombros, estreitou-a em seus braos.
    - Eu a avisei - sussurrou-lhe contra os lbios. - Agora vai ter que sofrer as conseqncias.
    - Promete? - disse ela, com um riso.
    - Nunca deixo de cumprir uma promessa.
    Jade estremeceu, o riso morrendo-lhe na garganta quando Nevada comeou a explorar-lhe o corpo com os lbios e mos experientes. No demorou para se ver mergulhado 
com ele mais uma vez num mundo arrebatador de paixo.
    
    Nevada observava a doce mulher adormecida em seus braos. Em algum momento durante a noite, conseguira carreg-la para debaixo das cobertas. Mas nenhum dos dois 
se empenhara muito em tentar conciliar o sono.
    Tinham feito amor longamente, ora com infinita gentileza, ora com tamanho desespero que seus corpos se uniram com o mpeto de uma tempestade. Em todas s vezes, 
Jade fora uma fonte de constante deleite e fascnio.
    Observava-a agora sob a luminosidade do amanhecer. Era to linda que fazia perder o flego. Era inocente e sedutora. Uma criana e uma mulher. Uma amante e uma 
amiga.
    E deixava-o dolorosamente consciente de todas as coisas que ele sempre soubera estarem fora de seu alcance. Casamento. Famlia. Razes. A dor foi to repentina 
que o fez fechar os olhos para tentar bloque-la.
    Se pudesse, impediria o amanhecer, para que ficassem ali para sempre, abrigados do mundo civilizado. Franziu o cenho. Civilizado... Preferia muito mais esse 
paraso natural do que a dura realidade. Mas cedo ou tarde, a civilizao teria que ser enfrentada.
    Antes de sua partida, Jade teria mandado obviamente cartas  famlia e, enfim, uma mensagem telegrfica avisando de seu retorno ao Texas. Uma vez que a carruagem 
de aluguel no chegasse, todos pensariam o pior. Tinha que poup-los de mais preocupaes. Ainda assim, o desejo de permanecer ali era tentador. Em Hanging Tree, 
deparariam com a ira e os julgamentos de todos. No se importava consigo mesmo. Fizera suas escolhas, a maioria delas erradas, havia muito tempo. Mas Jade era diferente. 
J estava vulnervel aos ataques dos moradores da cidade por causa do novo Drago Dourado. No precisava do fardo adicional de ter seu nome ligado ao de um infame 
fora-da-lei.
    - Est com fome? - Despertando, Jade tocou-lhe o cenho franzido. - Ou est preocupado com algo?
    - Eu s estava pensando.
    Numa tentativa de desanuviar-lhe o semblante, ela depositou-lhe beijos suaves no pescoo e no ombro. Como isso no trouxesse o sorriso esperado, fitou-o com 
um olhar preocupado.
    De imediato, o ar circunspecto dele dissipou-se. Jade, ento, roou-lhe os lbios com os seus e viu o brilho ardente que lhe surgiu nos olhos castanho-claros. 
    - Hum... Como eu pensei. Est com fome.
    - Mas no de comida. Tenho fome de voc - sussurrou-lhe ele de encontro aos lbios antes de beij-la com sofreguido.
    E, ento, palavras no fizeram mais necessrias. Mergulharam mais uma vez naquele mundo particular, isolado da realidade externa. Um lugar onde no existia palavras 
zangadas, nem foras-da-lei violentos. Um lugar onde se sentiam seguros, saciados e totalmente amados.
    
    - No preciso de outro curativo na mo - queixou-se Jade, enquanto Nevada rasgava uma tira de linho e comeava e enrol-la sobre o ferimento dela.
    Ainda deitada nua numa coberta. Com os cabelos molhados do banho matinal, ele tinha apenas o outro cobertor em torno de si.
    - No discuta. As ataduras precisam ser renovadas at que o corte esteja cicatrizado.
    Terminado a bandagem, Nevada afastou o cobertor e apanhou o sabonete perfumado.
    -  s o que a est preocupado? Por que no disse logo? - Surpreendendo-a, ergueu-a nos braos.
    - O que est fazendo?
    - Vou lavar os seus cabelos. E... tudo o que mais queira.
    Ele carregou-a para gua, sentando-a numa parte rasa e mantendo-lhe a mo no alto para no molhar a bandagem. Lavou-lhe, ento, os cabelos demoradamente, apreciando 
a tarefa.
    - Sabe, eu costumava me perguntar como seria tocar os seus cabelos. Agora eu sei. So to sedutores quanto imaginei, macios como um manto de cetim e incrivelmente 
bonitos.
    Jade sentiu-se corando.
    - Ser esse homem o mesmo que se diz um fora-da-lei? Tem certeza de que no  um poeta?
    Nevada riu.
    - No conte a ningum, mas eu cheguei a ler um pouco de poesia na priso. E eu sempre me perguntava como um homem podia devanear tanto sobre os lbios de uma 
mulher. Ou os cabelos. Mas quando vi voc pela primeira vez, na noite de seu aniversrio no Drago Dourado, eu compreendi. Faz alguma idia de quanto tempo a sua 
imagem permaneceu comigo, aquecendo minhas noites, alimentando meus sonhos?
    Diante daquela confisso, ela arregalou os olhos.
    - Voc  um poeta. Ou um galanteador incurvel.
    - Talvez eu seja ambos. Agora feche os olhos - disse-lhe ele, enquanto lhe apoiava as costas sobre seu brao e lhe enxaguava os cabelos.
    - Hum... isto  maravilhoso.
    - Fico contente que goste. - Nevada comeou, ento, a lhe ensaboar os ombros, o colo, os seios.
    Ela abriu os olhos depressa. Mas a mo dele j descia mais, deslizando sobre o ventre firme, ao longo da coxa macia.
    Jade soltou um gemido abafado e abraou-o pelo pescoo, a gua envolvendo gentilmente a ambos.
    - A sua mo... - avisou-a ele, mas era tarde demais. A bandagem j estava encharcada.
    Nenhum dos dois pareceu se importar, enquanto se uniam no lento e prazeroso ritual do amor.
    
    - Por que temos que partir? - Com a mo s, Jade enxaguou no riacho os utenslios usados no desjejum, enquanto Nevada dobrou as cobertas e as guardou num dos 
alforjes.
    - J lhe disse. A sua famlia ficar preocupada com voc.
    - Mas  cedo demais. - Jade detestava dificultar as coisas, mas, a cada minuto que passava, sua frustrao aumentava. Tendo uma idia repentina, ergueu a mo 
enfaixada. Embora a dor fosse mnima, usaria qualquer pretexto para adiar a partida. - Minha mo estar ainda melhor amanh.
    Ele no disse nada. Como podia critic-la quando estava igualmente inconformado com o que estaria por vir? Em vez disso, venceu a pequena distncia que os separava 
e puxou-a para si. O beijo foi longo, demorado, ntimo. Ento, ergueu-a em seus braos e sentou-a primeiro na sela, acomodando-se atrs dela em seguida e apanhando 
as rdeas.
    Sem uma palavra, partiram, enfim, do lugar que se tornara o santurio de seu amor.
    
    
    Captulo 20
    
    Estava quase anoitecendo quando chegaram a Hanging Tree. Embora o fato de ambos estarem montados num s cavalo atrasse muitos olhares curiosos, nenhum morador 
da cidade cumprimentou-os. A maioria virava-se depressa, evitando os olhos deles.
    Jade e Nevada trocaram um olhar significativo antes de continuarem cavalgando em silncio.
    Pouco tempo depois, chegaram ao topo de uma colina e viram o brilho dos lampies da Fazenda Jewel na distncia. Jade sentiu o corao disparando. Estava em casa... 
Houvera uma ocasio, durante a sua captura, que temera nunca mais rever essa fazenda, ou os rostos queridos de suas irms. Mas agora que estava ali, era tomada por 
um medo ainda maior. Temia que o regresso significasse perder o homem que cativara seu corao.
    Ainda enquanto se aproximavam da casa, j podia sentir Nevada se retraindo:
    - Procure descansar por uns dias. - Sua voz era quase um sussurro. - No deve ir  cidade por algum tempo.
    - Est tentando me assustar?
    Ela parou o animal e desmontou.
    - Estou apenas tentando poup-la. Voc viu como as pessoas reagiram quando nos viram juntos.
    Jade segurou-lhe o brao depois que a ajudou a desmontar.
    - Eu quero que passe a noite aqui. Pela manh, enfrentaremos os moradores da cidade juntos.
    Ambos viraram-se na direo da casa, enquanto a porta da frente era escancarada e Esmeralda, Prola e Rubi saram correndo para a varanda. Choravam e riam ao 
mesmo tempo ao descerem os degraus e se aproximarem dos dois.
    - Oh, Jade! - exclamou Esmeralda. - Como estou feliz que esteja bem!
    - Ficamos to preocupados - acrescentou Prola. - Adam, Cal e os vaqueiros tem estado fora fazendo buscas durante horas. Teremos que enviar-lhes algum com a 
mensagem de que voc chegou em casa em segurana.
    - Voc me parece... - Rubi estudou a irm com um olhar atento - ... Diferente. O que aconteceu?
    Evitando uma resposta imediata, Jade virou-se para Nevada.
    - No tem que ir l enfrent-los to depressa. Passe ao menos esta noite aqui na fazenda.
    - Voc sabe que no posso.
    Notando a troca de olhares entre os dois, Esmeralda disse:
    - As ms lnguas da cidade no tm falado de outra coisa exceto o desaparecimento de vocs dois. Tem havido at rumores tolos de que vocs tivessem combinado 
de se encontrar numa outra cidade.
    - Era o que eu j receava. Os moradores desejaro convocar uma reunio - declarou Nevada, com um suspiro cansado. - Quando terminar presumo que iro ordenar 
que eu parta o mais depressa possvel. - Montou de volta no cavalo.
    Jade segurou-o pela manga da camisa.
    - Se o obrigarem a partir, irei com voc.
    Ele inclinou-se na montaria e tocou-lhe a mo.
    - Voc sabe que costumo viajar sozinho.
    - No mais. No depois do que partilhamos. - Jade estudou-lhe o semblante fechado e seu tom tornou-se suplicante: - Poderamos ter um futuro juntos. No me importo 
com o que os outros possam pensar.
    Nevada soltou-lhe a mo e segurou as rdeas. Quando a fitou nos olhos, os seus tinham uma expresso dura. O que quer que sentisse por ela resguardara em seu 
corao. Agora que a deixara a salvo em casa, estava preparando ambos para o vazio que, certamente, viria.
    -  melhor comear a se importar. Aceite meu conselho. Eu sei o que  se tornar um excludo. No vou permitir que isso acontea a voc. Eu no poderia me perdoar 
se, por minha causa, voc tivesse que enfrentar uma multido zangada.
    - Voc no causou nada disso. Amar voc foi uma escolha minha - declarou Jade, veemente.
    As trs mulheres que ouviam a conversa entreolharam-se, estupefatas. Amor? A irm ausentara-se apenas por algumas semanas. Quando fora que se apaixonara pelo 
pregador da cidade?
    Enquanto ele virara o cavalo, Jade ainda lhe disse:
    - Eu o estou avisando, Nevada. No vou me separar de voc.
    Ele se afastou sem olhar para trs.
    Observando-o, ela deu-se conta de que suas palavras foram uma espcie de eco das mesmas coisas que seu pai dissera  sua me. E ainda assim, apesar de todo o 
amor que haviam sentido um pelo o outro, seus pais haviam vivido... e morrido... separados.
    Oh, honorvel pai, pensou, lutando para conter as lgrimas, esse tem que ser o meu legado? Devo repetir o seu erro e ficar separada para sempre do nico homem 
a quem sempre amarei?
    Esforou-se para se recompor. Quando o cavalo desapareceu depois de uma colina, virou-se. Deparou com as irms estudando-a em silncio.
    Vendo as lgrimas que ainda lhe marejavam os olhos, cercaram-na com abraos e beijos ternos.
    _ Esperamos uma comemorao - sussurrou Esmeralda. - Em vez disso, encontramos voc sofrendo. Pode nos contar o que aconteceu?
    Jade assentiu, enxugando as lgrimas com o delicado leno que Prola lhe estendeu. Depois, acompanhou as irms ao interior da casa, ocupando seus lugar  mesa. 
Era um grupo pequeno e circunspecto que se reunia, mas lenta e dolorosamente, com muitas interrupes, elas lhes contou o que acontecera.
    - Ele foi muito corajoso - comentou Prola, enfim.
    - O seu anjo da guarda - acrescentou Rubi, com um sorriso.
    - E voc o ama. - A voz de Esmeralda soou repleta de compreenso.
    - Sim, mas quando as pessoas da cidade souberem sobre o passado Del, seu futuro aqui estar terminado.
    As irms se entreolharam, reconhecendo a verdade daquela afirmao. Esmeralda falou por todas:
    - Lavnia e os demais jamais aceitaro um homem que foi um fora-da-lei como seu pastor.
    Jade deixou a mesa, incapaz de tocar na comida.
    - Voc tem que descansar agora - disse-lhe Esmeralda, com firmeza. As trs acompanharam-na at a porta do quarto e abraaram-na, cada uma desejando com fervor 
que, com seu amor e apoio, conseguissem ajud-la enfrentar o que quer que estivesse por vir.
    Hora mais tarde, depois que Esmeralda e Adam retornaram para a prpria fazenda e Prola, Cal e seus meninos foram para casa, Rubi subiu as escadarias at seu 
quarto.  porta de Jade, porm, deteve-se e prestou ateno a algum rudo l dentro. No ouvindo nada, soltou um suspiro de alvio e recolheu-se ao prprio quarto.
    O que no sabia era que o objeto de sua preocupao sara de casa, descendo pela janela, e j estava a meio caminho da cidade.
    
    Jade ergueu o lampio no ar e examinou a grande porta dupla da construo. Faltavam apenas as figuras dos drages ladeando a porta e o nome do estabelecimento, 
detalhes que, certamente, seriam completados nos dias que se seguiriam.
    No interior do prdio, os cmodos cheiravam a tinta fresca. Estavam vazios, exceto por algumas ferramentas deixadas pelos trabalhadores. Seguiu pelas escadarias 
at o andar de cima, examinando o conjunto de aposentos que escolhera para se tornarem seus. Arrumaria seu quarto com uma suntuosa cama de plumas de ganso e lenis 
de cetim. Para ela e Nevada, pensou, lutando contra a onda de pnico que formava um n em seu estmago. Ele estaria ali para partilhar tudo. Teria que estar. Pois 
no aceitaria nenhum outro em sua vida.
    Adiantou-se at uma janela e olhou para a cidade adormecida de Hanging Tree. E se ordenassem a Nevada que partisse? No, no iria pensar nisso. No podia. Afastou-se 
bruscamente da janela, a viso anuviada pelas lgrimas.
    Ao descer a escadaria, parou na metade, avistando algum sob o crculo de luz do lampio.
    - Quem est a? - Sua mo posou imediatamente no cabo do punhal que levava  cintura.
    - Sou eu, Birdie Bidwell. - A garota aproximou-se mantendo os olhos baixos.
    - Voc me assustou.
    - Desculpe-me. Eu ouvi dizer que voc tinha voltado  cidade. Quando avistei a luz, imaginei que fosse voc. Eu... preciso lhe falar.
    - Agora? No meio da noite? Por que no esperou at a manh?
    A garota engoliu em seco.
    - Eu no queria que ningum soubesse sobre... o que vou lhe pedir. Como sabe... - Tornou a baixar o olhar, seu rosto corado - ... os tempos esto difcies. Minha 
me disse que no pode me deixar mais ir  escola da srta. Prola porque precisa que eu trabalhe. O problema  que no h nenhum trabalho na cidade, exceto s vezes 
quando a sra. Potter precisa que eu ajude na penso. E, assim, achei que talvez pudesse me deixar trabalhar aqui.
    Jade tentou ocultar o choque.
    - Sabe o que ser esperado das mulheres que trabalho aqui?
    - Sim. Quero dizer... mais ou menos.
    - Quantos anos voc tem?
    Treze. Mas as pessoas dizem que sou grande para minha idade.
    - Treze anos. E o que acha que seus pais diriam se soubessem que est pensando em trabalhar aqui?
    - Ficariam envergonhados. So boas pessoas, decentes. Mas estou desesperada, srta. Jewel. - Lgrimas inundaram os olhos de Birdie. - Eu ouvi meu pai dizendo 
 minha me que no poderia continuar sustentando a todos ns por muito mais tempo. Ele est... - A menina respirou fundo e falou o restante depressa para ocultar 
a dor - ... est pensando em me mandar sair de casa para que eu me arranje sozinha. E estou assustada. No sei fazer nada alm de cozinhar, limpar e do que tenho 
aprendido nos livros. E ningum daqui tem serventia para essas coisas. Todos mal esto conseguindo sustentar a si mesmos do jeito que as coisas vo. - As lgrimas 
fluam livremente agora.
    Com um aperto no peito, Jade abraou-a, deixando-a entregar-se ao pranto convulsivo at que desabafasse.
    Enfim, Birdie aceitou o leno que lhe entregou e, recompondo-se, prosseguiu:
    - Trabalhar aqui no seria to ruim. Olhe para voc. No importando o que as pessoas falem a seu respeito, voc  uma dama refinada, elegante. A sra. Thurlong 
e as demais dizem que voc  objeto da luxria dos homens. E que muitos j abandonaram suas responsabilidades para com a esposa e os filhos por causa de mulheres 
como voc. - Birdie baixou o olhar. - Mas no me importarei se disserem o mesmo a meu respeito, desde que eu tenha um lugar onde... - Novas lgrimas brotaram-lhe 
nos olhos. - Onde eu possa ganhar o meu sustento. A srta. Prola diz que eu aprendo rpido. Voc poderia me ensinar a fazer... o que quer que seja necessrio para 
ser uma mulher como voc.
    Uma mulher como voc.
    Jade pensou em Lily, concordando com um relacionamento clandestino com seu amante casado porque era tudo o que podia esperar para si. E agora essa menina inocente 
estava querendo abraar o mesmo estigma. Estava disposta a abrir mo da chance de se casar e ter filhos algum dia a fim de sobreviver s tribulaes de sua vida.
    Jade tornou a estreit-la num abrao apertado. Quando, enfim, Birdie ergueu a cabea, ela afastou-lhe uma mecha de cabelo do rosto e fitou-lhe os olhos vermelhos.
    - No se preocupe quanto a ganhar o seu sustento - mumurou. - Voc sempre ter um emprego comigo.
    - Terei? Voc me ensinar... tudo o que eu preciso saber?
    -  o mnimo que posso fazer, j que acabou de me ensinar algo que eu precisava saber.
    - Ensinei? E o que foi, srta. Jewel?
    Jade lanou-lhe um olhar melanclico e misterioso.
    - Algo que eu precisava aprender j h um longo tempo. - Virou a menina na direo da porta. - Agora, v para casa e procure dormir, Birdie. E no mencione a 
sua visita. Ter que ser o nosso segredo.
    - Sim, senhorita. -  porta, ela parou para dizer algo mais, mas Jade j havia se virado. De perfil, parecia triste, pensativa. E mergulhada em pensamentos.
    
    Depois que as notcias se espalharam de que o reverendo Wade Weston havia passado a noite na penso de Millie Potter, uma multido que pareceu somar metade da 
cidade reuniu-se em frente ao estabelecimento, liderada por Lavnia Thurlong e Gladys Witherspoon. Ao que parecia, todos estavam ansiosos por um confronto.
    - Que coincidncia. - Os olhos de Lavnia pareciam capaz de fuzilar, enquanto se dirigia  multido: - O reverendo Wade Weston retorna  cidade, aps uma ausncia 
de algumas semanas, no mesmo cavalo da proprietria desse futuro antro, o Drago Dourado. Eu gostaria de ouvi-lo negar que estava com aquela messalina.
    Um murmrio ecoou pela multido. Elevou-se numa exclamao coletiva, quando todos avistaram o objeto de sua ira surgindo  porta da penso. O reverendo, usando 
um impecvel terno escuro, no tinha o ar de um homem derrotado. Na verdade, parecia mais bonito e charmoso do que nunca.
    Para piorar as coisas, Jade e sua irms chegaram numa carruagem ao mesmo tempo.
    - No  mais bem-vindo nesta cidade, reverendo Weston - brandou Lavnia. - Cidados decentes como ns merecemos algum melhor para nos dar os ensinamentos religiosos. 
Tem muita audcia, sem dvida, pregando da Bblia Sagrada e ao mesmo tempo se envolvendo com uma mulher... perdida. - Vendo que os amigos e vizinhos assentiam em 
concordncia, ela falou com mais veemncia: Hanging Tree  boa demais para algum como voc. Apanhe seu cavalo e desaparea daqui. - Virou-se na direo de Jade 
e as irms. - E leve sua... amiga com voc.
    Esmeralda, Prola e Rubi formaram um cordo protetor em torno de Jade, que as surpreendeu ao se esquivar para ficar sozinha.
    - Minhas irms no fazem parte disto - esclareceu, esperando preserv-las do escndalo. - A culpa  apenas minha.
    Ouvindo-a, Nevada agiu depressa para que as atenes se desviassem dela. Chocou os moradores da cidade ao dizer calmamente:
    - A sra. Thurlong est certa. Todos vocs merecem mais. Foi por isso que voltei. Para admitir a verdade.
    - timo - retrucou Lavnia secamente. - Convocamos uma reunio da cidade nos fundos do armazm Durfee. Vamos resolver logo esse assunto de uma vez por todas. 
- Girou nos calcanhares com um ar altivo, o restante da multido seguindo-a.
    Nevada acompanhando-os, e Jade correu de volta  carruagem. Quando elas e as irms entraram pelos fundos do armazm, todos os lugares tinham sido ocupados. Viram-se 
obrigadas a permanecer de p ao final do salo.
    De onde estava, Jade podia ver todos os rosto familiares. Birdie Bidwell achava-se ali, junto com os pais. Mantinha a cabea baixa, evitando seu olhar.
    Millie Potter estava sentada com as filhas April, May e June. Por perto, encontravam-se Farley Duke e seus empregados da serraria. Embora tivessem aceitado o 
dinheiro de Jade para construir seu prdio e a tivesse cumprimentado efusivamente todos os dias, agora viravam o rosto quando a avistavam.
    Nevada achava-se de p  frente, enfrentando a multido zangada sozinho.
    - No h razo para perdemos tempo - declarou Lavnia, elevando a voz. - Eu digo que devemos ordenar ao reverendo Weston que confesse os seus pecados e que, 
depois, seja banido de nossa cidade para sempre.
    O ajudante do xerife Charles Spitz manifestou sua aprovao:
    - Ento, poderemos nos ocupar com coisas realmente importante, com ir atrs do bando Garland, que vem matando gente inocente nesta regio.
    - Ei, esperem um minuto! - gritou Rufus Durfee. Uma vez que a reunio estava sendo realizada no seu estabelecimento, a multido foi forada a prestar ateno. 
- Vamos estabelecer a ordem aqui. - Levantando-se, bateu com um martelo na mesa  frente do salo, exigindo silncio. - Pelo que vejo, esta  uma simples questo 
de o reverendo estar sendo acusado de ter dormido com uma mulher de m reputao. Algum tem alguma prova de tais acusaes contra os dois?
    - Os dois deixaram a cidade ao mesmo tempo. Semanas depois, voltaram no mesmo cavalo. - Lavnia pousou as mos nos quadris e virou-se com uma expresso indignada 
para seus conterrneos. - No sei quanto ao resto de vocs, mas isso  prova o bastante para mim.
    Com os comentrios maldosos que se seguiram, Jade sentiu as faces queimando. Mas manteve a cabea erguida, recusando-se a sucumbir  vergonha que ameaa domin-la. 
Isso tudo fora culpa sua. Agora, Nevada nem sequer podia negar as acusaes.
    - Creio que devemos dar a chance ao reverendo de se explicar. Depois, os cidados voltaro por uma deciso. - Rufus bateu seu martelo mais algumas vezes, impondo 
a ordem.
    Antes que Nevada pudesse comear, no entanto, o xerife entrou no salo. Tinha a barba por fazer e as roupas ainda cobertas pela poeira da estrada. Com uma expresso 
grave, anunciou em voz alta.
    - Tenho a satisfao de reportar-lhes que o bando de foras-da-lei que tem aterrorizado toda a regio no ir mais importunar ningum.
    A multido vibrou.
    - Obrigada, xerife Regan - disse Lavnia, com fervor. - Tenho certeza de que falo pela cidade inteira quando digo quanto estamos orgulhosos por voc ter conseguido 
nos livrar daquela escria.
    - Na verdade, sra. Thurlong, no fui eu que os eliminei. O reverndo Weston me disse onde eu encontraria os corpos. Cavalguei a noite inteira sem parar para ir 
l verificar e voltar com a notcia.
    - Corpos? - A multido animou-se, ansiosa por detalhes.
    - Acho melhor eu pedir a srta. Jade Jewel que lhes conte sobre sua experincia nas mos do bando. E sobre como foi salva.
    De imediato, a multido virou-se em peso para ela. A hostilidade de todos era quase palpvel.
    - Ela no me parece nem um pouco abalada com essa tal experincia - disse um dos homens.
    - Talvez tenha gostado de ser apanhada por um bando de foras-da-lei - acrescentou outro.
    Os comentrios, alguns sussurrados, outros despejados no calor da raiva eram ferinos, cruis.
    Esmeralda conseguiu revidar com algumas respostas furiosas antes de segurar a mo da irm.
    - No fique nesta reunio ultrajante nem mais um minuto, Jade. Vamos para casa.
    - No. - Jade libertou a mo. Com toda a dignidade, ergueu a cabea e adiantou-se a frente do salo, colocando-se ao lado de Nevada.
    Um pesado silncio pairou no ar.
    - Acho que no h nada mais justo do que dar a vocs o que vieram buscar hoje: a verdade sobre o que aconteceu entre mim e o reverendo Weston.
    
    
    Capitulo 21
    
    Jade fez uma prece silenciosa para que sua voz no lhe trasse o turbilho interior. Se todos queriam a verdade, iria apresent-la.
    Detendo-se um momento para respirar fundo, contou da maneira mais simples possvel sobre o ataque  carruagem, o impiedoso assassinato do cocheiro e o rapto 
dela. Tomou o cuidado de excluir qualquer meno ao relacionamento ntimo com Nevada, a fim de preservar a ambos.
    - Foi o reverendo Weston que me salvou. Se no tivesse reconhecido minha valise na carruagem e seguido o rastro at aqueles malfeitores, eu no estaria aqui 
hoje.
    - Isso no explica como o reverendo estar justamente naquele caminho - declarou Lavnia. - Ou por que um homem religioso estaria armado. Essa histria est mal 
esplicada.
    - Tem razo, sra, Thurlong. - Nevada deu um passo  frente, pronto a desviar a raiva dela para si. - Prometi a verdade a vocs. E  o que pretendo fazer. O fato 
 que eu costumava andar com aquele grupo de foras-da-lei conhecido como o bando Garland.
    A multido explodiu num caos, com exclamaes estupefadas, gritos e imprecaes. Vrios homens no salo sacaram suas armas, apontando-as para Nevada, at que 
o xerife ergueu as mos no ar, exigindo ateno.
    - No haver nenhum tiro neste recinto - gritou. - O reverendo, nem sequer est armado. Prenderei o primeiro homem que no obedecer minhas ordens e guardar sua 
arma no coldre imediatamente.
    Resmungando entre dentes, os homens acataram a ordem.
    Quando o silncio voltou a reinar, o xerife disse:
    - V em frente, reverendo.
    - Como falei, eu fazia parte de um bando. E mais, passei cinco anos na priso pagando pelos crimes que cometi enquanto estava com ele.
    A revelao despertou mais manifestaes zangadas dos moradores da cidade, e o xerife precisou de vrios minutos para restabelecer a ordem.
    - Acho que j ouvimos o bastante - gritou Lavnia. - Esse homem no  um pastor.  um charlato, um farsante. E nos fez bancar os tolos. Eu digo que devemos 
expuls-lo de nossa cidade definitivamente. Somos pessoas boas e decentes que merecemos mais respeito.
    Sua amiga, Gladys, e vrias outras mulheres juntaram-se ao coro, instigando os presentes, exigindo uma votao de imediato.
    De repente, a cacofonia de vozes foi interrompida pela viva Purdy, que chegava amparada pelo dr. Prentice de um dos lados e a filha do outro:
    - Minha me se recusa a ficar na cama - explicou Martha  multido. - Disse ao mdico e a mim que no ir ao encontro do Criador at que tenha a chance de acertar 
as coisas com o reverendo Weston.
    - Ela seria uma tola em colocar suas esperanas num impostor como ele - declarou Lavnia sob o murmrio de aprovao de todos.
    - Silncio - pediu o mdico em seu tom mais profissional. Virou-se para Nevada. - Eu avisei a sra. Purdy de que seria um milagre se vivesse por tempo o bastante 
para dizer o que quer que tenha em mente. Mas parece que est preste a ter seu milagre.
    - Mas eu... - comeou Nevada.
    - No h tempo a desperdiar - interrompeu-o o mdico com um qu de impacincia. - Ajudou a mulher a sentar-se numa cadeira de balano, enquanto a filha colocava 
vrias almofadas ao seu redor para amparar-lhe os ossos frgeis.
    - Venha aqui, meu jovem - ordenou a viva. 
    Quando lhe estendeu a mo, Nevada aproximou-se, hesitante. Ela acompanhou-lhe cada movimento com um olhar ansioso.
    - Eu sabia que teria esta chance - sussurrou.
    - Ento, sabia mais do que eu - disse ele, com suavidade. - Lamento que tenha sofrido tanto para chegar aqui. Mas foi em voa. Eu no sou um...
    - Voc no dir uma palavra. S quero que me oua.
    - Mas no est compreendendo. Eu no mereo...
    A sra. Purdy ergueu a mo para silenci-lo.
    - O que tenho a dizer  a coisa mais importante que voc e a cidade iro ouvir. Agora, escute. - Fitando-o nos olhos, prosseguiu: - Uma vez voc me perguntou 
se esta cidade j havia enforcado algum injustamente. E lhe respondi que no. Mas eu menti. E no posso ir ao encontro do Criador com uma mentira na minha conscincia.
    Houve uma exclamao coletiva de surpresa no recinto e todos se inclinaram para a frente em suas cadeiras, atentos a cada palavra.
    - Voc tambm me perguntou sobre um fazendeiro chamado Jessie Simpson, e eu falei que no podia me recordar do nome. O fato  que todos os antigos moradores 
daqui lembram de Jessie. E seu enforcamento foi um erro.
    Jade observou a mudana no rosto de Nevada. O ar confuso deu lugar a uma expresso dura, sombria.
    A sra. Purdy olhou ao redor, dirigindo-se a todos os presentes:
    - Jessie Simpson tinha uma fazenda modesta, no muito longe da propriedade Jewel. Cerca de vinte anos atrs, o velho xerife Handley prendeu-o por ter matado 
um fazendeiro vizinho e roubado seu gado. Jessie insistiu que era inocente. At convidou o xerife a fazer uma busca em sua propriedade.
    - O xerife encontrou alguma cabea de gado roubada l? - perguntou o dr. Prentice, claramente interessado na narrativa. Aquela era uma parte da histria de Hanging 
Tree que nunca ouvira antes.
    - Nenhuma. Mas isso no serviu para mudar a opinio de ningum. No havia sido o primeiro assassinato da regio, nem o primeiro roubo de gado, e as pessoas daqui 
estavam se sentindo revoltadas e vingativas. Mais ou menos como andaram recentemente, desde que o bando Garland retornou. As pessoas tendem a ficar desse jeito quando 
as coisas comeam a dar errado. De qualquer modo, queriam vingana. Alguns argumentaram que Jessie podia ter escondido o gado roubado em algum lugar ao p da colina. 
A prova, diziam, era que haviam encontrado a carcaa de uma das vacas a menos de dois quilmetros da fazenda dele. No prazo de uma semana apesar de ele insistir 
que era inocente, a cidade teve seu enforcamento. E seguiu-se seu grande e festivo piquenique. Fazendeiros vieram de todas as partes. Os nicos que no se divertiram, 
 claro, foram os familiares de Jessie. Sua esposa e filhos foram obrigados a assistir  horrvel cena.
    Isso fez com que alguns dos presentes estremecessem.
    - Essa histria me soa como qualquer outro enforcamento - gritou Lavnia.
    A viva ignorou-a, mantendo seu olhar fixo no rosto de Nevada.
    - Menos de duas semanas depois do enforcamento, outro fazendeiro foi moro da mesma maneira brutal e teve o gado roubado. Um ms depois, houve mais um crime. 
A essa altura, as pessoas foram obrigadas a admitir a verdade. O mesmo homem havia matado esses outros certamente tambm assassinara o vizinho de Jessie. E isso 
significou que esta cidade boa e descente, da qual tinham orgulho, havia enforcado o homem errado. Um inocente.
    - No pode ter certeza disso - interrompeu-a Lavnia.
    O xerife lanou-lhe um olhar atravessado antes de se virar a viva com uma pergunta:
    - Algum da cidade foi at a famlia Simpson e tentou reparar o erro?
    - Todos sabiam que era tarde demais para isso. Jessie estava morto e enterrado, e no havia arrependimento que pudesse traz-lo de volta. Alm do mais, a essa 
altura, sua jovem viva j havia partido da regio. Segundo os rumores, levou as filhas pequenas consigo e deixou o menino de oito anos para se arranjar sozinho.
    Perante tais palavras, Jade sentiu o corao quase parando. Ouvira tudo isso antes, dos prprios lbios de Nevada. Mas no lhe contara o fato mais importante... 
que seu pai havia morrido enforcado. E que fora obrigado a assistir.
    - Chegaram a pegar o verdadeiro assassino? - perguntou o dr. Prentice.
    A viva sacudiu a cabea.
    - Todos suspeitavam de Tucker Brand, um fazendeiro que vivia sozinho numa cabana nas colinas.
    - E quanto ao xerife? Confrontou esse tal... Tucker Brand com o que se supeitava?
    A sra Purdy tornou a sacudir a cabea tristemente.
    - O xerife estava envelhecendo. O inverno se aproximava. Nada pde persuadi-lo a subir at aquela colina e enfrentar as armas de Tucker. E as pessoas da cidade 
ficaram com medo do criminoso para irem atrs dele sem o reforo da lei.
    - Quer dizer que ningum deteve o assassino? - Lavnia olhou em torno da multido de vizinhos e amigos que mergulharam num silncio sombrio.
    Os olhos de Jade estavam fixos no rosto de Nevada, um rosto contrado pela dor.
    A sr. Purdy prosseguiu:
    - Numa certa noite, quando a neve comeou a derreter, Tucker foi encontrado morto. A cabana fora incendiada, o gado dispersado.
    - Quem voc supe que teve a coragem de ir mat-lo? - perguntou o mdico.
    A voz da viva tremeu:
    - Os rumores foram de que havia sido o garotinho de Jessie. Ningum soube o certo. O menino nunca mais foi visto na regio.
    Embora Jade tivesse ouvido em silncio, perguntou numa voz um tanto embargada:
    - Qual qual o nome desse menino?
    - Danny Simpson.
    Embora j tivesse deduzido a verdade, ela soltou um grito angustiado e cobriu os lbios com as mos.
    Nevada virou-se para fit-la e viu-lhe as lgrimas nos olhos escuros.
    A voz da viva interrompeu-lhes os pensamentos:
    - As pessoas da cidade ficaram to envergonhadas que juraram nunca mais falar do incidente outra vez. Ningum nunca mais chegou perto da Fazenda Simpson, que 
permaneceu l abandonada. Yancy Winslow sentiu tamanha revolta com o que a cidade fizera que cortou a rvore do enforcamento, esperando que isso parasse com as execues 
de uma vez por todas. Mas  claro que no foi assim. Os moradores mais novos, desconhecendo o passado, levaram a tradio adiante. E a cada enforcamento, eu me perguntava 
se poderia ter sido evitado, caso ns tivssemos coragem para admitir o erro do passado. Mas ningum quis ser o primeiro a romper o cdigo do silncio.
    _ Muito bem - disse Lavnia, adiantando-se at a frente do salo, esperando readquirir a confiana de todos. - J contou sua histria, mas isso aconteceu h 
uma eternidade. No vejo o que tenha a ver com nenhum de ns.
    - No mesmo? - A voz da viva Purdy tremeu por um momento, mas fortaleceu-se: - Chamamos a ns mesmos de pessoas boas, decentes, religiosas. E, ento, no hesitamos 
em julgar os outro. Mas algum dia ser a nossa vez de sermos julgados. S sei que quando o meu dia chegar, no esperarei por justia mas por perdo.
    Ela estendeu a mo para o jovem pastor parado ao lado de sua cadeira.
    - Espero que possa perdoar aqueles que tornaram a voc e  sua famlia injustiada.
    Como ele no respondesse, a viva prosseguiu numa voz trmula:
    - Achou que eu no tinha reconhecido voc?
    Um murmrio ecoou pela multido enquanto algumas pessoas comeavam a compreender do que se tratava tudo aquilo.
    Nevada sacudiu a cabea, surpreso.
    - Eu tinha apenas oito anos de idade.
    - E foi obrigado a crescer depressa demais. - Ela segurou-lhe a mo com mais fora na sua. - Lamento do fundo do meu corao, Danny.
    - Danny? - Lavnia arregalou os olhos. - Esse  o filho do fazendeiro que foi enforcado?
    - O prprio - assentiu a sra. Purdy. - Imagino tudo o que ele deve ter sofrido por causa do nosso erro. Espero que me perdoe, Danny. E o resto desta cidade.
    A raiva de Lavnia explodiu:
    - Voc quer o perdo dele? E quanto a ns? E quanto ao fato de que ele fazia parte de um bando sanguinrio? Ora, at seu nome era uma mentira. Sua vida inteira 
tem sido uma mentira. Sabe onde ele esteve nas ltimas semanas e com quem andou?
    - No - respondeu a viva. - E no me importo. Se bem que espero muito que ele tenha estado com algum que conseguisse amenizar um pouco de sua dor. A nica 
coisa que importa  que ele voltou a tempo de ouvir minha confisso. E se Danny me perdoar, morrerei feliz.
    - Sra. Purdy, no h nada a perdoar - disse-lhe Nevada.
    - Sim h. Pecamos contra voc e sua honrada famlia - persistiu a mulher.
    - E eu pequei contra todo mundo. - A voz dele foi levada at a multido. - A Bblia diz que se no admitirmos nossos erros e no nos arrependermos deles, estaremos 
condenados a repeti-los. Uma vez que a sra. Purdy j teve a palavra, aproveitarei este momento para dizer algo tambm
    Quando eu tinha oito anos de idade estava tomado pelo dio. No apenas por esta cidade, mas por Tucker Brand tambm, que havia matado e roubado e sido o responsvel 
pela morte de meu pai. Mas depois os crimes de Tucker no terminaram por ali. Depois que fomos deixados sem a proteo de meu pai, Tucker voltou  nossa fazenda 
e violentou minha me. Foi por isso que fugiu com o primeiro homem que lhe ofereceu uma chance de escapar. E por que me deixou para trs. Eu havia sido testemunha 
involuntria de sus vergonha. A cada vez que olhava para mim, ela sentia a dor e a humilhao novamente.
    Um silncio sombrio pairou no salo. Muitas pessoas baixaram a cabea, evitando encontrar os olhos dos vizinhos e do homem que sofrera tantas injustias e tribulaes 
em sua vida.
    Jade sentiu o corao dilacerado. Pelo garotinho que no tivera a quem recorrer quando seu mundo desmoronara. E pelo homem, que ainda confrontava sozinho uma 
cidade inteira.
    - Eu acho - disse o dr. Prentice em voz alta - que devemos pedir perdo ao reverendo pelos erros que esta cidade cometeu. E, por minha vez, peo-lhe que continue 
como pastor de Hanging Tree.
    - O que ele nos contou no muda nada - gritou Lavnia em meio ao murmrio de vozes. - Ainda se trata de um homem que prega a paz enquanto pratica violncia.
    - Ela tem razo - declarou Nevada. - Eu havia achado que poderia colocar uma pedra sobre minha vida antiga. Mas quando os foras-da-lei de Ned, meu antigo bando, 
atiraram no cocheiro da carruagem e raptaram Jade, no fui forte o bastante para confiar apenas na f. Recorri a nica coisa que aquela corja respeitava: armas.
    - Se isso  um crime - interveio o xerife Regan - ento eu tambm deveria ser condenado. No sei muito sobre pregaes. Mas sei o bastante sobre foras-da-lei 
e violncia. E eu sei o que aquele bando teria continuado fazendo se no fosse liquidado. Se o reverendo no os tivesse eliminado, quem sabe qual de ns teria sido 
a prxima vitima? Acho que a cidade de Hanging Tree est em dbito com o pastor pelo favor que nos fez. E eu espero que vocs, como bons cidados, peam-lhe que 
fique.
    - Quero que voc fique, reverendo - pediu-lhe a sra. Purdy. - No apenas por mim, embora seja um grande consolo t-lo aqui at que eu me v deste mundo. Mas 
pelo bem da minha filha e de todos os outros que deixarei para trs em Hanging Tree, eu espero que esta cidade o receba de volta de braos abertos.  evidente que 
voc se tornou um homem com amor e compaixo no corao. Um homem digno de ser chamado de reverendo.
    - Concordo com a viva Purdy - declarou o dr. Prentice. - Ele foi justo e honesto conosco. E  mais do que muitos de ns podemos dizer sobre nosso prprio comportamento.
    Apesar das objees de Lavnia, Rufus Durffe solicitou a votao. Uma a uma, as mos foram se erguendo. Logo, a cidade inteira votava a favor da permanncia 
dele.
    Lavnia e Gladys trocaram um olhar. Enfim, ergueram as mos com relutncia, para tornar a votao unnime.
    Com um sorriso satisfeito, Rufus anunciou:
    - Parece que tem alguns amigos, reverendo. A cidade inteira de Hanging Tree que que o reverendo Wade Weston... Quero dizer, o reverendo Danny Simpson, que fique 
e continue olhando por seus fiis.
    A viva Purdy apertou a mo de Nevada na sua e, depois, abraou a filha. O dr. Prentice e o xerife Regan deram tapinhas nas costas dele.
    Jade, com seu sorriso radiante, sussurrou-lhe:
    - Agora voc acredita em milagres?
    Antes que ele pudesse responder, a multido aproximou-se para oferecer congratulaes.
    Nevada surpreendeu a todos erguendo as mos e pedindo silncio. Quando as pessoas, enfim, aquietaram-se, disse-lhes:
    - Quero que saibam quanto aprecio o voto de confiana de vocs.  algo que levarei para sempre no meu corao.
    - Est dando a impresso de que vai partir - observou a sra. Purdy.
    - Receio que sim. - Ele viu a expresso magoada no rosto de Jade. Teve que reunir toda a sua fora de vontade para no estreit-la nos braos. Sabia que suas 
palavras lhe causariam dor. Mas no havia outra sada para aquela situao. Teria que ser rpida, clara, definitiva. No fora o que tentara fazer em San Francisco, 
quando partira inesperadamente?
    - Lamento que tenham tido todo esse trabalho por nada. Mas no me perguntaram se eu queria ficar.
    -  por causa do passado, no ? - perguntou a viva Purdy. - No consegue nos perdoar.
    - No  isso. Consegui, enfim, pr uma pedra sobre o passado. Mas j  tempo de eu recomear em algum outro lugar.
    O murmrio de vozes comeou a crescer, at que ele tornou a erguer as mos a fim de que houvesse silncio.
    - Antes que eu me v, eu gostaria de lhes pedir um favor. - Lano um olhar a Jade e desviou-o. A profunda tristeza naqueles olhos escuros era dolorosa demais 
de observar. Numa voz alta e clara, prosseguiu: - Espero que vocs se lembrem dos perigos de se tornarem uma multido cega de raiva. E que demonstrem compaixo pela 
srta. Jade Jewel, mesmo que discordem de seus planos para o novo prdio.
    - Viram? - exclamou Lavnia. - Ele ainda est tentando usar sua influncia para proteger aquela... mulher.
    - Assim como eu usaria a minha influncia para ajudar voc, Lavnia, caso precisasse. - Nevada virou-se para o xerife: - Confio em voc para proteger a srta. 
Jewel, no importando quanto possa discordar dela.
    - Tem a minha palavra, reverendo.
    Nevada apertou-lhe a mo. Ento, com um rpido aceno, dirigiu-se  sada do salo. Com desejos de boa sorte, muitos estenderam a mo para apertarem a dele e 
deram-lhe tapinhas no ombro.
    Quando, enfim, ele saiu, Jade conseguiu alcan-lo, j prestes a montar no cavalo.
    - Voc ia partir sem me dizer uma palavra?
    - Acho que  melhor assim. - Nevada odiou a si mesmo. Mas no havia volta agora. Tinha que ser uma despedida rpida e definitiva. Seria o nico meio de conseguir 
lev-la adiante. - Adeus, Jade. Eu espero... - No, no iria pedir-lhe que pensasse nele. No tinha o direito de lhe pedir nada. - Voc sabe que eu desejo a voc... 
apenas o melhor.
    Nevada instigou o cavalo a um trote veloz. E recusou-se a olhar para trs.
    Jade permaneceu na calada de madeira e, por entre lgrimas, observou-o saindo da cidade. E de sua vida.
    
    
    Captulo 22
    
    A tempestade era iminente, os troves j reverberando na distncia.
    Nevada correu o olhar em torno da pequena cabana, detendo-se na moblia quebrada, nos pedaos de cermica espalhados pelos cantos. Precisara ir at ali uma ltima 
vez. Devia despedir-se do passado e contemplar o futuro.
    Detendo-se um momento para respirar Colocando lenha na lareira, acendeu o fogo e observou-o longamente. Ainda no podia acreditar que dera as costas a tudo que 
j quisera em sua vida. Sim, estava tudo l em Hanging Tree. Com a admisso da viva Purdy de que a cidade enforcara seu pai injustamente no passado, o nome da famlia 
dele fora limpo. Em seguida, o voto de confiana dos moradores havia restaurado sua integridade, seu respeito prprio. E o mais importante: a mulher a quem amava 
tambm estava naquela cidade.
    A mulher a quem amava...
    Teve que fechar os olhos, tomado por uma dor lancinante em seu ntimo. A situao de ambos era impossvel. O pastor e a anfitri de um palcio de prazeres... 
Ainda assim, por mais impossvel que aquilo fosse, sentia-se atormentado ao pensar em como sua vida seria sem ela.
    Durante a vida inteira, lamentara a perda de sua famlia. E embora tivesse tentado negar, comeara a tecer sonhos em torno de Jade. Eram sonhos absurdos, claro. 
Mas isso no impediu que povoassem sua mente. Sonhara com ela como sua esposa, criando um lar acolhedor para ambos, tendo seus filhos.
    Tolices... A seguir, ele a estaria imaginando desistindo do estilo de vida opulento em que nascera e pregando a seu lado para as pessoas de Hanging Tree. Pois 
era assim que queria passar o resto de sua vida. Como um simples pregador. Aquele trabalho era o seu destino. Ningum entendia melhor sobre dor, raiva e o poder 
de cura do perdo do que um homem que pagara to caro por seus erros. Mas a vida de Jade era uma outra histria. Fora educada para oferecer consolo de um tipo diferente.
    Apanhou mais um pedao de lenha e atirou-o ao fogo com exasperao, levantando fascas. Os troves estavam mais prximos agora, e achou ter ouvido as primeiras 
grossas gotas de chuva.
    Deveria ter continuado cavalgando at que tivesse deixado o Texas para trs. Fora um erro ter feito essa parada ali. Havia lembranas demais nesse lugar. Muita 
dor...
    Ergueu a cabea. O que julgara em princpio ser apenas o som da chuva tornou-se claro. Era uma carruagem puxada por uma parelha e se aproximava depressa.
    Adiantou-se rapidamente at a pequena janela e observou enquanto uma figura esguia corria pela chuva forte.
    Um momento depois, a porta foi escancarada, e Jade entrou depressa, fechando-a para bloquear as rajadas de vento.
    Respirou fundo, recobrando o flego. Tinha a tnica de seda respingada de chuva, os cabelos em desalinho pelo vento. Sua voz soou trmula:
    - Eu devia ter sabido que esta cabana era sua, pela expresso em seus olhos daquela primeira vez em que entramos aqui. E atravs de todos os sentimentos que 
ainda pareciam to vivos neste lugar. Pude capt-los, como se fossem fantasmas. Mas s agora consegui entender tudo.
    - Voc no deveria ter vindo. - Nevada no se moveu. Seria perigoso demais para seu controle aproximar-se dela. Jamais teria foras para se afastar outra vez. 
- J dissemos nosso adeus.
    - No. Voc disse o seu. Mas no me deu chance de dizer o que penso. - Jade tornou a respirar fundo e esforou-se para vencer o nervosismo. Tivera tanto medo 
de no encontr-lo ali, de que sua ltima chance tivesse se perdido. E agora que o momento chegara, estava apavorada. - Sabe. Algo aconteceu ontem  noite. Depois 
que todos foram dormir, eu deixei a fazenda e fui at  cidade. Era minha inteno ir at voc, faz-lo enxergar que, por mais impossvel que nossa situao fosse, 
poderamos encontrar um meio de ficarmos juntos. Mas algo me fez parar primeiro para ver o progresso do meu prdio. E enquanto estava l, eu recebi uma visita. Algum 
que mudou a minha vida. 
    - No enten... 
    - Birdie Bidwell foi  minha procura pedindo um emprego.
    A expresso intrigada dele deu lugar a um ar de puro ultraje. 
    - Mas ela  apenas...
    - Eu sei, uma criana. Mas uma criana desesperada, disposta a fazer qualquer coisa para ajudar a famlia. E isso me fez compreender que no posso lhe dar as 
costas. Nem a ningum mais que precisar da minha ajuda.
    - Est me dizendo que vai empreg-la? - A voz dele soou baixa com fria.
    - Voc disse que vai parir de Hanging Tree. Mas  bvio que ainda se importa com as pessoas daqui.
    - Responda-me. Vai contratar Birdie?
    - Isso depender de voc.
    - O que quer dizer?
    - Bem, certa vez Lavnia Thurlong mencionou que o que Hanging Tree realmente precisava era de um templo religioso, no de uma casa de prazeres. Detesto dizer 
isso, mas ela tem razo. E j que eu acabei de construir um prdio grande, deve servir a esse propsito. Isto , se voc no se importar em morar em cima de uma 
igreja.
    Nevada estudou-lhe o semblante como para se certificar de que falava a srio.
    - Est me oferecendo o prdio do Drago Dourado como... uma igreja?
    - Sim. E como o prdio  muito grande, talvez voc queira usar alguns sales para outras coisas, tais como eventos sociais da cidade, reunies, em vez de continuar 
utilizando os fundos do armazm Durfee.
    - Acho uma tima idia. Porm, isso me soa como uma grande empreitada. - Ele tentou manter a expresso sria enquanto a fitava. - Talvez eu precise de uma assistente. 
Conhece algum que estaria  altura da tarefa de organizar todos esses eventos sociais, reunies e coisas assim?
    Jade aproximou-se pela cabana, sustentando-lhe o olhar intenso.
    - Conheo uma mulher que teve uma excelente tutora.
    - Mas no foi para o servio religioso que ela a educou, certo?
    - No. Por isso mesmo essa sua assistente vai precisar de toda a ajuda que puder ter. E, falando em ajuda,  onde Birdie Bidwell tambm entrar. Ela  muito 
eficiente em cozinhar e limpar. E talvez haja outras meninas e rapazes da cidade precisando de trabalho estvel. Talvez queira pensar em contrat-los.
    - Tem uma mente brilhante, srta. Jewel. Como sempre, parece que pensou em tudo. H apenas um problema,  claro. A assistente que voc tem em mente me parece 
perfeita. Mas acho que a cidade no aprovaria que ns dois partilhssemos aquele prdio da igreja sem estarmos casados. Como sabe, um pastor no pode ter uma... 
amante. Assim, ter que ser casamento, ou nada feito.
    - Oh - disse ela, com um ar de completa inocncia. - No mencionei isso?
    - Acho que esqueceu.
    Jade adiantou-se mais at parar diante dele. Erguendo a mo, tocou-lhe a face com ternura.
    - Voc teria que se casar com sua assistente.  a nica coisa que uma mulher como aquela aceitaria.
    - Uma mulher como aquela?
    - Sim, exatamente. - A essa altura, ela no pde mais conter o sorriso que lhe curvou os lbios. - E eu quero filhos. Pelo menos, quatro ou cinco. Como sabe, 
at descobrir que tinha trs irms aqui, eu era filha nica e sempre achei minha vida solitria.
    - Entendo - Nevada tocou-lhe os lbios com o polegar. De imediato, sentiu o fogo do desejo percorrendo-lhe as veias. Afagou-lhe, ento, o rosto adorado, sabendo 
que recebera a maior ddiva de todas.
    - Como v, ter que ser tudo legalizado.
    Ele fingiu refletir a respeito, enquanto fitava aqueles olhos escuros. Cus, como era possvel amar tanto algum?
    - Bem, o que tem a dizer?
    Em vez de palavras, Nevada puxou-a para si e cobriu-lhe os lbios com o seu. O beijo era trrido, faminto, e Jade retribuiu com tamanho ardor que sua mente pareceu 
rodopiar.
    - Acho que posso considerar isso como um sim.
    - Pode. , sem sombra de dvida, um sim.
    - Ento,  melhor retornarmos  cidade e contarmos aos moradores que tero o seu pastor de volta. Quando sa, estavam todos lamentando a perda.
    Nevada estreitou-a ainda mais em seus braos e tornou a beij-la, longa e docemente dessa vez.
    - Haver tempo de sobra amanh. No  aconselhvel sairmos nessa tempestade.
    - Quer dizer que...
    - Sim. - ele mordicou-lhe o canto dos lbios at faz-la suspirar de prazer. - Parece que estaremos presos aqui at amanh de manh.
    Jade piscou para dissipar as lgrimas que lhe afloravam nos olhos. Seu corao estava to repleto de felicidade que parecia trasbordar.
    - Danny Simpson, o seu lugar  aqui, na cidade que voc perdoou - Precisa tanto dessas pessoas quanto elas de voc.
    - E nada mais certo que a filha de Joseph Jewel encontre a felicidade na terra que seu honorvel pai amou.
    Jade abraou-o pelo pescoo, entregando-se aos beijos apaixonados de Nevada.
    Juntos, fechariam todas as antigas feridas. E curariam alguns coraes partidos. A comear pelos deles prprios. E o fariam naquele exato instante.
    
    
    EPLOGO
    
    - Jade, fique quieta enquanto termino seu cabelo. - Prola acabou de tranar delicadas flores-do-campo entre as mechas de bano da irm.
    Tendo dado os toques finais no vestido de noiva, Rubi avaliou o resultado com um sorriso:
    - Jade, chrie, voc est perfeita!
    - Espere at ver todas as iguarias que as mulheres prepararam para o casamento. - Acabando de entrar no quarto um buqu de flores, Esmeralda parou abruptamente. 
- Oh, puxa, quase ia me esquecendo. H um homem diante de seu quarto. Insiste que tem que v-la neste minuto. Mas eu o avisei que o noivo no pode ver a noiva antes 
do casamento.
    - Nevada! - Jade adiantou-se at a porta com um riso contente.
    - Acho melhor voc se acostumar a cham-lo de Dan - lembrou-a Esmeralda. - No ficaria bem para o pregador da cidade ser chamado pelo antigo nome de um fora-da-lei.
    - Tem razo - concordou Jade. - Mas foi por Nevada que me apaixonei no meu aniversrio de dezesseis anos.
    - E espero que seja a mim que continue amando quando fizer cem. - disse ele, entrando no quarto sem esperar ser convidado.
    - Voc sabe o que lhe disse quanto... - comeou Esmeralda. Mas bastou olhar para a irm para sacudir a cabea em resignao. Fez um sinal para Prola e Rubi, 
e as trs deixaram o feliz casal a ss.
    Nevada fechou a porta, estudando a mulher deslumbrante  sua frente. Observou-lhe a tnica de seda branca, delineando-lhe o corpo perfeito, os cabelos pretos 
e lustrosos, adornados com pequeninas flores e com o pente de prata que fora da me dele. A nica jia era o presente que o pai havia lhe dado: o cordo de ouro 
com as pedras de nix e jade. Era uma mulher to bela e adorvel que o deixava sem flego.
    - Algum dos convidados j chegou? - perguntou ela timidamente.
    - Apenas a cidade inteira.
    Jade abriu um sorriso ao estud-lo.
    -  impresso minha, ou est nervoso, reverendo? 
    Ele colocou as mos nos bolsos para no sucumbir  tentao de toc-la.
    - Eu no entendo. Preguei dezenas de vezes e nunca senti o menor nervosismo. E hoje nem sequer precisarei fazer um sermo. Terei que dizer apenas umas poucas 
palavras. Mas estou acordado desde o amanhecer s tentando lembrar o meu nome.
    - Posso entender por qu. Voc j teve tantos. Prefere ser chamado de reverendo Simpson? - Ela diminuiu um pouco mais a distncia entre ambos, afagando-lhe o 
brao. - Ou de Dan?
    Os olhos castanho-claros dele cintilaram com intensidade sob o sol que se filtrava pela janela. Puxando-a para seus braos, roou-lhe os lbios com os seus, 
murmurando:
    - Que tal se me chamar de... marido?
    -  o que mais quero.
    - E eu quero voc. - Nevada beijou-a apaixonadamente at que estivessem ofegantes. - S voc, Jade. Eu quero...
    A porta foi aberta, e Esmeralda sussurrou:
    - Os convidados esto comeando a ficar impacientes.  melhor descerem logo. - Vendo o que acabar de interromper, acrescentou, embaraada: - Oh, desculpem-me. 
Mas as crianas j esto de olho naqueles bolos e tortas. No sobrar nada se vocs no se apressarem.
    - Est bem - disse Nevada. - Desceremos num minuto.
    Quando a porta se fechou, encostou sua fronte na de Jade.
    - Onde eu estava mesmo? - Comeou a beijar-lhe as tmporas, as faces. - Oh, sim. Agora, eu me lembrei. Eu quero.
    A porta tornou a se abrir, e Rubi sussurrou:
    - Ora, vocs tero o resto da vida para isso. Mas agora devem se apressar. Os homens acabaram de pendurar o sino no alto do prdio e ficaram com um tremendo 
apetite. Esto ameaando devorar tudo antes mesmo que a cerimnia comece.
    - Sino? - perguntaram Jade e Nevada em unssono.
    - Oh! - Rubi cobriu os lbios com a mo. - Era para ser uma surpresa.  o presente de casamento dos moradores da cidade para vocs.  para que possam cham-los 
para os cultos.
    Depois que a porta foi fechada, Jade ergueu o olhar para a expresso exasperada no rosto de Nevada e desatou a rir.
    - O que  to engraado?
    - Voc - disse ela, rindo ainda mais. - Se pretende pregar para atender as necessidades da cidade inteira,  melhor ir se acostumando a surpresas. E as interrupes.
    - Mas um homem no pode ter alguns minutos a ss com sua esposa?
    - Quase esposa - lembrou-o Jade. - E se no descermos logo, no haver tempo para o nosso casamento.
    Com um suspiro, ele ofereceu-lhe o brao. Jade estudou-lhe o perfil forte e orgulhoso. Ele estava exatamente como se lembrava da primeira vez que o vira. Bonito. 
Misterioso. E era seu. Todo seu.
    Virou-se para fit-la com um brilho ardoroso no olhar que a fez ficar com o corao acelerado.
    - Eu amo voc. Jade, de todo o meu corao e alma. E lhe prometo que farei tudo que estiver ao meu alcance para que seja feliz.
    - Amo voc tambm - disse Jade, emocionada.
    Enquanto comeavam a descer a escadaria em direo  multido  espera, sentiu o corao transbordando de felicidade. E quando, enfim, os dois trocaram as juras 
solenes da cerimnia, Nevada tirou um anel especial do bolso e colocou-o no dedo dela. Era um anel de ouro e mbar que capturava e refletia a luz de centenas de 
velas.
    -Esta foi a nica coisa de valor que meu pai teve para me deixar - murmurou. - E eu o dou a voc, Jade, junto com meu corao.
    Ela observou aquele smbolo com os olhos marejados.
    - Est enganado - sussurrou. - Seu pai deixou algo muito mais valioso. Voc, para restaurar o nome da famlia dele ao seu devido lugar de honra.
    Com as juras seladas, uniram-se como marido e mulher num beijo apaixonado, sob o murmrio de aprovao da multido.
    Oh, honorvel pai. Voc soube o tempo todo, no foi? Voc esteve aqui bem ao meu lado sempre. O legado que me deixou no foi o de solido. Em vs disso, encontrou 
um meio para que eu tivesse tudo. Um trabalho que me realizar, uma chance de ficar aqui no Texas com as minhas adoradas irms. E melhor de tudo, o homem dos meus 
sonhos.
    A tutora dela estivera errada. O homem no era seu inimigo. Nem tampouco era um mal necessrio. Ele era o desejo de seu corao. O amor de sua vida.
    Com Nevada, o reverendo Dan Simpson, como seu marido, Jade estava preparada para tudo o que o futuro tinha a lhe oferecer.
    Pois o amor, o amor verdadeiro e duradouro, era realmente a maior aventura de todas.
    
    FIM
    
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